Uma nova ciência para um novo senso comum

Marcelo Gomes Germano · Capítulo 11 de 60

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Uma nova ciência para um novo senso comum

Locke: uma nova sistematização do empirismo

Com efeito, na concepção naturalista de Hobbes, não existe nada fora de nós a não ser corpos em movimento e nada em nosso interior além de movimentos orgânicos. Portanto, o fato de as qualidades secundárias parecerem estar nos corpos tanto quanto as primárias decorre de um conflito de movimentos no organismo: movimentos provenientes de objetos externos e dirigidos para dentro em choque com movimentos vitais que se orientam para fora. Estes últimos, por se dirigirem para fora, aparecem como matéria exterior. E essa aparência própria da imaginação é que comumente se denomina de sentidos.

 

... quaisquer acidentes ou qualidades que nossos sentidos nos

fazem crer existir no mundo não estão nele, mas são apenas

aparências e aparições; as coisas que realmente estão no

mundo exterior a nós são os movimentos pelos quais essas

aparências são causadas. E esta é a grande falsidade dos

sentidos, que também pelos sentidos há de ser corrigida

(HOBBES apud, BURTT, 1991, p.105).

 

Semelhante a Bacon, Hobbes também vai atribuir aos sentidos à possibilidade de, através da observação cuidadosa e da experiência, corrigir seus próprios erros e falsidades. Assim como o sentido da visão, quando observamos diretamente, indica-nos que a cor parece estar no objeto, o mesmo sentido nos adverte, quando vemos por reflexão, que a cor não está no objeto.

 

De certo modo, como reconhece Burtt (1991), Hobbes representou uma contratendência à obra de Galileu e de Descartes e, combatendo o dualismo cartesiano tentou trazer o homem de volta ao reino da natureza, como parte do domínio desta. Contudo, por não ter conseguido dar um tratamento matemático adequado à sua obra, foi vencido pela força do movimento contrário que via naquela linguagem a única possibilidade de exatidão.

 

Locke: uma nova sistematização do empirismo Fortemente impressionado pela ciência experimental de Boyle e pelo sucesso da mecânica newtoniana, John Locke (1632-1704) é outro nome de destaque no empirismo inglês. Em sua obra principal “Ensaio Acerca do Entendimento Humano” defende a tese de que o conhecimento é fundamentalmente derivado das experiências sensoriais e combate sistematicamente os princípios do inatismo. Em particular, procura demonstrar que os homens, pelo simples uso de suas faculdades naturais, “podem adquirir todo o conhecimento que possuem sem a ajuda de quaisquer impressões inatas e podem alcançar a certeza sem qualquer destas noções ou princípios originais” (LOCKE, 1998 , p. 13).