Uma nova ciência para um novo senso comum
PopC&T: limitações e possibilidades
exclusão de grande parte da população do
acesso a um conhecimento mínimo em
ciências e tecnologia, as ações de
popularização da ciência seriam
fundamentais para um processo de inclusão
social nesta área.
PopC&T: limitações e possibilidades
Nem todas as proposituras que se aproximam da obviedade são imunes à crítica. Portanto, antes de concluir este capítulo, é importante problematizar alguns dos argumentos apresentados como importantes justificativas para uma necessária e urgente democratização do acesso ao conhecimento científico e tecnológico.
A primeira questão refere-se ao conceito de inclusão e, por conseguinte, ao problema da exclusão social. Nesse caso, é necessária certa cautela para não incorporar a ideia da existência de um povo ávido por incluir-se nos mistérios de um conhecimento científico e tecnológico que lhe é negado. Ao que parece, o processo é mais complexo e não permite escolhas tão democráticas quanto pode aparentar. Na verdade, estamos diante de um modelo de civilização que se impõe e exige que seu estilo seja incorporado por todas as culturas. Em outras palavras, não se trata de desejar incluir-se, mas de necessitar fazê-lo, sob pena de perder-se nos limites da nova cultura. Mas, seriam mesmo necessários conhecimentos científicos e tecnológicos básicos para o cidadão comum poder transitar no interior de uma cultura científico-tenológica? Do ponto de vista de Sánchez Mora (2003), o senso comum serve muito bem na maioria das situações cotidianas e podemos viver satisfatoriamente na nossa sociedade tecnologizada mesmo sem saber quase nada de ciência.
Se isso é mesmo verdade, a questão assume um outro patamar de complexidade, envolvendo a necessidade de popularizar algo que, para a maioria da população, é supérfluo e desnecessário. De fato, isso tem se tornado uma perigosa verdade construída a partir das próprias falas e práticas da ciência que, ao longo de uma história de especificidades e aprofundamentos disciplinares, reservou os seus assuntos aos iniciados e especialistas.
Conforme nos lembra Schwartzman (1997), ao passo que a ciência e a tecnologia foram atingindo altos níveis de complexidade, exigindo grandes somas de recursos, equipamentos sofisticados, além de muito tempo de estudos especializados, com elaboração de linguagens esotéricas e cada vez mais abstratas, aumentaram proporcionalmente as margens de distanciamento entre os cientistas e os leigos.
Se, há não muito tempo atrás, era comum encontrar, em pequenas cidades do interior, mecânicos que conseguiam abrir e consertar o motor de um automóvel, ou técnicos em eletrônica que montavam e desmontavam rádios e TVs, hoje é muito difícil não ter que recorrer à assistência especializada que trabalha com a reposição de peças, inviabilizando os consertos do ponto de vista econômico. Se técnicos e inventores como Thomas Edison e Santos Dumont já foram referências científicas no passado, Schwartzman observa que os heróis científicos de nosso tempo estão mais próximos de Albert Einstein e Stephen Hawking, admirados como homens quase supranaturais, conhecedores de matemáticas incompreensíveis e estranhas teorias que nenhuma pessoa comum tem a esperança de entender.
Contudo, não se trata apenas de não poder entender o mundo, mas de não necessitar entendê-lo. Em sua versão tecnológica, parceira e aliada do mercado e da sociedade de consumo, a ciência alimentou e proliferou a lei do menor esforço. As novas tecnologias resolvem os problemas e dispensam os homens até mesmo de pensarem. Um exemplo típico é a eliminação do elemento humano nas cobranças dos caixas de supermercado iniciada na década de 1990. De acordo com Hobsbawm (1995), a nova atividade não exige do operador mais que o reconhecimento da moeda local e o registro da quantidade entregue pelo cliente. Um scanner automático traduz os códigos de barra colados nas mercadorias, soma todos os preços, deduz o total do valor entregue pelo cliente e informa ao operador quanto dar de troco. Embora se trate de uma atividade complexa, não exige dos operadores mais que um conhecimento mínimo dos números cardinais, um pouco de concentração e muita paciência. Interessa muito mais usar, usufruir e descartar produtos e serviços do que conhecer o funcionamento das coisas para poder interferir, adaptar, consertar e melhorar objetos e serviços, ações cada vez menos necessárias e cada vez mais proibidas. De acordo com Shamos:
O ponto chave da questão está no fato de que a maioria das pessoas
pode viver na sociedade virtualmente ignorando a ciência e a técnica, ao
mesmo tempo em que desfrutam de todo o seu conforto, de forma que a
sociedade se isolou da necessidade de saber ou compreender a origem
destes avanços (apud SABBATINE, 2004).
Para que visitar uma exposição de ciências e tecnologia envidando esforços para tentar compreender um mundo em que não se deve interferir; uma realidade que parece bastar-se como mercadoria?
De fato, como alerta Lévy-Leblond (2006), podemos estar próximos de um processo de esgotamento em que a ciência, em sua versão tecnológica de grande eficiência prática, sobreponha-se à sua dimensão intelectual. Com efeito, se pretendemos salvaguardar o esforço humano intelectual e especulativo, teremos que mudar de caminho e alimentar a dimensão utópica de uma nova/velha ciência.
