Uma nova ciência para um novo senso comum

Marcelo Gomes Germano · Capítulo 52 de 60

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Uma nova ciência para um novo senso comum

Para a Erradicação de um Mito

 

Ainda hoje quando se fala de ciências, a imagem predominante é aquela muito aproximada do mito. Algo muito além do conhecimento do cidadão comum e que tem grande poder de verdade. Para a maioria das pessoas, o cientista e a ciência habitam o mundo das coisas fantásticas e de compreensão inacessível.

 

Embora estejamos em permanente contato com os produtos da ciência, tanto no que se refere aos aparatos tecnológicos, como às conquistas em termos de comunicação, experimentamos, em um primeiro momento, a dolorosa sensação de que muito pouco ou nada sabemos a respeito de como são elaborados e como funcionam os aparatos científicos. Na opinião de Barros (2002), os produtos da tecnologia tentam ser os mais amigáveis para o usuário, tornando aparentemente desnecessário conhecer os princípios fundamentais que possibilitam o funcionamento do artefato tecnológico, para saber utilizá-lo. Portanto, “A tendência, que se pode observar hoje é a de valorização da técnica e da tecnologia em detrimento da ciência, embora todo o discurso tenha na ciência sua base”. Se por um lado, todos reconhecem que a ciência faz parte da cultura, por outro, cria-se a falsa imagem de que a produção científica é uma tarefa alheia as outras atividades humanas.

 

Essa é uma visão da ciência e tecnologia assentada em bases iluministas e vinculada ao projeto de desenvolvimento da modernidade a partir do século XIX. Projeto que, seguindo as regras da produção burguesa nascente, vai desenvolver um tipo de razão teórica-analíticainstrumental que, conforme Marcuse (1982), ao permanecer “pura e neutra”, entra para o serviço da razão prática.

 

A partir desse ponto de vista, cria-se uma espécie de benevolência em relação ao conhecimento científico e certa euforia quase dogmática em que toda dúvida é silenciada mediante o comprovado desenvolvimento tecnológico. Contentamo-nos, e isso é revelador, com o consumo e uso da tecnologia e transferimos a tarefa de pensar para os especialistas, isto é, os técnicos e cientistas. O poder da ciência nos acomoda e nos intimida. Diante de tanto conhecimento acumulado e em meio a tantos especialistas para que serve nossa opinião? Que contribuição teria nosso estudo para a tão majestosa e elaborada produção científica atual da humanidade? Haveria ainda alguma importante descoberta com a qual pudéssemos contribuir? Aqui, revela-se uma importante contradição para a qual Alves (1985) chama a nossa atenção. Se, por um lado, precisamos desenvolver cada vez mais a habilidade do pensamento e da criatividade, por outro, fortalecemos a ideia de que existe uma categoria especializada em criar e pensar de forma correta: os cientistas.

 

Diante do exposto, a PopC&T assume um caráter fundamental. Primeiro porque permite uma proximidade do povo com o discurso da ciência, revelando o seu caráter histórico e humano, a sua proximidade com o senso comum, sem o qual perderia todo o sentido. Segundo, porque pode enfrentar o grande desafio de “popularizar a ignorância”, isto é, revelar o que ignoramos e as incertezas do conhecimento que produzimos. Para Candotti (2003), “a popularização do que desconhecemos é tão ou mais importante do que a popularização do que conhecemos”. Mesmo porque, ao revelarmos os limites do conhecimento, estamos sendo fiéis a própria natureza do método científico. Qualquer afirmação em bases científicas estará sempre limitada a certas condições relacionadas ao modelo e longe das proposições de natureza absoluta.

 

É fundamental, então, que o povo tenha o conhecimento desse fato, que as classes populares possam entender melhor a natureza da ciência, podendo apreciá-la em suas verdades construídas a partir do reconhecimento dos modelos e do entendimento da ciência como parceira e aliada do senso comum. É preferível conhecer as incertezas para poder avançar no conhecimento, a omitir essas incertezas em benefício de um falso conhecimento absoluto geralmente condicionado aos interesses econômicos do mercado.

 

Esta ideia também pode ser muito útil aos afazeres do professor, sendo muito importante encorajar os estudantes a revelarem o que não sabem, a tornarem público o seu desconhecimento.

 

Do nosso ponto de vista, essa atitude permitiria uma maior fluidez de perguntas e um diagnóstico mais preciso da real situação do aluno. Por outro lado, esse encorajamento exigiria uma postura amável, dialógica e profundamente ética da parte do professor, principalmente reconhecendo publicamente a verdade das limitações de seu próprio conhecimento. Infelizmente, não é o que se verifica nas nossas escolas, ainda arraigadas a um modelo caricaturado da escolástica em que os mestres se esforçam para enaltecer o pouco que conhecem e os discípulos procuram esconder o muito que desconhecem.

 

Assim, popularizar a ciência é importante, sobretudo, para tornar públicas as suas limitações e possibilidades. O povo deve aprender que tudo o que é cientificamente comprovado, o é, dentro de certas condições limitadas ao modelo. E que isto é, de fato, o científico. É possível, como afirmou Candotti (2003) viver com limitações e incertezas, mas é muito importante que sejam limitações e incertezas conhecidas. A omissão do que desconhecemos é uma atitude falsa e criminosa.