Uma nova ciência para um novo senso comum
Bachelard e a filosofia do não
Em uma sociedade democrática, instituições, programas de
pesquisa e sugestões têm, portanto, de estar sujeitos ao
controle público; é preciso que haja uma separação entre
Estado e ciência da mesma forma que há uma separação entre
Estado e instituições religiosas, e a ciência deveria ser
ensinada como uma concepção entre muitas e não como o
único caminho para a verdade e a realidade (FEYERABEND,
2007, p.8-9).
Essa é uma afirmação que aparece repetidamente em vários momentos da tese de Feyerabend. Com efeito, se a ciência possui uma ideologia própria, caberia impô-la apenas aos seus adeptos mais interessados, e não a todos os cidadãos. Deveríamos ensiná-la, mas somente àqueles que decidiram aderir a essa particular superstição (REGNER 1996, p. 224). Numa concepção feyerabendiana, a tentativa de fazer crescer a liberdade e de levar uma vida plena e gratificante e a correspondente tentativa de conhecer os segredos da natureza e do homem, exige, portanto, a rejeição de todos os padrões universais e de todas as tradições rígidas, conduzindo, naturalmente, a rejeição de grande parte da ciência contemporânea.
Bachelard e a filosofia do não
Embora siga um caminho original e distinto, particularmente influenciado pela revolução científica do final do século XIX e início do século XX (Teoria da Relatividade e Mecânica Quântica), um outro nome importante do pensamento revolucionário sobre a
natureza da 30 ciência é o nome de Gaston Bachelard. Para ele:
O empirismo e o racionalismo estão ligados, no pensamento
científico, por um estranho laço, tão forte como o que une o
prazer à dor. Com efeito, um deles triunfa dando razão ao outro: Como vimos, os impasses no interior do próprio discurso da ciência, bem como os fracassos pragmáticos de muitos de seus projetos acabaram por revelar que o ideário de promessas da modernidade e os fundamentos básicos de sua ciência, não conduziram aos propósitos idealizados e, nem de longe, cumpriram as utopias do sonho iluminista em sua nascente. Nesse contexto, além das questões e impasses internos ao próprio universo das ciências naturais, revelados nas próprias controvérsias epistemológicas sucintamente discutidas na seção anterior, outras críticas foram sendo forjadas a partir da constatação de um inegável fracasso de algumas das mais vislumbrantes promessas apoiadas no vitorioso projeto da ciência moderna. Uma crítica que, sustentada em bases sociológicas e filosóficas, também não poderia deixar de ter lugar em nosso percurso.
o empirismo precisa ser compreendido; o racionalismo precisa
ser aplicado (BACHELARD, 1984, p.4).
Em outros momentos, Bachelard reafirma esta posição, caracterizando o seu pensamento como idealista militante e racionalista engajado. Com o seu racionalismo adjetivado, defende a necessidade de uma nova razão, livre e semelhante àquela que o surrealismo instaurou na criação artística. Poderíamos afirmar que o traço principal de sua filosofia é o reconhecimento da natureza histórica da epistemologia e da relatividade do objeto de conhecimento. De modo que, a ciência relativista, ao colocar o objeto como relação, impõe um rompimento epistemológico com o empirismo ingênuo.
Em sua “A Filosofia do Não”, Bachelard (1984) defende a tese de que não existe uma evolução contínua das ideias científicas, mas um processo permanente de rupturas epistemológicas, de modo que um conhecimento se impõe negando o anterior, começando pela negação do conhecimento de senso comum, primeiro obstáculo epistemológico ao desenvolvimento científico, e prosseguindo com as negativas no interior da própria ciência. Nesse sentido, combate a ideia de que entre a ciência e o senso comum existe apenas uma diferença de profundidade. Esta concepção refutada por Bachelard encontra apoio em alguns filósofos, como Alves (1985), para quem a ciência é apenas uma hipertrofia de capacidades que todos têm, uma especialização de certos órgãos e um refinamento disciplinado do senso comum.
Segundo Bachelard, conhecemos sempre contra um conhecimento anterior, por isso não existem verdades primeiras, apenas os primeiros erros. Como filósofo da desilusão, acredita que somos o limite das nossas ilusões perdidas e que a ciência é um discurso verdadeiro sobre fundo de erro; é um processo de produção da verdade, é o trabalho dos cientistas no processo de reorganização da experiência em um esquema racional, de modo que, a verdade da ciência de hoje, não é a verdade da ciência de sempre. (BACHELARD, 1996, 1984).