Referindo-se especificamente àquelas atividades desenvolvidas em espaços não formais de educação como Museus e Centros de Ciências, Loureiro (2003) acredita que também ali estamos diante de uma realidade onde as classes dominantes e dominadas buscariam estabelecer valores de consenso e ações voltadas à construção de hegemonia. Portanto,
[...] os museus de ciência públicos brasileiros, integrando a superestrutura
(sociedade civil +sociedade política ou direção cultural ou moral +
aparelho de Estado), contribuiriam por meio de suas representações
expositivas, para a efetivação da hegemonia (LOUREIRO, 2003 p.10)
Para o referido autor, tais reapresentações expositivas delimitariam o território dos monólogos, dificultando o espaço da dialogicidade e criando obstáculos a uma práxis verdadeiramente transformadora. Ao criar determinismos advindos da ortodoxia científica, as exposições, semelhantes àquelas realizadas através de Museus e Centros de Ciências, buscariam um consenso quanto à concepção do real e à lógica capitalista e burguesa que a preside.
Embora concordemos em parte com o autor, não entendemos o espaço pelo controle hegemônico como um espaço definido unicamente pelo discurso das classes dominantes. Assim como a escola, o espaço da educação não formal também se constitui em ambiente de disputa pela hegemonia, podendo converter-se em ambiente de fecunda discussão e diálogo mediatizado pela realidade. De fato, como nos adverte Albagli (1996), uma das tarefas mais complicadas a serem realizadas no desenvolvimento de programas de PopC&T é alcançar um equilíbrio entre o entusiasmo pela ciência e a necessidade de se evitar transmitir ao público leigo uma visão exagerada de suas reais possibilidades. Mais uma vez estamos no terreno das possibilidades e os riscos não podem inviabilizar as importantes iniciativas de popularização do conhecimento científico e tecnológico. Tudo vai depender da concepção de ciência que orienta as ações nestes, como em quaisquer outros espaços de intervenção educativa.
No que se refere ao controle social da ciência pela população, um outro argumento que, a primeira vista, revela-se bastante coerente e oportuno, não nos parece ser tão factível do ponto de vista prático. Decerto que a intromissão do povo em questões polêmicas envolvendo ciência e tecnologia, apesar de reconhecidamente necessária, reclamaria um conhecimento mais do que elementar e uma forma de organização da sociedade que garantisse mecanismos de participação e controle, o que ainda está muito aquém de nossas reais possibilidades. Conforme lamenta Candotti,
... as grandes discussões ainda não alcançaram o grande público.
Estamos sem instrumentos de massa para enfrentar os desafios que a
ciência coloca na mesa para decisões. A fabricação da bomba atômica de
hoje será novamente decidida pelos generais e não pela sociedade. Não
será ela que vai controlar a clonagem, as manipulações genéticas ou os
novos fármacos (2005, p.47).
Por outro lado, reclama Sabbatini (2004), “as controvérsias científico-tecnológicas possuem fortes ingredientes emocionais que levam à distorção de juízos independente do grau de alfabetização científica do indivíduo”.
Um exemplo relevante é a controvérsia em torno das pesquisas envolvendo células-tronco embrionárias que, embora não possa ser tratada como simples conflito entre progresso científico e preconceitos religiosos reacionários, também não pode ser reduzida a argumentos puramente científicos. O debate gira em torno da divergência em relação ao que se constitui um ser humano vivo. Mais especificamente, se embriões recém-formados e constituídos por um número pequeno de células já podem ser considerados um ser humano vivo, ou se, apenas a partir de certo patamar de desenvolvimento, este conceito seria aplicável de fato. Na opinião de Lacey (2007a), essas divergências têm importância ética e não devem ser minimizadas sob a falsa alegação de que se reduzem apenas a sentimentos religiosos tradicionais que se interpõem ao desenvolvimento das pesquisas, nesta, como em outras áreas do conhecimento.
Se, pelo menos em tese, os seres humanos vivos têm direitos, o primeiro e mais importante deles é, sem dúvida, o direito à vida. Nesse caso, a questão é mesmo a de estabelecer uma linha divisória que possa definir, com certa clareza, quando um novo ser humano vivo é constituído. Para os defensores do direito ao aborto e das pesquisas com células-tronco embrionárias, até que um embrião alcance uma determinada etapa de seu desenvolvimento, ele não pode ser considerado um ser humano vivo, tratando-se apenas de um conjunto complexo de células e moléculas ligadas aos tecidos de sua mãe. Do ponto de vista de Lacey (2007a), este não é um resultado comprovado cientificamente. Sendo empíricas, as pesquisas científicas podem dizer muito sobre um embrião nas diversas etapas de seu desenvolvimento, mas não podem garantir que uma determinada etapa específica marque o início da vida humana e não um novo momento no processo de maturação. “A ciência nos revela que o genoma distinto de um ser humano maduro está presente assim que foi formado o embrião, mas não que o genoma é suficiente para que esse ser se constitua um ser humano vivo. Um ser humano vivo tem direitos, e “direitos” não fazem parte da linguagem da teoria científica. A ciência não pode decidir sobre questões-chave de importância ética” (LACEY, 2007a).
