Uma nova ciência para um novo senso comum

Marcelo Gomes Germano · Capítulo 51 de 60

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Uma nova ciência para um novo senso comum

Por um Controle Social da Ciência

 

Uma das fortes razões relacionadas ao porquê de popularizar a ciência é, sem dúvida, o necessário controle social dessa forma de conhecimento pela população. Os argumentos apresentados pela comunidade científica britânica são bastante contundentes nesse sentido.

 

Primeiro, a ciência é possivelmente a maior realização da nossa cultura e

o povo merece conhecê-la; segundo, a ciência afeta as nossas vidas

cotidianas e o povo precisa estar a par dela; terceiro, muitas decisões de

política pública envolvem a ciência e estas só serão genuinamente

democráticas se forem fruto de um debate público esclarecido e quarto, a

ciência é financiada por verbas públicas e este apoio é (ou ao menos

deveria ser) baseado num nível minimamente aceitável de conhecimento

popular (DUARNT, EVANS E THOMAS, apud KULESZA, 1998, p. 49).

 

Embora reconheçamos as dificuldades envolvidas nessa tarefa, sobretudo, considerando que a pesquisa científica não é algo facilmente controlável, é possível enfrentar a discussão partindo do controle dos desenvolvimentos e aplicações da ciência, para em seguida avançarmos no debate sobre a necessária influência da população em um controle prévio dos rumos das pesquisas.

 

Não é novidade que encaminhamentos de questões relacionadas com ciência e tecnologia envolvem riscos e custos, além de aspectos simbólico-culturais que deveriam necessariamente passar pelo crivo da população. Questões como: produção de alimentos transgênicos, clonagem humana, eutanásia, utilização de células troncos e muitas outras são exemplos de como um conhecimento mínimo de assuntos pertinentes à ciência e suas aplicações é fundamental para a garantia de uma democracia, pelo menos, representativa e de qualidade razoável.

 

Em face dessa urgência, é importante refazer as perguntas de Candotti (2003): “Tudo que está ao nosso alcance, em termos de desenvolvimento e aplicações do conhecimento científico, deve ser realizado? Tudo o que é possível fazer, deve ser feito”? Podemos clonar, devemos clonar? Se sabemos fabricar uma bomba atômica, devemos fabricá-la? Se podemos chegar até a lua, devemos desenvolver um projeto espacial para chegar até lá? Enfim, se dominamos o conhecimento necessário ao alcance de determinados objetivos, estes objetivos devem ser alcançados? Quem deve decidir isso? Na atual conjuntura, quem tem definido essas questões são as classes dominantes e os interesses de mercado, a quem pouco interessa as opiniões e anseios das maiorias e minorias excluídas.

 

Para Candotti (2002, p.17), “a circulação das ideias e dos resultados de pesquisas é fundamental para avaliar o seu impacto social e cultural, como também para recuperar, por meio do livre debate e confronto de ideias, os vínculos e valores culturais que a descoberta do novo, muitas vezes rompe ou fere”.

 

Embora concordemos com o princípio da argumentação, que diz respeito ao controle das aplicações tecnológicas do conhecimento científico, verificamos a existência de um fio muito tênue entre o que podemos fazer e o que já fizemos ou estamos fazendo. Depois de construído um determinado tipo de conhecimento, é muito pouco provável que não seja desenvolvido e concretizado em termos de aplicações tecnológicas e práticas. Na maioria dos casos, o sonho de materialização das hipóteses já se encontra nos objetivos iniciais da pesquisa.

 

Desse ponto de vista, é necessário interferir previamente nos rumos que devem ser dados às investigações, definindo, a priori, para onde devemos dirigir os nossos olhares e quais as perguntas para as quais devemos concentrar esforços de resposta. Se devemos participar de um projeto conjunto para o lançamento de um satélite, que envolve gastos da ordem de 100 milhões de dólares, ou se é preferível usar esse recurso para equipar os hospitais públicos, em grande maioria sucateados, é uma questão de estabelecer prioridades, o que numa sociedade democrática exige a participação de cada vez mais interlocutores, com razoável soma de conhecimentos que lhes permitam opinar diretamente ou delegar às pessoas

certas a responsabilidade desse tipo de decisão 59.

 

A Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento ocorrida no Rio de Janeiro, em 1992, (Agenda 21, 1997), chama atenção para um outro aspecto da questão, ressaltando que a popularização não é importante apenas para o povo conhecer as criações da ciência, mas, principalmente, para poder influenciar nos rumos das pesquisas. De modo que, nos termos da referida conferência, “deve-se ajudar o público a comunicar à comunidade científica e tecnológica suas opiniões sobre como a ciência e a tecnologia podem ser melhor gerenciadas para influir beneficamente na vida dele”.

Para Sagan,

 

... as conseqüências do analfabetismo científico são muito mais perigosas

em nossa época do que em qualquer outro período anterior. É perigoso e

temerário que o cidadão médio continue a ignorar o aquecimento global,

por exemplo, ou a diminuição da camada de ozônio, a poluição do ar, o

lixo tóxico e radioativo, a chuva ácida, a erosão da camada superior do

solo, o desflorestamento tropical, o crescimento exponencial da população

(1996, p.21).

 

O desconhecimento das conquistas culturais humanas é prejudicial em qualquer momento da história. No caso de uma sociedade cada vez mais submetida aos domínios da ciência e tecnologia, esse desconhecimento assume, de fato, prejuízos ainda maiores. Nesse particular, a pergunta de Sagan (1996, p.22) referindo-se ao problema americano é semelhante a nossa: “como é que os norte-americanos decidem essas questões? Como é que instruem os seus representantes? Quem de fato toma suas decisões, e baseando-se em que fundamentos?”.

 

Conforme o professor Candotti (2003), quando presidente da SBPC, um dos sérios problemas enfrentados pela instituição era a permanente cobrança dos governos em busca de pareceres da comunidade científica sobre questões

polêmicas60, como no conhecido caso dos transgênicos e da clonagem de seres humanos. Para ele, não se trata de questões simples, triviais e que exigiriam apenas um parecer técnico. Pelo contrário, são problemas que envolvem outras variáveis, como por exemplo, as dimensões simbólico-culturais da população e outros interesses de natureza econômica e política. Portanto, deveriam levar em consideração o parecer da maioria da população. No entanto, para poder opinar, o povo precisaria dominar um conhecimento mínimo dos assuntos em pauta, o que não é o caso.

 

No Brasil, muitos esforços e iniciativas no sentido de aproximar a ciência do povo foram desenvolvidos principalmente nas décadas de oitenta e noventa. Novos Centros e Museus de Ciências foram criados, livros e revistas foram publicados em número crescente, vários eventos de divulgação se espalharam pelo país e um número razoável de pesquisas sobre o tema foi desenvolvido, resultando em teses e inúmeros artigos importantes, (MARANDINO, 2003). Contudo, na opinião de Massarani (2002), ainda estamos muito distante do mínimo necessário. Mesmo a grande possibilidade da mídia ainda é pouco aproveitada e, conforme lembra Sousa (2003, p. 125), o determinismo da audiência continua a exercer forte influência sobre o que deve ser veiculado. Nesse caso, considerada a natureza densa e técnica dos fatos científico-tecnológicos, para uma mídia televisiva orientada pelo imperativo da audiência, essa programação torna-se pouco atraente e não recomendável.