Uma nova ciência para um novo senso comum

Marcelo Gomes Germano · Capítulo 20 de 60

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Uma nova ciência para um novo senso comum

O trabalho

O princípio de separação entre Estado e sociedade civil engloba tanto a ideia de estado mínimo como a de Estado máximo, e a ação estatal pode ser considerada um inimigo potencial das liberdades individuais e, ao mesmo tempo, uma condição necessária ao seu exercício. As limitações dessa resposta não nos permite aprofundar aqui essa questão, no entanto, podemos reafirmar o nosso ponto de vista de que, na atual conjuntura brasileira, é importante recolocar a questão do Estado, destacando o seu papel social como promotor de políticas públicas e regulador das relações sociais, enfrentando o problema da corrupção nas instituições públicas e a discussão acerca das consequências perversas de sua ausência na sociedade, principalmente neste momento de crise das instituições, de ampliação do desemprego e, consequente, ampliação da desigualdade social e da miséria humana.

 

O trabalho

 

Estamos vivenciando um processo acelerado de avanço das novas tecnologias da informação e comunicação que convidam a uma reflexão urgente sobre a questão do emprego, do trabalho e das condições sociais em um mundo reconhecidamente globalizado.

 

Para Menezes (2000), as mudanças promovidas no sistema produtivo e nos serviços não deixam dúvidas de que, ao longo do século XXI, quem ainda estiver trabalhando não estará realizando tarefas rotineiras, repetitivas ou brutas, pois essas serão realizadas com vantagem por máquinas e sistemas informatizados, de modo que, para participar da produção serão necessários outros atributos.

 

De fato, com as mudanças impostas ao sistema produtivo, cada vez mais as tarefas rotineiras, repetitivas e brutas vão sendo substituídas por máquinas que requerem um contingente cada vez menor de trabalhadores, com habilidades e atribuições completamente diferentes daquelas desenvolvidas até então. A revolução da informática radicaliza ainda mais este processo e inaugura um período de complexidades que, além de acelerar o processo de mundialização, produz um extraordinário impacto no mundo do trabalho.

 

Conforme Betto (1997, p.7), estamos vivendo um processo angustiante de avanço tecnológico sem uma reflexão sobre a questão do trabalho, do emprego e das condições sociais geradas pela globalização. Nesse contexto, exemplifica: “em 1980, a Volkswagen tinha 45 mil funcionários e fabricava 750 veículos por dia. Hoje (1997) produz 1,25 mil diariamente, com 25 mil funcionários. A Benetton inaugurou em Milão, na Itália, uma máquina de confecção automatizada e, no dia seguinte, despediu 3 mil funcionários”.

 

Para alguns historiadores como Hobsbawm,

 

... as classes operárias acabaram – e de maneira muito clara

após a década de 1990 – tornando-se vítimas das novas

tecnologias; sobretudo os homens e mulheres não qualificados

das linhas de produção em massa, que podiam ser mais

facilmente substituídos por maquinário automatizado (1995,

p.298).

 

Menos extremista, Antunes (1995) considera que houve, de fato, uma diminuição da classe operária industrial tradicional, principalmente nos países de capitalismo mais avançado, ao mesmo tempo em que se efetivou uma expressiva expansão do trabalho assalariado, sobretudo, com a ampliação do setor de serviços.

 

A substituição massiva de mão-de-obra, em certo sentido, parece ameaçar a própria existência do trabalho. Apenas os poucos capacitados para operarem as novas tecnologias e sintonizados com as novas regras da produção, garantirão presença no mercado. Pois, como já alertara Marx,

à medida que o trabalhador é separado dos meios de produção,

tem início uma marcha inexorável de desqualificação da força

de trabalho – que perde a sua capacidade de intervenção

subjetiva com a erradicação dos ofícios – e que se completa

com a subsunção real do trabalho ao capital, ou seja, com o

uso capitalista das máquinas (apud GERMANO, 1994, p.173).

 

O processo torna-se inteiramente objetivo através da ciência que introduz uma separação radical entre trabalho e conhecimento. O trabalho torna-se uma mera ação mecânica e a ciência se coloca fora da subjetividade de quem trabalha porque vai cada vez mais sendo pensada em outro lugar. Na era da informática digital, aliada a robótica mecatrônica, o processo vai ao extremo, conduzindo a um novo estágio de alienação em que milhões de trabalhadores, forçosamente desqualificados, já se encontram previamente excluídos do contexto da produção.

 

O mais brutal resultado dessas transformações é a expansão,

sem precedentes na era moderna, do desemprego estrutural,

que atinge o mundo em escala global... há uma

processualidade contraditória que, de um lado, reduz o

operariado industrial e fabril; de outro, aumenta o

subproletariado, o trabalho precário e o assalariamento do setor

de serviços. Incorpora o trabalho feminino e exclui os mais

jovens e os mais velhos (ANTUNES 1995, p.41/42).