Aqueles que exigem restrições éticas às pesquisas com células-tronco embrionárias questionam o Princípio do pressuposto da legitimidade imediata
das inovações técnico-científicas 62 (PLP) e sugerem como alternativa o princípio da precaução (PP). Conforme este último, “É obrigatório praticar a precaução a respeito de novas aplicações tecno-científicas, em decorrência de seus riscos potenciais, e permitir – previamente à implementação das aplicações – um prazo razoável para que sejam realizados e avaliados estudos ecológicos, sociais e outros ainda que se mostrem relevantes” (LACEY, p.2, 2007b).
Os adiamentos propostos pelo princípio de precaução são bastante criticados pelas instituições científicas predominantes, sobretudo porque ferem alguns princípios sagrados da prática científica vigente: a autonomia, a objetividade e a neutralidade. Embora o estabelecimento de limites éticos, de fato, coloque em dúvida alguns princípios caros à ciência moderna, a resistência ao princípio de precaução está relacionada a outros fatores alheios a este debate. E como o próprio Lacey (2007b) reconhece, em um contexto onde as relações de produção do conhecimento científico mudaram radicalmente, de uma prática predominantemente pública, para uma prática de interesse e controle privados e comerciais, é natural que a maior parte da pesquisa seja mesmo desenvolvida à luz do princípio da legitimidade técnico-científica e em detrimento do princípio da precaução.
Outro exemplo emblemático que ilustra muito bem este fato foi a invasão do
horto florestal e dos laboratórios de pesquisa da empresa Aracruz Celulose63 por parte do MST e da Via Campesina em 2006. Conforme matéria veiculada na Gazeta do Povo (2006), exatamente no dia 08 de março (Dia Internacional da Mulher), quase mil e duzentos integrantes do MST e da Via Campesina (na maioria mulheres), rasgaram as estufas e com as próprias mãos arrancaram as mudas dos viveiros, além de invadirem o laboratório, destruírem equipamentos e misturarem sementes selecionadas de eucalipto. Para o geneticista Dario Grattaglia, pesquisador ligado à Embrapa e coordenador do projeto, tratou-se de um ato de vandalismo, apoiado em justificativas absolutamente ignorantes. Na opinião de Aurélio Mendes de Aguiar, da Aracruz, o ato da Via Campesina foi como “um tiro no pé” do próprio movimento agrário, visto que o principal objetivo do projeto era, justamente, o aumento da produtividade do eucalipto sem a necessidade de maior expansão das áreas plantadas. Quanto mais produtiva for cada árvore, prossegue Aurélio, menor será o impacto sobre o meio ambiente.
Na versão do MST (2006), o país não pode ficar refém das florestas homogêneas como a de eucalipto nem de monoculturas que destroem o meio ambiente. Portanto, a ação das mulheres camponesas teria sido muito importante, sobretudo para chamar a atenção da sociedade para a necessidade de um debate amplo sobre o sistema produtivo e os produtos geneticamente modificados. Para os líderes do movimento, que conta com o apoio de vários grupos ambientalistas, a monocultura do eucalipto, como qualquer outra monocultura, é extremamente nociva ao meio ambiente, causando uma drástica redução da biodiversidade, ressecamento do solo, erosão e desertificação do clima, além de transformar a paisagem e a identidade cultural da região.
Como fica evidente, ainda não existem, no Brasil, espaços democráticos apropriados à realização deste debate e, concordamos com Santos (2007) que as democracias representativas estão em crise, não havendo mais uma referência dos representantes em seus representados. Um exemplo disso foi o recente episódio da liberação do plantio de milho transgênico no Brasil. Embora se tratando de um tema polêmico e de maior relevância para o povo brasileiro, passou despercebido e sem o necessário juízo da grande maioria da população.
Apesar das muitas recomendações em torno dos riscos que envolvem a cultura do milho transgênico, na terça feira, dia 12 de fevereiro de 2008, a maioria dos ministros que compõem o Conselho Nacional de Biossegurança (CNBs), autorizou o plantio e a comercialização de variedades geneticamente modificadas da Monsanto e Bayer. Desconsiderando uma farta documentação com claras evidências contra os milhos transgênicos produzidos por estas empresas e, sem levar em consideração a opinião da população, sete dos 11 ministros que formam o CNBs (Agricultura, Ciência e Tecnologia, Relações Exteriores, Desenvolvimento, Defesa, Justiça e Casa Civil) votaram a favor da liberação, e quatro votaram contra (Saúde, Meio Ambiente, Desenvolvimento Agrário, Aquicultura e Pesca).
O desacordo entre ministros e cientistas evidencia que a matéria não é trivial, exigindo um maior interesse e apreciação pública por parte da comunidade. No entanto, como vimos questionando, esta influência da opinião pública em matérias científicas controversas e polêmicas, além de uma crescente PopC&T, envolve uma nova consolidação democrática, pois, como se percebe, as questões de ciência e tecnologia não estão confinadas a uma neutralidade das pesquisas, mas envolvem outros interesses que acabam encontrando no discurso da ciência o apoio de um aliado ou as agressões de um perigoso inimigo.
É claro que o problema transcende os limites da quantidade de informações disponíveis que, embora necessárias, não são suficientes. A questão ultrapassa em muito os limites da ciência e abarca muitas outras disputas que envolvem todo o conjunto da sociedade e o estabelecimento de novos mecanismos de participação democrática. Talvez os cidadãos até se interessassem em compreender algo sobre manipulação genética ou energia nuclear, mas esse conhecimento, por si só, não lhes garante acesso direto ao poder de decisão sobre os rumos das pesquisas nessas áreas, cabendo sempre aos especialistas a palavra final. Compartilhar o conhecimento é apenas um passo na direção de algo maior e mais complexo: a partilha do poder.
