Uma nova ciência para um novo senso comum

Marcelo Gomes Germano · Capítulo 36 de 60

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Uma nova ciência para um novo senso comum

Entre rupturas e continuidades: reencontrando o senso comum

Entre rupturas e continuidades: reencontrando o

 

senso comum

 

Uma das primeiras questões que obstaculiza a busca de fundamentos teóricos para as práticas em popularização da ciência e tecnologia refere-se à problemática relação entre conhecimento científico e saberes de senso comum. Essas duas formas de conhecer parece excluírem-se em seus critérios de explicação da realidade. Desse modo, se a ciência desenvolve-se em clara negação aos saberes de senso comum, como afirmar a possibilidade de sua popularização? Como refazer um caminho inverso de reaproximação e diálogo entre estes dois discursos que pretendem explicar uma mesma realidade por caminhos tão flagrantemente diferentes?

 

Não é simples estabelecer com precisão o momento em que aparece um recorte entre conhecimentos de senso comum e conhecimentos de bases filosóficas e científicas. Além de questões relativas à divisão do trabalho e aos conflitos e desigualdades sociais, muitos outros fatores parecem intervir em fenômenos dessa natureza, revelando a complexidade de um processo que acompanha o homem desde a gênese de sua cultura.

 

Já nos poemas de Homero e Hesíodo, encontramos alguns traços dessa qualificação. Conforme escreve Melo Neto (2004), a poesia de Homero é mais voltada ao mundo e à cultura dos nobres, dando maior ênfase a uma educação aristocrática para a qualidade tanto dos nobres como dos heróis. No caso de Hesíodo, há uma poesia arraigada à terra e à representação da vida campestre, mais rústica, mais simples e mais próxima do trabalho. Portanto, mais próxima de um conhecimento de senso comum.

 

Na escola pitagórica, verifica-se mais acentuadamente a elaboração de explicações matemáticas de natureza mais abstrata e que escapam ao entendimento daquele conhecimento que estamos classificando de conhecimento do senso comum. Também em Platão, o estabelecimento da conhecida dualidade entre o mundo das ideias e o mundo dos sentidos, com o reconhecimento da superioridade do primeiro sobre a precariedade do segundo, revela uma cisão hierárquica entre as duas formas de conhecimento. Para Trindade (2001), no mito da caverna esta desqualificação do senso comum é mais explícita, sobretudo, quando Platão distingue os homens e a qualidade de seus conhecimentos. Os da caverna, representando o homem comum e seu “conhecimento” equivocado e baseado em falsas imagens reveladas pelos sentidos (senso comum), e o filósofo, representando uma espécie de “cientista” que conseguiu alcançar o conhecimento verdadeiro. Portanto, se o conhecimento filosófico é superior a outras formas de “conhecimento”, caberá aos “filósofos” o papel de difundir esta verdade.

 

Até mesmo em Aristóteles, considerado por seus adversários renascentistas como o filósofo do senso comum e protagonista de uma filosofia natural apoiada em observações de qualidade secundária, reconhecemos uma clara separação entre o conhecimento próprio das reflexões filosóficas e os conhecimentos ligados às técnicas e atividades práticas reservadas às mulheres e aos escravos.

 

Na época medieval, não vai ser diferente. Fortemente marcada pela influência da Igreja Católica Romana, o medievo estabelece uma hierarquia no caminho de acesso ao conhecimento, transformando o cristianismo, religião de origem popular e ligada ao apelo comum dos oprimidos, em um credo dogmático e corrompido que negará o acesso direto ao sagrado e condicionará a fé e a salvação dos homens à necessária mediação dos líderes da Igreja, estabelecendo uma cisão entre o sagrado (onde reside o conhecimento verdadeiro) e o profano (onde se coloca o conhecimento de senso comum) e proibindo, entre outras coisas, o acesso à Bíblia Sagrada.

É contra essa época que se insurge o Renascimento, trazendo consigo um novo interesse pelos clássicos gregos e estabelecendo os fundamentos de uma nova ciência, uma “nova religião” e uma nova sociedade: a sociedade burguesa.

 

A Reforma Protestante, aliada ao nascimento da imprensa, permitirá um acesso direto aos textos sagrados e impulsionará o movimento pela alfabetização popular, possibilitando uma melhor qualificação do senso comum. Paradoxalmente, a revolução copernicana inaugura um processo contrário em que o conhecimento científico deveria superar os obstáculos dessa forma de saber que, apoiada no falso testemunho dos sentidos, conduziria a um tipo de conhecimento classificado por Kepler e Galileu como sendo de “qualidade secundária” e inferior, devendo, pois, ser submetido a um outro, de “qualidade primária” e próprio das matemáticas.

 

Assim como o olho foi feito para ver as cores e o ouvido para

ouvir os sons, assim também a mente humana foi feita para

compreender não o que quer que queira, mas sim quantidades

(...) (Kepler apud Burtt, 1991, p.52).

 

A ciência moderna nasce declarando guerra ao senso comum e estabelecendo como princípio uma hierarquia na qualidade do conhecimento: enquanto aqueles adquiridos através dos sentidos possuíam qualidade inferior e secundária, os alcançados através da razão dispunham de um status superior e de qualidade primária. Todo o progresso da ciência, determinista e fragmentária, foi construído sob essas bases, que não deixaram de ser importantes para certo tipo de compreensão da realidade.

 

Decerto que o conceito negativo de senso comum não partiu do próprio senso comum, mas, como afirma Alves (1985), é uma distinção oriunda da ciência, isto é, de um conhecimento que se especializa e se afasta passando a julgar e condenar o outro.

 

Enquanto conceito filosófico, a ideia de senso comum surgiu no século XVIII, representando o combate ideológico da burguesia contra o velho regime e, como escreve Santos (2003, p. 36), trata-se “de um senso que se pretende natural, razoável, prudente, um senso que é burguês e que, por uma dupla implicação, se converte em senso universal”. Porém, com a vitória do projeto burguês, era natural que caísse em desvalorização e descrédito sendo reduzido a um conhecimento ilusório e de segunda categoria. É, portanto, nesse contexto de crítica à sociedade burguesa do século XIX que se erguem as ciências sociais em seu conhecido combate aos saberes de senso comum.