Uma nova ciência para um novo senso comum
Popularização da Ciência
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propagação comunicadores.
das
conquistas da
ciência.
Popularização da Ciência
Como já foi mencionado, o termo popularização da ciência – considerada a ciência como ciência moderna – surgiu na França do século XIX como alternativa ao conceito de vulgarização. O uso do termo, porém, não encontrou aceitação na comunidade científica francesa, onde prevaleceu a corrente dos comunicólogos (divulgadores) cujo maior interesse era a transmissão de mensagens e os processos que nela intervêm. O termo popularization of science, popularização da ciência vai conseguir maior penetração entre os britânicos que, conforme Sánchez Mora (2003), mostravam-se mais preocupados com o produto e os aspectos práticos que com a forma. Argumentos que revelam esta tendência são destacados em Kulesza (1998).
O termo PopC&T tem atualmente uma forte penetração em países latino-americanos e caribenhos e atestando a sua importância, foi criada recentemente (1990) a Rede de Popularização da Ciência e da Tecnologia na América Latina e no Caribe (Rede-POP) que, conforme já referimos, tem como uma de suas metas principais mobilizar os potenciais nacionais e regionais através de diferentes mecanismos de cooperação, com o propósito de fortalecer a PopC&T na região.
No Brasil, o termo é reafirmado a partir da criação do Departamento de Popularização e Difusão da Ciência e Tecnologia, órgão vinculado ao Ministério de Ciência e Tecnologia, que tem como principal atribuição formular políticas e implementar programas nesta área.
Popularização é o ato ou ação de popularizar: tornar popular, difundir algo entre o povo, o que remete a dois novos conceitos também problemáticos. O conceito de popular: agradável ao povo; próprio do povo ou destinado ao povo e ao conceito de povo: “vulgo, massa, plebe, multidão, turba, ralé ou escória”.
Reconhecendo a imprecisão do termo povo, bem como do adjetivo popular nas Ciências Sociais, Wanderley (1980) utiliza o conceito através de uma estratégia dualista: povo e não-povo; povo e antipovo; povo e elite; povo e indivíduo, vinculando o conceito de povo ao de classes sociais. Semelhante a Wanderley, Sales define povo como “uma situação e um posicionamento na sociedade. Povo são os excluídos, os que vivem ou viverão do trabalho e os que estão dispostos a lutar ao seu lado” (1999, p.116).
No artigo, “Como se Conceitua Educação Popular?”, Rodrigues (1999) desenvolve uma importante especulação em torno do conceito de popular, mas é em Melo Neto (2004) que vamos encontrar um conceito construído a partir do resgate de muitas falas extraídas a partir do universo dos movimentos populares e de suas realidades.
Tomando como referência as contribuições da práxis em educação popular, podemos afirmar, com Melo Neto, que o popular está ligado aos esforços presentes no trabalho do povo, das classes populares. Daqueles que vivem e sempre viverão do trabalho. Mas, isso não diria tudo. O termo popular também encontra-se sustentado nos movimentos sociais populares e na clareza política de suas lutas em benefício das maiorias e minorias oprimidas que jamais abrem mão de suas esperanças e utopias libertadoras.
De um ponto de vista operacional, Mueller (2002) define popularização da ciência como um “processo de transposição das ideias contidas em textos científicos para os meios de comunicação populares”, restringindo o conceito à esfera dos textos escritos e aos meios de comunicação. Numa concepção mais abrangente, Sánchez Mora (2003, p. 9) defende que “popularizar é recriar de alguma maneira o conhecimento científico”, tornando acessível um conhecimento super especializado. Mais ou menos nessa mesma linha, Albagli apresenta o seguinte conceito:
Popularização da ciência ou divulgação científica (termo mais
frequentemente utilizado na literatura) pode ser definida como o uso de
processos e recursos técnicos para a comunicação da informação
científica e tecnológica ao público geral. Nesse sentido, ... supõe a
tradução de uma linguagem especializada para uma leiga, visando a
atingir um público mais amplo (1996, p.397).
Como a grande maioria dos envolvidos com esse debate, Albagli (1996) também assemelha os conceitos de divulgação e popularização da ciência. Mas, a rigor, estes conceitos são diferentes.
Huergo (2001) conceitua popularização da ciência como uma ação cultural que, referenciada na dimensão reflexiva da comunicação e no diálogo entre diferentes, pauta suas ações respeitando a vida cotidiana e o universo simbólico do outro. Na opinião de Lens (2001, p. 2), entre essas duas concepções (divulgação e popularização) existe a mesma distância que existe entre a educação bancária ligada ao ensino tradicional e a educação libertadora defendida pelos educadores populares.
De outro modo, considerada a plasticidade dos termos, é fácil verificar que no contexto brasileiro, o conceito de divulgação científica é geralmente associado ao conceito de popularização da ciência, sobretudo, no que se refere à ideia de divulgar para popularizar. Assim, poderíamos colocar a seguinte questão: é possível divulgar sem popularizar, ou dito de outra forma, toda divulgação é necessariamente uma forma de popularização?
Do nosso ponto de vista, a resposta é não. Embora algumas iniciativas de divulgação científica estejam envolvidas em contextos e objetivos de popularização da ciência, nem sempre o ato de divulgar ou difundir ideias e conteúdos científicos estão orientados para este fim. O mesmo serve para as iniciativas de alfabetização científica que, como a vulgarização e a divulgação, também podem, ou não, orientar-se por objetivos de PopC&T.
Portanto, se assumirmos o popular na acepção que foi colocada anteriormente, popularizar é muito mais do que vulgarizar ou divulgar a ciência. É colocá-la no campo da participação popular e sob o crivo do diálogo com os movimentos sociais. É convertê-la ao serviço e às causas das maiorias e minorias oprimidas numa ação cultural que, referenciada na dimensão reflexiva da comunicação e no diálogo entre diferentes, oriente suas ações respeitando a vida cotidiana e o universo simbólico do outro.
Diferentemente de sua concepção inglesa, acreditamos que o termo popularização da ciência tenha ganhado força na América Latina, por conta das diversas lutas populares que marcam a história da região. Em um cenário aonde vimos nascer uma Teologia da Libertação, uma Pedagogia do Oprimido e uma Educação Popular, é natural que o termo tenha uma presença marcadamente diferente. Por outro lado, ao assumirmos a diferença e as implicações de tal conceito, somos imediatamente forçados a nos perguntar sobre a natureza da ciência que, pretensamente, desejamos popularizar.
Se a ciência moderna se constituiu em um processo de ruptura com os saberes de senso comum, por que agora esse discurso de uma necessária popularização do conhecimento científico e tecnológico? Quais os principais argumentos apresentados em favor de tal empreendimento? O que pensa a comunidade científica a esse respeito? O que sugerem os educadores populares?