No entanto, as dificuldades de realização objetiva deste debate não invalidam a qualidade do argumento. Em todo caso, interessa-nos chamar a atenção do leitor para as limitações desta, como de quaisquer outras falas, neste universo que nos parece por demais complexo e “pantanoso”.
As justificativas relativas a uma maior possibilidade de apreciação estética mediante um maior conhecimento científico e tecnológico, também, devem ser minimizadas e analisadas com certa reserva. Principalmente, considerando que a ciência produz um desencantamento do mundo e ao explicar a realidade a partir de categorias universais, subtrai muito de seu deslumbramento mais próximo de um olhar inocente e de senso comum. Por outro lado, não se deve esquecer o caráter relativo das apreciações estéticas.
De um ponto de vista pragmático, o argumento mais exequível, em curto prazo, é, sem dúvida, aquele relacionado aos próprios interesses da ciência. Nesse caso, a popularização do conhecimento científico e tecnológico estaria orientada para atrair novo interesse da sociedade pela ciência, despertando novas vocações científicas, maior contingente de pesquisadores, maior quantidade de pesquisas e aplicações tecnológicas com geração de divisas para o país e novas remessas de verbas destinadas à ciência e tecnologia.
De acordo com Albagli (1996), a perda de prestígio da ciência, verificada principalmente após os anos sessenta, culminou por ser interpretada por uma parcela significativa da comunidade científica como uma consequência da falta de compreensão social daquela atividade, o que levou a uma ofensiva no sentido de uma maior familiarização das atividades científicas. Uma maior PopC&T, certamente, conduziria a uma maior compreensão e apoio da população aos projetos e interesses da comunidade científica.
Um exemplo mais recente que ilustra muito bem este fato, aconteceu na década de 1990, quando uma parte dos físicos americanos sofreu uma importante derrota no que se referia ao financiamento da ciência: a interrupção do projeto que envolvia a construção de um dos maiores aceleradores de partículas do mundo, o Large Collison.
Com o fim da guerra fria e a dissolução da União Soviética, um novo acelerador de partículas parecia desnecessário aos olhos do Congresso americano que preferiu desativar o apoio ao projeto. E, mesmo depois de um intenso debate na sociedade, em que físicos e jornalistas científicos importantes escreveram a favor ou contra, o Congresso americano tomou a decisão final de não prosseguir com o projeto. Para alguns cientistas, esse tipo de derrota estaria relacionado à falta de compreensão popular da ciência.
Esta é uma perspectiva claramente corporativa e que busca apenas uma maior legitimidade e apoio tanto para a comunidade científica como para a ciência. Mas por esta perspectiva, a PopC&T certamente não será ampla, ficando limitada a uma simples propaganda da ciência, a exemplo das doses homeopáticas prescritas por Smith. Uma prova inconteste desse fato é o paradoxo das patentes e o direito de propriedade intelectual (DPI).
Certamente que, dentro da lógica de uma ciência que se reduz aos critérios de mercado, o patenteamento das invenções e o controle da criatividade serão largamente propalados como critérios de desenvolvimento científico e crescimento econômico das nações. Mas na obra “Biopirataria, a pilhagem da natureza e do conhecimento” Vandana Shiva (2001) chama a nossa atenção para os riscos e prejuízos envolvidos nestes processos. Conforme a autora indiana, o reducionismo da ciência moderna, ao assumir a mercantilização do conhecimento como critério único de validade científica, despreza muitos outros saberes não-reducionistas e ecológicos que vão sendo marginalizados e esquecidos. Por exemplo, ao redefinir seres vivos e biodiversidade como fenômenos “criados pelo homem” o paradigma da engenharia genética está aniquilando os últimos remanescentes do paradigma ecológico (SHIVA, 2001, p.47). É justamente nestes particulares que melhor se revelam os argumentos de nossa tese. Não é qualquer ciência que pode pretender-se popular, como não vai ser qualquer projeto científico que vai querer abrir mão do controle de seus segredos e da proteção de suas patentes, libertando a criatividade do jugo imperativo do mercado. É necessário construir uma nova ciência que se pretenda popular e o movimento de PopC&T que defendemos aqui pretende assumir essas características.
Outro argumento importante e de grandes possibilidades práticas é aquele que chama a atenção para o fato de que a PopC&T pode ser importante para revelar as limitações dessa forma de conhecimento, tornando públicas as suas possibilidades e riscos. Considerado o tipo de poder que o discurso da ciência e tecnologia exerce hoje no mundo, esta é uma das mais importantes justificativas para a socialização deste conhecimento. Popularizar o que desconhecemos e as limitações do que afirmamos conhecer é tão ou mais importante do que difundir os conteúdos da própria ciência.
Nesta perspectiva, Wynne assume uma postura radical e defende a ideia de que é mais importante informar a sociedade sobre os mecanismos institucionais relacionados ao controle, ao financiamento e à organização da ciência do que ensinar os seus conteúdos em si (apud ALBAGLI, 1996). Como todas essas questões estão imbricadas, o ideal seria atacar em todas as vertentes. Mas o processo não é tão simples quanto possa parecer.
