Uma nova ciência para um novo senso comum
Para a garantia do financiamento público e privado da ciência
Não há como negar o grande sucesso da pesquisa em Física no Brasil,
responsável por colocar o país em posição privilegiada no ranking
científico das nações [...] Mas esse sucesso torna-se modesto quando se
avalia o impacto dessa disciplina na economia brasileira... a Física está no
alicerce da inovação e do desenvolvimento tecnológico e deve ser
utilizada como instrumento de geração de riqueza e de solução de
problemas da sociedade (FAZZIO, 2006, p.1).
Ao lembrar que, nos Estados Unidos, um terço do PIB, em 2001, foi proveniente de tecnologias derivadas da física quântica, Fazzio lamenta que, no Brasil, salvo poucas e recentes iniciativas, não há divulgação de ciência visando à educação científica do cidadão. Como se percebe, esse argumento, embora nem sempre tão explícito, é uma das motivações mais fortes para os investimentos em PopC&T.
No caso da Venezuela, que também conta com uma Coordenação de Divulgação e Popularização da Ciência vinculada ao MCT, esse argumento fica explicitamente declarado em várias partes do documento oficial, “Ações de Divulgação e Popularização em Ciência e Tecnologia”. Por exemplo, quando reconhece que:
O trabalho se orienta para aumentar a valorização da ciência e tecnologia
como impulsores do desenvolvimento nacional e criar sinergia através de
meios e espaços sociais: passar do “modelo divulgativo” ao “modelo de
encontro” entre os conhecimentos científicos e tecnológicos e os saberes
imaginários do povo para gerar uma cultura da inovação (VENEZUELA,
2004, p. 3, tradução nossa).
Apesar de colocar o desenvolvimento do país em primeiro lugar, uma característica do discurso venezuelano é a clara compreensão de que é necessário ultrapassar os limites da simples divulgação para o que eles chamam de encontro do conhecimento científico com os saberes do imaginário popular no sentido de construir uma cultura da inovação. Como não conhecemos a realidade da Venezuela em termos de PopC&T, limitamo-nos a expor os argumentos encontrados no citado documento oficial.
Para a garantia do financiamento público e privado da ciência
Um argumento muito próximo do apresentado na seção anterior e talvez o mais forte junto aos cientistas brasileiros e de muitos outros países é a PopC&T como possibilidade de garantir o sempre necessário financiamento para os projetos e pesquisas científicas. Se em um regime democrático, em última instância, é o povo, através de seus representantes, quem decide sobre a liberação, ou não, de recursos para a ciência, torna-se necessário esclarecer a comunidade sobre as vantagens das pesquisas e projetos científicos para que os governantes sintam-se forçosamente compelidos a apoiarem tais iniciativas. Um povo basicamente informado sobre assuntos de ciências teria maiores chances de apoiar os grandes empreendimentos científico-tecnológicos.
Na maioria dos países do mundo, o Estado tem um grande peso no financiamento da ciência. No contexto brasileiro, em que as empresas ainda investem muito pouco em pesquisas científicas voltadas para o desenvolvimento científico-tecnológico, a presença estatal no financiamento de projetos e pesquisas científicas é ainda maior. E mesmo se assim não fosse, a própria iniciativa privada trabalha considerando as demandas públicas.
De acordo com Freire Júnior, em entrevista concedida ao autor em novembro de 2006, num estado democrático, os cientistas não podem achar que vão conseguir um financiamento porque está escrito na Constituição, ou porque está escrito nos céus, ou porque está escrito nos designos divinos, ou porque tal governante é favorável à ciência.
Não é bem assim. Em um estado democrático, o financiamento para a ciência só se sustenta se a sociedade estiver convencida da importância de seus projetos. É preciso que a sociedade banque a decisão. Nesse caso, a divulgação e popularização da ciência conduziriam a um maior esclarecimento da população quanto à importância das pesquisas científicas, conquistando o apoio popular e, consequentemente, a liberação dos recursos financeiros pelo poder público e pela iniciativa privada.
Se o financiamento da ciência necessita do apoio da população, é necessário esclarecê-la sobre os benefícios e vantagens da ciência para que, de uma forma democrática, os recursos estatais sejam distribuídos. Para Freire Junior (2006), se rejeitamos as ditaduras, se queremos um regime democrático, se queremos que a ciência seja apoiada dentro de um regime democrático, não existe outra saída, senão convencer o povo de maneira que a opinião pública consiga chegar aos governantes, interferindo, assim, na decisão final. Nos Estados Unidos, essa compreensão é maior que no Brasil e, talvez por esse motivo, a divulgação e o jornalismo científico sejam tão fortes por lá.
De fato, o jornalismo científico, a atividade de jornalista científico e a publicação da chamada Popular Science, ciência popularizada ou ciência popular, são atividades que têm o apoio da comunidade científica americana. Mas, por que esse apoio a uma atividade aparentemente irrelevante para os cientistas? Porque eles sabem que necessitam do aval da opinião pública para que o congresso continue apoiando os projetos da ciência e, nessa lógica, torna-se fundamental uma maior popularização da ciência junto à população.