Uma nova ciência para um novo senso comum
As bases filosóficas da ciência moderna
com a ajuda de uma teoria tudo o que já aconteceu e pode vir a
acontecer, então a união da ótica e da eletricidade é,
indubitavelmente, um passo muito grande para frente. Do ponto
de vista físico, a única diferença de uma onda eletromagnética
simples e uma onda luminosa é o comprimento de onda
(EINSTEIN & INFELD, 1988, p.125).
A visão otimista de que a ciência poderá vir a descrever tudo que aconteceu e virá a acontecer, caracteriza uma nova concepção de ciência que, confirmada pela presença de incontestáveis inovações tecnológicas, despreza a filosofia e, de certa forma, afasta-se das antigas bases filosóficas de sustentação do projeto inicial da ciência moderna.
Além de modificar completamente o cenário do século XIX, a ciência moderna receberá o século vinte com a mais clara visão de otimismo e de certeza. Mas, antes que os efeitos dessa grande reviravolta no pensamento viessem a repercutir na prática, era necessário que as bases filosóficas da nova ciência fossem bem compreendidas pelos intelectuais e empreendedores da grande revolução política que se processava àquela época. Nesse sentido, antes de discutirmos as conquistas e promessas da modernidade, é oportuno conhecer as bases filosóficas que deram sustentação inicial àquele projeto.
As bases filosóficas da ciência moderna
Descartes e as regras para a direção do espírito
Certamente os nomes de Descartes e Bacon podem figurar como os principais protagonistas na edificação do que estamos denominando de bases filosóficas da ciência moderna. Se Galileu e Kepler são reconhecidos como os “pais” da ciência moderna, Descartes e Bacon podem ser considerados como os “pais” da filosofia moderna. Ambos eram essencialmente profetas e publicistas e, de acordo com Bernal (1976b), reconheceram as possibilidades do conhecimento e assumiram a difícil tarefa de comunicá-las ao mundo. Embora os seus métodos e as suas conclusões a respeito do conhecimento e de sua construção fossem completamente diferentes, podem ser considerados complementares e fundamentais para uma caracterização perfeita da ciência moderna.
René Descartes (1596-1650) nasceu em La Haye, na França, e ainda na adolescência, dedicou-se completamente aos estudos matemáticos, de modo que, aos 21 anos de idade, já dominava todo o conhecimento relacionado àquela ciência. Influenciado pelas realizações de Galileu e Kepler e com o objetivo de aplicar seus conhecimentos matemáticos, também desenvolveu experiências simples em mecânica hidrostática e óptica. Mas, conforme o seu próprio relato foi na noite de 10 de novembro de 1619, que teve uma experiência extraordinária, somente comparada ao êxtase de iluminação dos místicos. Era como se um “Anjo” da verdade tivesse visitado o seu espírito para confirmar uma convicção que já ocupava a sua mente: a matemática era a única ciência que permitiria desvendar os mistérios da natureza.
Para Descartes (2002a), não havia tanta perfeição nas obras feitas por vários mestres, como naquelas em que somente um trabalhou. Se as ciências dos livros, pelo menos às que carecem de demonstrações para suas razões são construídas gradativamente a partir das opiniões de diversas pessoas, não deve haver tanta verdade nestas ciências. Haveria, portanto, mais verdade no simples raciocínio de um homem de bom senso do que nas razões daquelas ciências.
De acordo com o filósofo francês, considerando as diversas influências recebidas na infância, desde os próprios apetites até as orientações dos preceptores que, na maioria das vezes, eram contrárias umas as outras, seria impossível que nossos juízos fossem tão puros quanto se tivéssemos sido guiados por nossa própria razão. Por outro lado, assim como os costumes dos homens, as opiniões dos filósofos também eram variadas, de modo que, o melhor proveito, que podia tirar de todas aquelas experiências, era o de ter aprendido a não acreditar muito firmemente em nada do que lhe fora fixado apenas pelo exemplo e pelo costume. Dessa maneira, pouco a pouco vai se libertando de pré-conceitos ou pré-julgamentos que possam interferir em sua razão.
Partindo desta constatação, Descartes procura estabelecer um caminho próprio e muito particular, retirando toda confiança que dera às opiniões que até então acolhera para poder adotar outras melhores ou até as mesmas, desde que forjadas pelo crivo da razão. O propósito de Descartes era reformar os seus próprios pensamentos e edificá-los sobre uma base construída por ele mesmo. Neste caso, consciente de que não bastava livrar-se das velhas opiniões preconcebidas, mas criar, sobre as ruínas destas, um conhecimento verdadeiro, inicia uma cautelosa e prudente investida na procura do verdadeiro método para a construção de um conhecimento sólido e seguro.