O entrelaçamento entre ciência, desenvolvimento econômico e mercado, impõe barreiras a quaisquer informações que revelem os limites das conquistas anunciadas pelas inovações científico-tecnológicas. É sempre mais lucrativo e econômico omitir os riscos e efeitos colaterais. Um exemplo bem próximo é o mistério que circunda as bulas dos remédios com suas letras quase invisíveis e uma linguagem técnica que, propositadamente, esconde os possíveis efeitos negativos da medicação. Além disso, sob o domínio das patentes, também não é de interesse a popularização do conhecimento envolvido, isto é, dos compostos e métodos utilizados nos processos de fabricação.
Um outro exemplo típico da omissão de detalhes envolvidos nas pesquisas científicas é o caso da “criação” da ovelha Tracy.
“... uma invenção biotecnológica” dos cientistas da Pharmaceutical Protein
Ltd. (PPL), Tracy é chamada de “biorreator de células de mamífero”,
porque pela introdução de genes humanos, suas glândulas mamárias
foram induzidas a produzir uma proteína, a alfa-1-antitripsina, para a
indústria farmacêutica. Como afirma Ron James, diretor da PPL: “A
glândula mamária é uma excelente fábrica. Nossas ovelhas são pequenas
fábricas lanudas perambulando nos pastos e fazem um ótimo trabalho”
(SHIVA, 2001, p. 42).
Esta é uma forma antiga de dispor da natureza como objeto e atinge agora as próprias entranhas dos seres vivos sem revelar os riscos e estragos que ficam pelo caminho. No caso da ovelha Tracy, não foi dito que, dos 550 óvulos inoculados com DNA híbrido, 499 sobreviveram, mas quando transplantados para as mães portadoras, apenas 112 cordeiros nasceram. Dos que nasceram, apenas cinco continham genes humanos incorporados em seu DNA e desses cinco, apenas três apresentavam alfa-1-antitripsina no leite. Entre os três, dois produziam apenas três gramas da proteína por litro. No entanto, Tracy, que produzia trinta gramas por litro foi o único animal entre os 112 biomodificados a se tornar conhecido e ovacionado (SHIVA, 2001, p.43). Os outros 111 animais modificados são simplesmente desconsiderados e as possíveis consequências de tais intervenções nos processos naturais são esquecidas ou adiadas.
Embora não seja simples, o argumento é válido e muito importante. A permanente luta e vigilância de cientistas e ambientalistas no sentido de popularizar as limitações das conquistas apresentadas por um tipo de ciência reducionista e mercantilizada tem sido de grande valia para todo o conjunto da sociedade humana, como para a sobrevivência do planeta.
Um outro traço relevante ainda nesta perspectiva é a desmistificação da imagem do cientista. Em geral, quando se fala em PopC&T parte-se de um princípio que absolutiza a ignorância, dispondo, de um lado, o público popular, considerado leigo e ignorante, e do outro, os cientistas, que são os protagonistas do conhecimento. Como nos lembra Lévy-Leblond (2006), esta é uma representação equivocada da realidade, própria da divisão que se fazia no século XIX, entre os cientistas detentores de um conhecimento geral e universal, e o público leigo e ignorante a quem era necessário transmitir o conhecimento. No contexto atual, o domínio de conhecimentos gerais é completamente impossível, e mesmo em áreas restritas, é difícil abarcar a quantidade e velocidade dos novos conhecimentos. Desse ponto de vista, os cientistas não são diferentes do povo, exceto em suas especialidades básicas; e mesmo nestas, cada vez mais ignoram as novas especificidades que vão sendo desenvolvidas. Em um sentido mais profundo, os cientistas ignoram muito da ciência que seus colegas praticam. Snow (1995) já havia chamado a atenção para este fato quando percebeu o estranhamento entre as chamadas ciências naturais e as ciências humanas. Infelizmente o isolamento e a dificuldade de comunicação e diálogo tornaram-se marcantes e crescentes entre os próprios cientistas. Nesse caso, como escreve Lévy-Leblond (2006), haverá necessidade de incluir a própria comunidade científica no processo de comunicação pública da ciência.
Para nós, a popularização envolve muito mais que uma simples proliferação de falas da ciência nos meios populares. Defendemos a tese que, no esforço por construir uma hermenêutica que lhe permita aproximar-se dos saberes populares e de senso comum, a ciência deverá reencontrar um novo caminho de comunicação consigo mesma e com o humano, reencontrando, assim, um novo sentido ético que se caracteriza muito bem naquilo que Santos (2004b) define como um Conhecimento Prudente.
Se, em uma primeira ruptura, o homem descolou-se da natureza para inaugurar a cultura, e a batalha exigiu um maior domínio e controle dos mistérios da natureza, tarefa realizada com enorme sucesso pela ciência moderna, através de uma maior radicalização da ruptura com o senso comum, agora é necessário reconhecer que depois de libertar-se dos perigos de uma natureza hostil, o homem encontra-se novamente aprisionado pelos grilhões de sua própria cultura. Cumpre, pois, realizar uma outra ruptura, desta feita, com a cultura da mercadoria, do consumo e da ciência moderna. Uma negação que deve resultar em uma nova síntese pautada no respeito e no cuidado com o ecossistema do qual, finalmente, o homem percebe-se como parte. Não se trata mais de dominar a natureza, mas de aliar-se a ela para dominar uma ciência que, através de leis e princípios universais, vem desumanizando e naturalizando a cultura.
