Uma nova ciência para um novo senso comum
Horkheimer e Adorno
Nas seções que seguem, resgatamos algumas dessas críticas, particularmente aquelas elaboradas por quatro dos mais eminentes intelectuais ligados àquele movimento intelectual e político: Max Horkheimer, Theodor Adorno, Herbert Marcuse e Jürgen Habermas.
Horkheimer e Adorno
É no clássico “Dialética do Esclarecimento” que os autores Adorno e Horkheimer (1985) expõem uma contundente crítica aos fundamentos e consequentes resultados da ciência em sua versão moderna. A crítica é dirigida a uma espécie de mitologização do esclarecimento sob a égide de uma ciência positiva que, no processo de dominação da natureza, resulta paradoxalmente numa mais completa naturalização do homem completamente civilizado e administrado. Conforme os próprios autores, o primeiro capítulo dedicado ao conceito de esclarecimento é, na verdade, o fundamento teórico dos capítulos seguintes e procura tornar mais inteligível o entrelaçamento da racionalidade com a realidade social, bem como o entrelaçamento inseparável entre racionalidade da natureza e dominação da natureza.
De acordo com Adorno e Horkheimer, enquanto se imagina que a ciência nos ajuda a vencer o terror do desconhecimento da natureza, somos, de fato, submetidos às novas pressões sociais que a própria ciência nos impõe. Mas a naturalização dos homens não é dissociada do progresso social.
O aumento da produtividade econômica, que por um lado
produz as condições para um mundo mais justo, confere por
outro lado ao aparelho técnico e aos grupos sociais que o
controlam uma superioridade imensa sobre o resto da
população. O indivíduo se vê completamente anulado em face
dos poderes econômicos [...]. Desaparecendo diante do
aparelho a que serve, o indivíduo se vê, ao mesmo tempo,
melhor do que nunca provido por ele (1985, p.14).
Nesse caso, quanto mais servido pelo sistema, mais o indivíduo terá que abrir mão de sua liberdade e, quando convidado a agir independentemente, recorre ao socorro dos modelos, sistemas e autoridades. De fato, a ciência em sua concretude tecnológica, tornou-se tão ou mais misteriosa que a natureza a qual pretendia desmistificar. E os homens, independentes dos desígnios da natureza, são agora dependentes dos mistérios de uma cultura disponível e ao mesmo tempo estranha. Nesse caso, se interessa de fato, emancipar o homem do medo e da dor, a denúncia do que hoje se chama de razão e ciência é o melhor serviço que a razão pode prestar. É, portanto, no caminho de esclarecer o esclarecimento e usar a razão para refletir sobre os perigos de uma razão unidimensional que se posicionam os referidos teóricos de Frankfurt.
O programa da ciência moderna era dissolver os mitos e substituir a imaginação pelo conhecimento. No entanto, conforme escrevem Adorno e Horkheimer (1985, p.19), “a credulidade, a aversão à dúvida, a temeridade no responder, o vangloriar-se com o saber, a timidez no contradizer, o agir por interesse, a preguiça nas investigações pessoais, o fetichismo verbal, o deter-se em conhecimentos parciais” e muitas outras atitudes semelhantes não permitiram um casamento feliz do entendimento humano com a natureza das coisas, o que resultou em conceitos vãos e experimentos erráticos.
A filosofia experimental baconiana que, apesar de seu alheiamento à matemática, caracteriza muito bem o programa da ciência moderna é, conforme os autores, de natureza patriarcal, isto é, o entendimento que vence a superstição deve imperar sobre a natureza desencantada e “O saber que é poder não conhece nenhuma barreira, nem na escravização da criatura nem na complacência em face dos senhores do mundo” (Idem, p.20). Portanto, o que os homens querem de fato aprender da natureza, é como empregá-la para dominar completamente a ela, a si mesmo, e aos seus semelhantes e, “Nada mais importa. Sem a menor consideração consigo mesmo, o esclarecimento eliminou com seu cautério o último resto de sua autoconsciência. Só o pensamento que se faz violência a si mesmo é suficientemente duro para destruir os mitos” (Idem, p.20).
Para o esclarecimento, não importa mais aquela satisfação que se chamava “verdade”, mas o caráter operativo e o procedimento eficaz perante o mundo. Os discursos plausíveis, inspiradores de respeito, deleite e admiração, devem ser substituídos pelas obras e pelo trabalho no sentido de descobrir novas particularidades que possam auxiliar a vida. Doravante, a matéria precisa ser dominada sem o recurso a qualidades ocultas e o que não se submeter ao critério da calculabilidade e da utilidade, tornar-se-á suspeito para o esclarecimento.
Por outro lado, apesar do pluralismo evidenciado pelas várias áreas de pesquisa, o postulado baconiano de uma ciência universal torna-se hostil a tudo o que não poder ser vinculado e unificado: a multiplicidade deve dar lugar à posição e à ordem, a história deve se reduzir ao fato, e as coisas, à matéria. Entre os primeiros princípios e os enunciados observacionais, deveria haver uma relação lógica e unívoca estabelecida pelo maior ou menor grau de universalidade. Por conseguinte, a lógica formal acabará sendo a base de todo esse processo de unificação. E o equacionamento mitologizante das ideias com os números, presente nos últimos escritos de Platão, já exprimiam claramente o anseio de toda desmitologização: o número como o cânon do esclarecimento (Idem, p.22).
A sociedade burguesa está dominada pelo equivalente. Ela
torna o heterogêneo comparável, reduzindo-o a grandezas
abstratas. Para o esclarecimento, aquilo que não se reduz a
números e, por fim, ao uno, passa a ser ilusão: o positivismo
moderno remete-o para a literatura. “Unidade” continua a ser a
divisa, de Parmênides a Russell.
Prosseguindo em sua crítica, os frankfurtianos Adorno e Horkheimer identificaram no projeto filosófico kantiano uma outra marca fundamental que caracteriza os fundamentos da ciência moderna. Em sua “Crítica da Razão Pura”, Kant (1983) teria combinado a doutrina da incessante e laboriosa progressão do pensamento até ao infinito com a insistência em sua insuficiência e eterna limitação. Paradoxalmente, não há nenhum ser no mundo que não possa ser penetrado pela ciência, mas o que pode ser penetrado não é o ser, é o novo que, de acordo com Kant, o juízo filosófico visa e, no entanto, ele não conhece nada de novo, porque repete tão-somente o que a razão já colocou previamente no objeto.