No caminho da realização do seu projeto, três ciências lhe pareceram, a princípio, úteis: a lógica, a geometria e a álgebra. Contudo, ao examinar atentamente cada uma delas, notou que, no caso da lógica, os seus silogismos e a maior parte de suas restantes instruções serviam mais para explicar aos outros as coisas que já se sabem, ou para falar, sem julgamento, das que se ignoram, do que para aprendê-las. No caso da geometria e da álgebra dos modernos, a primeira estava tão ligada à consideração das figuras que acabava por fatigar muito a imaginação, e a segunda transformou-se numa arte confusa que, devido a tantas regras e cifras, embaraçava demasiadamente o espírito (DESCARTES, 2002a).
Foi exatamente por causa dessas falhas que Descartes se viu obrigado a procurar um novo método que, compreendendo as vantagens desses três, fosse isento dos seus defeitos. Para tanto, considerou desnecessária a quantidade de regras estabelecidas nos estudos da lógica, estabelecendo apenas quatro preceitos necessários e fundamentais ao novo método:
O primeiro, consistia em nunca aceitar como verdadeira
nenhuma coisa que eu não conhecesse evidentemente como Por ser a Matemática a única ciência em que conseguia encontrar algumas razões certas e evidentes, seria justamente por ela que Descartes deveria iniciar o seu projeto e a aplicação de seus preceitos. Durante alguns meses, dedicou-se a examinar e resolver muitas das questões da álgebra e da geometria e, conforme reconheceu mais tarde, os resultados foram surpreendentemente satisfatórios, sobretudo pela facilidade que proporcionou para a resolução de certas questões até então consideradas de difícil solução.
tal, isto é, em evitar, com todo o cuidado a precipitação e a
prevenção, só incluindo nos meus juízos o que se apresentasse
de modo tão claro e distinto ao meu espírito, que eu não tivesse
ocasião alguma para dele duvidar.
O segundo, em dividir cada uma das dificuldades que devesse
examinar em tantas partes quanto possível e necessário para
resolvê-las.
O terceiro, em conduzir por ordem os meus pensamentos,
iniciando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer,
para chegar, aos poucos, gradativamente, ao conhecimento dos
mais compostos, e supondo também, naturalmente, uma ordem
de precedência de uns em relação aos outros.
E o quarto, em fazer, para cada caso, enumerações tão
completas e revisões tão gerais, que eu tivesse a certeza de
não ter omitido nada (idem, p. 31-32).
Tais preceitos17 são de suma importância para o entendimento de todo o método cartesiano, pois neles, Descartes propõe quatro atos de nosso entendimento por meio dos quais podemos conhecer as coisas sem temor de erro e sem tomar o falso por verdadeiro. Em primeiro lugar é necessário duvidar sistematicamente de nossos supostos conhecimentos, para não tomar o verdadeiro pelo falso nem o falso por verdadeiro. Trata-se de acautelar-se das tentadoras conclusões precipitadas a que todos estão sujeitos. A segunda orientação é quase uma observação de senso comum. A divisão de um problema em partes menores e mais simples já era bastante utilizada na antiga tradição grega. O terceiro preceito cartesiano sugere uma orientação do pensamento do mais simples para o mais complexo e, em certo sentido, também pode ser considerada uma observação de puro bom senso. A quarta e última orientação se refere ao cuidado com a sistematização das informações. E neste caso, a enumeração e a revisão de cada uma das etapas evitará a omissão de alguma das partes durante o processo de recomposição do todo.
De acordo com Burtt (1991), um dos primeiros frutos colhido por Descartes a partir da aplicação de seu novo método foi a invenção de um instrumento matemático novo, a geometria analítica. Uma nova construção matemática que estabelecia a correspondência mútua e exata entre o reino dos números (aritmética e álgebra) e o reino da geometria (o espaço). Conforme o próprio Descartes reconheceu, ele teria tomado de empréstimo toda a melhor parte da álgebra e da análise geométrica para corrigir os defeitos de uma e da outra (Descartes, 2002a).