Se, como escreve Ilya Prigogine, a ciência tornou-se “... um corpo estranho no interior da cultura, um corpo cujo crescimento canceroso ameaça destruir o conjunto da vida cultural; a questão, de vida ou de morte, é de dominar a ciência, de lhe dominar o desenvolvimento, ou de se deixar subjugar, aniquilar por ela” (PRIGOGINE & STENGERS, 1997, p.22).
No entanto, se a questão é, de fato, o controle da ciência, este só pode ser conquistado através do próprio conhecimento de seu discurso e de suas práticas e, como nos lembra Santos (2003, p. 27), “o discurso científico é hoje, em face do cidadão comum, um discurso anormal no seu todo e..., só será socialmente compreensível se, perante ele, adotarmos uma atitude hermenêutica”. É na interface desta hermenêutica que situamos a nossa tese.
Sem dúvida, uma das maiores questões, se não a maior questão do século XXI, é como humanizar a ciência, como submeter os avanços técnico-científicos a valores éticos, como dar um novo sentido ao processo civilizatório, contrapondo os grandes êxitos técnico-científicos com os riscos que se colocam para humanidade. Desse ponto de vista, popularizar a ciência é tentar trazê-la para perto do povo e, consequentemente para junto da vida, da beleza e da arte. É trazê-la de volta para o seio de uma cultura muito mais rica e diversa perante a qual ela deve curvar-se em sinal de reverência.
Assim, quando sugerimos a possibilidade de diálogo entre os saberes populares e o conhecimento científico, não estamos apenas elucubrando um sonho impensável e impossível. Pelo contrário, trilhamos os caminhos de uma nova ciência que começa a vincular conhecimento local e conhecimento global e reconhecer a afetação intransponível entre observador e observável, em um conhecimento que se encanta e se encontra no que encontra; que se emociona e se vê no que vê. Em face disso, torna-se inevitável reconhecer que o diálogo entre o conhecimento científico e os saberes de senso comum tanto é possível, como viável e imprescindível. Não obstante, os esforços para uma efetiva PopC&T demandam, além de uma nova postura diante do senso comum, a gênese de uma nova ciência muito mais envolvida e comprometida com os interesses populares. Obviamente esta não será uma tarefa das mais simples e, certamente, exigirá grandes esforços criativos alimentados em visões utópicas de realidades presentes no intervalo aberto de suas ausências.
Se o domínio global da ciência moderna trouxe consigo enormes benefícios em termos de inovações e vantagens tecnológicas, trouxe ainda a desvalorização e destruição de muitas outras formas de saberes próprias dos povos sujeitos à colonização ocidental. Daí a grande dificuldade da construção de conhecimentos multiculturais que melhor se traduz nas perguntas de Santos: como realizar um diálogo multicultural quando algumas culturas e indivíduos foram reduzidos ao silêncio e as suas formas de ver e dizer o mundo se tornaram impronunciáveis? Como fazer falar o silêncio sem que ele fale necessariamente a linguagem hegemônica de quem lhe pretende fazer falar (2004b p.30)? Ou, no dizer de Freire, como desenvolver ações comunicativas sem reduzi-las aos limites de meros comunicados?
Além de dar visibilidade e fazer falar culturas silenciadas, o caminho multicultural enfrenta o desafio da diferença. De acordo com Santos (2004b), o encontro permanente com o diferente, na “zona de contato” entre culturas diversas, exige uma teoria da tradução como parte integrante da nova teoria crítica. É através da tradução e do que ele designa por hermenêutica
diatópica64 que as necessidades, aspirações e as práticas de uma determinada cultura podem vir a tornarem-se compreensíveis e inteligíveis para a outra.
Do nosso ponto de vista, a tese de Santos não está circunscrita apenas ao universo de contanto entre culturas exóticas e povos distantes, mas aos estranhamentos presentes no interior de uma mesma cultura. Se, a cultura científica e acadêmica afasta-se da cultura popular para, em um segundo momento, reaproximar-se dela, defendemos a tese que, a hermenêutica diatópica sugerida por Santos também se aplica a estes casos. Mas esse é um problema que diz respeito aos modos de intervenção que, para além da crença de que os fins justificam os meios, devem assumir, desde as bases, pressupostos democráticos e dialógicos.
De fato, considerada a enorme necessidade de atuação nesse campo, geralmente fica-se bastante satisfeito quando se consegue algum resultado satisfatório com a reconhecida socialização de alguns conhecimentos e uma relativa resposta popular aos projetos, desconsiderando os prejuízos produzidos pelas estratégias que foram usadas ao longo do caminho.
Neste particular, Huergo (2001) sinaliza para o termo estratégia que, por si só, já possui um sentido negativo. Originalmente relacionado com o mundo da guerra, indica, em princípio, a combinação de ações e encontros “isolados” com o inimigo para alcançar os objetivos do conflito: derrotar as forças adversárias, conquistando o seu território e a sua vontade. Essa visão acaba se prolongando, em maior ou menor grau, em todas as intervenções para o outro ou sobre o outro. E, como Freire já havia alertado, planejar estratégias para ou sobre o outro, termina significando fazê-lo contra ele.