 

Como já adiantamos, não se trata de uma exclusão acidental própria do desenvolvimento da ciência que acaba por criar, despretensiosamente, aparatos para substituir mão-de-obra. Não nos esqueçamos que o grande sonho dos industriais do século XIX – aumentar a produção e dispensar mão-de-obra – só vai se realizar plenamente no século XX, com o advento da cibernética mecatrônica.

 

Em tal contexto, as escolas elementares de qualificação básica perdem completamente o seu elo de ligação com o processo de produção e mesmo os níveis de excelência em qualificação acabam sobrando na concorrida disputa pelo trabalho. Cada vez mais se coloca na falta de qualificação e de escolaridade a culpa pela falta de trabalho, quando já se sabe de antemão que:

 

Uma grande quantidade de seres humanos já não é mais

necessária ao pequeno número que molda a economia e detém

o poder. Segundo a lógica reinante, uma multidão de seres

humanos encontra-se assim sem razão razoável para viver

neste mundo, onde, entretanto, eles encontraram a vida

(FORRESTER, 1997, p. 27).

 

Forrester situa-se no grupo dos que enxergam a questão do trabalho, em sua relação com o capital, de uma ótica profundamente pessimista, sem considerar as próprias contradições e flutuações inerentes a qualquer processo. Decerto que a presença massiva de novas tecnologias, além de oferecer o conforto e a facilidade de incontáveis novos produtos, também simplifica consideravelmente as ações dos trabalhadores nas linhas de produção e nos setores de serviços, transferindo para as máquinas muitas atividades fundamentais e eliminando grandes contingentes de mãode-obra. O caso mais conhecido no Brasil é dos bancários, embora muitas outras categorias tenham experimentado problema semelhante. A esse respeito, há duas interpretações opostas. Uma, que já adiantamos aqui, defende a tese de que, na medida em que avançam os conhecimentos e as inovações científico-tecnológicas, o trabalhador se desqualifica, principalmente porque o conhecimento é incorporado a equipamentos que passam a ser administrados por um número cada vez mais reduzido de especialistas qualificados. Uma evidência disso, segundo Schwartzman (1997), seria o crescimento da utilização de trabalhadores disciplinados e mais baratos (em geral mulheres) nas linhas de montagens de países menos desenvolvidos para a produção de produtos eletrônicos e bens de consumo de alta tecnologia.

 

O ponto de vista contrário acredita que a desqualificação do trabalho foi um fenômeno característico da Revolução Industrial do século XIX e início do século XX, com a conhecida massificação do trabalho mecânico e repetitivo. No contexto atual, pelo contrário, a produção exigiria maiores níveis de qualificação, liberando os trabalhadores das tarefas brutas e rotineiras (transferidas às maquinas) e tornando-os aptos a compreenderem, de maneira integral, o processo de produção. Desse ponto de vista, estaríamos assistindo a uma nova revolução industrial, que tenderia a recuperar, em um novo patamar, a tradição de competência artesanal sacrificada nas antigas linhas de montagem. Portanto, as inovações científico-tecnológicas não tenderiam a diminuir o uso de mão-de-obra desqualificada, mas eliminá-la completamente, substituindo-a por trabalho qualificado e concentrando a produção e a riqueza nos países que melhor incorporarem o conhecimento aos seus processos produtivos.

 

Nesta, como em qualquer outra questão, não é aconselhável assumir uma posição orientada em determinismos científico-tecnológicos. Nesse sentido, acreditamos que as duas tendências encontram-se em disputa no universo aberto das possibilidades. Em todo caso, não se pode fugir às evidências de que, incorporado às novas tecnologias ou aos próprios trabalhadores qualificados, o conhecimento tornou-se a maior força do processo produtivo moderno e, como escreve Gorz (2005, p.29), “... os produtos da atividade social não são mais, principalmente, produtos do trabalho cristalizado, mas sim do conhecimento cristalizado”. Aliás, o próprio Marx já havia prenunciado tal processo quando reconheceu que o trabalho imediato e sua quantidade não mais apareciam como o principal determinante da produção, mas apenas, como um momento que, embora indispensável, encontrava-se subalterno em relação à atividade científica geral.

 

Para Gorz (2005), a fonte de valor encontra-se hoje na inteligência e na imaginação e os saberes dos indivíduos contam mais que o tempo das máquinas. Por conseguinte, o trabalho material é remetido à periferia do processo, dando lugar ao trabalho “imaterial” que assume posição central no coração do processo da criação de valor. Como consequência, verifica-se uma divisão de trabalho que já está acontecendo entre as nações e regiões com alta tecnologia e o resto do mundo. As primeiras, melhores estruturadas em termos educativos e com grande contingente de mão-de-obra qualificada, assumem as tarefas mais complexas e mais lucrativas, enquanto as segundas assumem o ônus das tarefas rotineira, menos qualificadas e pouco lucrativas. Por outro lado, se o conhecimento torna-se a principal moeda de valor, o capital recorrerá ao esforço por capitalizá-lo, isto é, para privatizar as suas vias de acesso. E, como alerta Gorz (Idem, p.31), a negação deste acesso será uma forma privilegiada de capitalização das riquezas imateriais.