Uma nova ciência para um novo senso comum
O senso comum na psicologia social: a visão de Moscovici
No caso de Serge Moscovici 45, a conhecida “Teoria das Representações Sociais” por ele incorporada ao universo da psicologia social, teria sido construída em função da resposta a uma convicção de que o lugar do senso comum estava mal resolvido, tanto no território das ciências naturais como nos limites das ciências sociais. Conforme o autor romeno, o senso comum não poderia continuar sendo tratado como algo irracional e incoerente, mas, pelo contrário, deveria ser encarado como um importante terceiro fator entre o conhecimento científico e a ideologia.
Preocupado com a questão do impacto causado pela ciência na cultura das massas, Moscovici discorda da posição marxista em relação ao caráter e ao lugar do senso comum. Para ele, “Os marxistas ou mais precisamente Lênin! desconfiavam do conhecimento espontâneo e do pensamento das massas” (MOSCOVICI, 2003, p. 309). Tal convicção teria sustentado a ideia de que os conhecimentos de senso comum deveriam ser purificados de suas irracionalidades ideológicas, religiosas e populares, devendo ser substituído por uma concepção científica do ser humano, da história e da natureza, visão que estaria vinculada à concepção marxista e materialista da história. Em certo sentido, prossegue Moscovici (Idem p. 310), o objetivo era transformar todos os seres humanos em quase cientistas, fazendo-os pensar de uma maneira racional e objetiva. Por outro lado, e, paradoxalmente, considerava-se a comunicação, popularização ou, em uma terminologia francesa, a vulgarização da ciência uma espécie de caricatura que desvirtuava o conhecimento científico em sua versão original. Nesse particular, havia uma convergência entre marxistas e não marxistas, isto é, para ambas as correntes, o conhecimento de senso comum era contaminado, deficiente e errado. Opondo-se a esta corrente de pensamento, Moscovici tenta reabilitar o conhecimento comum, próprio das experiências diárias, linguagens e práticas cotidianas, ao mesmo tempo em que reage contra a ideia de que o povo é incapaz de pensar racionalmente e apenas os intelectuais são portadores de tal privilégio. Para o autor,
pessoas e grupos, longe de serem receptores passivos,
pensam por si mesmos, produzem e comunicam
incessantemente suas próprias e específicas representações e
soluções às questões que eles mesmos colocam ... Os
acontecimentos as ciências e as ideologias apenas lhes
fornecem o “alimento para o pensamento” (MOSCOVICI, 2003,
p.45).
Portanto, o pensamento de senso comum é considerado razoável, sensível e racional e deve ser entendido como aquele terceiro fator que liga os indivíduos à sua cultura, à sua linguagem e ao seu mundo familiar. Assim como o mito para a antropologia, os sonhos para a psicanálise e o mercado para economia, o senso comum é, para Moscovici, a matéria prima da psicologia social. Aos seminários
ministrados por Alexandre Koyré 46, o autor atribui o despertar dos primeiros argumentos de como o senso comum pode ser coerente em sua própria lógica, diferente da lógica da ciência. A física aristotélica é um exemplo. Embora construída a partir de observações cotidianas, fundamentadas em qualidades sensoriais (qualidades secundárias) e em explicações teleológicas de causas finais, não podemos considerá-la ilógica e absurda como se pensava antes de Koyré.
O senso comum tem suas próprias características e, ao contrário do pensamento científico que, de maneira ideal, pode ser compreendido independentemente do conteúdo e através de formalizações lógico-matemáticas, o pensamento comum, não pode ser dividido em dois; o conteúdo infecta o raciocínio, tornando-o plausível e, sem isso, a forma torna-se incompreensível e sem sentido. É na infância que, muito cedo, a marca do senso comum é adquirida, justamente através da comunicação oral. Não é curioso que, mesmo sem nenhum estudo, as pessoas aprendam a falar com perfeição a sua língua materna? Com efeito, o conhecimento de senso comum não deve ser considerado distorcido e errado como muitas vezes se supôs. Na realidade, ele se adequa perfeitamente aos propósitos e necessidades cotidianas “e chegou mesmo a encantar e tornar a vida digna de ser vivida durante muitos séculos” (MOSCOVICI, 2003, p.336).
Por outro lado, embora admitindo certa cautela, sugere a hipótese da polifasia cognitiva. Assim como a linguagem é polissêmica, o conhecimento é polifásico e as pessoas usam diferentes modos de pensamento e diferentes representações, dependendo do grupo específico ao qual pertençam e ao contexto em que estão no momento. Nesse caso, nem cientistas nem filósofos estão imunes aos mesmos vícios imputados ao senso comum. Não existem pessoas monofásicas e imbuídas de uma única e privilegiada maneira de pensar.
Muitos cientistas possuem um credo religioso, outros são racistas, alguns consultam os astros e em algumas situações fazem uso de explicações em bases aristotélicas. Se essas diferentes e até mesmo conflitantes formas de pensamento não coexistissem em suas mentes, elas não seriam mentes humanas. Do mesmo modo, não há razão para crer que apenas uma forma única e pura de pensamento (a científica) irá prevalecer no futuro. (Idem, p.328).
Ao contrário do que se esperava, longe de tornarem-se antídotos contra as representações sociais e ideologias, as ciências, na realidade, dão origem a novas representações. De fato, conforme Moscovici (Idem, p.60), a multiplicação de teorias, informações e acontecimentos exigem que novos mundos sejam reproduzidos a um nível mais imediato e acessível.
Se antes a ciência baseada no senso comum o tornava menos comum, agora o senso comum é a ciência tornada comum. Nesse caso, o senso comum estaria em contínua criação e recriação em nossas sociedades, sobretudo onde o conhecimento científico e tecnológico está sendo popularizado. De fato, cada objeto simples, cada lugar comum esconde dentro de sua banalidade um mundo de conhecimentos e, embora não seja trivial transformar palavras, ideias e acontecimentos não familiares em palavras e ideias usuais e acessíveis, as imagens simbólicas derivadas da ciência e que constituem o conteúdo próprio do senso comum estão sendo frequentemente reconstruídas ou retocadas.