Nesse sentido, as estratégias são antidialógicas e se revelam como imposições de frentes culturais estranhas que vão se introduzindo sutil e persuasivamente nas entranhas culturais do cotidiano das classes populares. O próprio “diálogo” pode ser uma estratégia de conquista e Sócrates sabia utilizá-lo, com maestria, para encurralar o pensamento dos sofistas e derrotar seus argumentos na praça do mercado em Atenas. Uma relação dialógica não significa imediatamente uma relação de igualdade. Nesse particular, Kulesza (1998, p.42) nos questiona sobre a simplicidade de trabalhar no sentido de refinar o conhecimento popular através da crítica da experiência imediata do senso comum, perfazendo a ruptura epistemológica que, conforme Bacherlard, tornou possível a ciência moderna. A dificuldade aparece quando começamos a pensar no caminho inverso, na intromissão do senso comum ou – usando a terminologia gramsciana – do bom senso, no discurso da ciência.
Geralmente admite-se, como lembra Kulesza (Idem, p.37), que com não poucas restrições, o conhecimento produzido pelos cientistas possa ser difundido, vulgarizado e até divulgado, mas sempre no sentido da academia para as classes populares. Se os critérios de validação do conhecimento estão ligados à comunidade científica com seus laboratórios, congressos, publicações e rigorosos critérios de avaliação e seleção, como os argumentos ou questionamentos oriundos das classes populares e dos não cientistas encontrarão eco nos corredores desse mundo estranho em que nem mesmo os próprios pares conseguem ser ouvidos?
Um exemplo que confirma nossa preocupação são os serviços prestados pelos guias e mateiros. É indiscutível que sem eles boa parte das pesquisas desenvolvidas, nas florestas, careceria de insumos e continuidade. “Dificilmente o pesquisador reencontraria as suas amostras ou mesmo o caminho de casa, sem a ajuda desses profissionais das matas” (CANDOTTI, 1992, p.3). No entanto, seus nomes quase nunca são citados e raramente recebem algum crédito nas publicações dos trabalhos científicos que o seu saber ajudou a produzir.
A esse respeito, Freire (1999, p.135) nos lembra que:
Discutir, por exemplo, com camponeses que as universidades estão
comprovando alguns de seus saberes é tarefa política de alta importância
pedagógica. Discussões, assim, podem ajudar as classes populares a
ganhar confiança em si ou aumentar o grau de confiança em que já se
achem. Confiança em si mesmas tão indispensável a sua luta por um
mundo melhor...
No entanto, conforme sugere a professora Costa (1998, p.57), o conhecimento que é produzido socialmente, não o é, democraticamente. Há vozes que são mais fortes para se fazerem ouvir, há discursos que são mais poderosos para estabelecerem os seus critérios como “verdadeiros” e o mais poderoso deles todos é, atualmente, o discurso da ciência que, apoiado na validação concreta dos aparatos tecnológicos, parece possuir a verdade absoluta.
O que fazer, então? Como dialogar com o outro a partir de “nossa torre de marfim”?
Realmente a questão não é tão simples como poderia parecer à primeira vista. De um lado, estamos nós, os intelectuais, apoiados no poderoso conhecimento científico, querendo estabelecer um diálogo com o povo oprimido a respeito desse conhecimento. Do outro lado, o povo que tem estratégias próprias e respostas para as várias demandas do cotidiano e na maioria das vezes, consegue sobreviver tranquilamente sem a nossa ciência. Como então, poderemos atuar no universo da cultura dos grupos populares e trabalhar com eles e ao seu favor sem cair naquilo que Freire chamava de invasão cultural?
Uma alternativa interessante, se não fosse romântica e improvável, seria o espontaneísmo, isto é, não fazer nada, permitindo que os setores populares pudessem estabelecer as suas próprias ações comunicativas e o diálogo entre os seus pares sem a nossa incômoda interferência. Nesse caso, a melhor coisa a fazer seria não atrapalhar o povo, permitindo que equacionasse seus próprios problemas e também as melhores soluções. Embora atraente, esta é uma visão claramente limitada da questão. Primeiro, porque não existem setores isolados na sociedade e, por mais afastados que pareçamos estar, todos de alguma forma, afetamo-nos. Mesmo os mais excluídos ainda estão incluídos no processo de exclusão. Nesse sentido, não existem culturas puramente populares e a crítica feita pela Escola de Frankfurt trazendo à tona o problema da “indústria cultural”, não deixa nenhuma dúvida a esse respeito.
Paulo Freire já afirmava que os oprimidos introjetam a sombra do opressor e em muitas situações desejam tornar-se semelhantes a ele. Cumpre, portanto, abandonar a visão romântica de pureza das classes populares e, ao mesmo tempo, evitar as intervenções de vanguarda apoiadas na crença de uma ciência messiânica que conduziria necessariamente à libertação dos
oprimidos65.
Menos arrogante e com algum otimismo, é possível que, apoiados em requisitos existenciais de uma comunicação dialógica, seja possível trabalhar com o povo questões de ciência, sem necessariamente ficar contra ele, estabelecendo um diálogo em torno de questões simples de seu quotidiano, até avançar para uma compreensão metódica e mais elaborada da realidade. Nesse percurso, “O saber mais apurado da liderança se refaz no conhecimento empírico que o povo tem, enquanto o deste ganha mais sentido no daquela” (FREIRE, 1981, p.215). Sem negar as diferenças entre as duas formas de conhecimento, a científica e a do senso comum, é só a partir de uma síntese cultural que se resolve esta contradição, permitindo o enriquecimento de ambas as partes.