Com efeito, ao elaborar uma nova forma de tratamento para a geometria, isto é, uma Geometria Analítica, que permitia uma correspondência exata entre os números e o espaço representado pelas figuras geométricas, Descartes amplia e radicaliza a já conhecida relação entre estes dois universos para uma correspondência absoluta e definitiva. Portanto, se todas as outras qualidades pudessem ser eliminadas ou reduzidas a estas (números e figuras geométricas), havia a real possibilidade da construção de uma física completamente matemática. Embora não tenha conseguido sucesso completo em seu intento, prevalecendo mais forte uma física cunhada no experimentalismo de Galileu, Boyle e Newton e mais próxima da filosofia empirista de Bacon, Hobbes, Locke e Hume, Descartes certamente abriu o espaço para a futura construção do que hoje chamamos de física teórica.
Radical em sua busca intransigente da verdade, Descartes passa a “rejeitar como absolutamente falso tudo aquilo em que pudesse imaginar a menor dúvida” (Descartes, 2002a, p.41). Como tudo o que recebera até o presente como o mais verdadeiro e seguro o tivera aprendido dos sentidos, seria justamente por estes que começaria o exame de suas velhas crenças. Analisando então os sentidos, percebe que muitas vezes somos por eles enganados no tocante às coisas pouco sensíveis e que por isso devemos nos manter prudentes, sem jamais confiar naqueles que uma vez nos enganaram. No entanto, é por intermédio destes mesmos sentidos que reconhecemos muitas coisas das quais não podemos razoavelmente duvidar.
Se de um lado os sentidos não são confiáveis, de outro, devemos recorrer a eles em busca das necessárias confirmações sensoriais. Qual, então, o verdadeiro lugar das qualidades secundárias? Descartes vai radicalizar na resposta a essa questão, renunciando definitivamente ao empirismo como método e sugerindo uma realidade fundamentada na conhecida separação entre a Res
Extensa e Res Cogitans 18.
Mas, logo depois, observei que, enquanto pretendia assim
considerar tudo como falso, era forçoso que eu, que pensava,
fosse alguma coisa. Percebi, então, que a verdade: eu penso,
logo existo, era tão firme e tão certa que nem mesmo as mais
extravagantes suposições dos céticos poderiam abalá-la (Idem,
p.41).
Como se observa, é a partir de uma posição apoiada no ceticismo que Descartes chega a uma certeza de sua existência como um ser que pensa. Mas, finalmente, quem era ele? A resposta é simples e lógica: sou aquilo que duvida. Poderia duvidar de tudo, inclusive do fato se ser um corpo ou de que exista um mundo material onde estaria situado, mas não poderia duvidar de sua própria dúvida e da existência de seu pensamento.
Por aí compreendi que eu era uma substância cuja essência ou
natureza consiste exclusivamente no pensar e que, para ser,
não precisa de nenhum lugar nem depende de nada material.
De modo que eu, isto é, alma pela a qual eu sou o que sou é
inteiramente distinta do corpo e até mais fácil de conhecer do
que este e, mesmo que o corpo não existisse, ela não deixaria
de ser o que é (DESCARTES, 2002a, p.41-42).
Coerente com essa visão dualista, Descartes estabelecerá a existência de dois mundos distintos: o mundo dos corpos extensos, apenas compreensível através da matemática e o mundo do pensamento que, não sendo dotado de extensão é completamente independente do primeiro. É justo nessa questão que encontrará um dos mais sérios questionamentos a sua teoria. Como explicar a relação tão íntima entre dois reinos tão estranhamente separados? “Como é que o que não tem extensão pode conhecer um universo dotado de extensão e conhecendo-o, alcançar propósito nele”? (BURTT, 1991, p.96). A primeira saída cartesiana foi o recurso a uma explicação divina. Deus teria feito o mundo material de tal forma que os conceitos matemáticos puros e intuídos pela mente são perfeitamente aplicáveis a ele. Uma segunda explicação pretendia que por intermédio de uma pequeníssima parte do cérebro (glândula pineal), uma substância desprovida de extensão entrava em contato com o reino da extensão.
Evidentemente, estas e outras questões relacionadas ao conhecimento não foram definitivamente solucionadas pelo método cartesiano, mas este fato não diminui em nada os méritos de seu projeto que não se limitou apenas a especulações filosóficas, mas contribuiu em muitas outras áreas, sobretudo, nos campos da Matemática e da Física, conforme ele mesmo justifica:
Pois essas noções me fizeram ver que é possível chegar a
conhecimentos muito úteis para a vida e de achar, em
substituição à filosofia especulativa ensinada nas escolas, uma
prática pela qual, conhecendo a força e a ação do fogo, da
água, do ar, dos astros, do céu e de todos os demais corpos
que nos cercam, tão distintamente quanto conhecemos os
diversos misteres dos nossos artífices, poderíamos empregá-
los igualmente a todos os usos para os quais são próprios, e