Decerto, o diálogo verdadeiro não pode ser construído em via de mão única e, embora se constitua um desafio maior, é imprescindível resgatar muitas experiências e conhecimentos de senso comum, dando visibilidade a uma infinidade de saberes que, por simples preconceito, não encontra lugar nos museus de ciências, nas escolas, nem muito menos na academia. Este é o desafio prático e teórico que pretendemos enfrentar ao longo desta jornada e, quem sabe, para o resto de nossa vida acadêmica.
A ciência e a tecnologia, como qualquer outra produção cultural, são patrimônio da humanidade. Seus prejuízos sempre serão divididos igualmente com todos, mas os benefícios estão restritos a alguns.
O conhecimento científico é a forma mais eficaz de poder que conseguimos inventar. Não é justo, nem seguro que fique aos cuidados de algumas poucas nações ou indivíduos. Nesse caso, o debate em torno da PopC&T não deve permanecer confinado aos limites da própria comunidade científica, mas, consideradas as questões de cidadania, todas as forças e instituições da sociedade, desde os sindicatos até os partidos políticos, deveriam alimentar o interesse por esta questão. Portanto, parafraseando Marx & Engels, poderíamos sugerir: “Oprimidos e educadores populares de todos os países, uni-vos”.
51 A esse respeito é importante ver: Educação Jesuítica no Brasil Colonial, (PAIVA, 2000).
52 Atualmente há uma controvérsia sobre a origem da escrita, principalmente depois da descoberta por arqueólogos alemães de potes com inscrições hieroglíficas que datam de 5400 (a.C.) o que contraria a ideia de que foram os sumérios, na Mesopotâmia, que inventaram a escrita, cerca de 5300 (a.C.) (CHASSOT, 2001).
53 do Lat, alfhabetu; Gr. Alphábetos ; álpha + bêta; do Hebr. alef e bet
54 Conforme a autora, Literacy: the condicion of being literate deve ser traduzido como “condição de ser letrado”. Do latim, littera + cy → littera (letra) + cy (qualidade, condição, estado) (SOARES, 1998, p. 35).
55 Rede de Letramento de Jovens e Adultos da Paraíba (RELEJA).
56 Fundação indiana de apoio a divulgação da ciência, instituiu um prêmio para os mais destacados nomes da divulgação científica no mundo.
57 Para um maior aprofundamento nessa questão, é importante ver, entre outros, (VIEIRA PINTO 1979; MARCUSE 1982; GERMANO 2004;).
58 Já na década de sessenta, através de instituições como FUNBEC (Fundação Brasileira para o Desenvolvimento do Ensino de Ciências); IBECC (Instituto Brasileiro de Educação Ciências e Cultura) e outros centros espalhados pelo pelos estados, vários projetos oriundos dos Estados Unidos foram implantados no Brasil com o objetivo de melhorar o ensino de ciências e combater o ensino tradicional. Como exemplos, podemos citar o PSSC (1962) e o Projeto Harvard (1970). A esse respeito ver Fracalanza (1986); Caniato(1987); Delizoicov(1991).
59 Recentemente (2006), enfrentamos polêmica semelhante em relação a inclusão do astronauta brasileiro Paulo Pontes em uma missão espacial que, para alguns críticos, não teria importância nem prioridade alguma para o país. Para o então Ministro de Ciência e Tecnologia, Sérgio Rezende, o investimento da ordem de 21 milhões de reais era pequeno diante da importância do projeto. REZENDE, S. O Brasil no espaço, um programa estratégico.
60 Outros exemplos de questões polêmicas em torno de demandas científicas são: os problemas de segurança de instalações nucleares; o estoque e depósito do lixo atômico; os transplantes de órgãos; prolongamento artificial da vida através de aparelhos; a eutanásia; a engenharia genética, o aquecimento global e muitos outros.
61 Evento promovido pela Organização das Nações Unidas para a Educação e a Cultura (UNESCO) e Conselho Internacional para a Ciência (ICSU) e realizado em Budapeste (Hungria) de 26 de junho a primeiro de julho do ano de 1999.
62 Prima facie, a implementação de uma inovação tecno-científica é legítima, se ela for uma aplicação de resultados científicos corretamente aceitos de acordo com a objetividade; ou, normalmente, a menos que exista evidência científica forte de que há sérios riscos, é legítimo implementar – sem atraso – aplicações eficazes do conhecimento científico objetivamente comprovado (LACEY, 2007b).
63 A Aracruz é uma das 14 empresas que participam da Rede Brasileira de Pesquisa do Genoma do Eucalyptuus (Genolyptus), criada em 2002 e coordenada pela Embrapa.
64 Que permite o contato entre lugares diferentes
65 Essa foi a ingenuidade básica dos cientistas do terceiro mundo que, a partir dos anos 60, acreditaram que uma simples disseminação do conhecimento científico pela sociedade levaria a emancipação dos oprimidos. Não por acaso, a obra mais difundida nessa direção no Brasil, de autoria do eminente físico brasileiro José Leite Lopes (1978), chamava-se exatamente Ciência e Libertação (KULESZA, 1998, p.42).