Uma nova ciência para um novo senso comum

Marcelo Gomes Germano · Capítulo 6 de 60

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Uma nova ciência para um novo senso comum

A ciência em sua versão moderna

Na revolução da termodinâmica, assistimos a uma técnica que vai se metamorfoseando em tecnologia; no caso do eletromagnetismo, um corpo de conhecimentos científicos vai transformar-se em tecnologia industrial, verificando-se um tipo novo de afastamento entre os ambientes da teoria e da prática. Portanto, conforme escreve Nunes, a palavra tecnologia,

 

é uma expressão específica, em uso a partir de 1772,

denotando um fenômeno moderno, que reprojetamos a

condições distintas de nosso tempo: a ligação da ciência com a

técnica, ou seja, o ciclo do desenvolvimento da técnica

embasada no conhecimento científico, e que evolve em função

dele tanto quanto o faz progredir (1985, p. 106).

 

A partir deste entrelaçamento que, em certo sentido, já havia sido prenunciado por Galileu, os limites de separação entre ciência e tecnologia são cada vez menos plausíveis e as verdades da ciência se confundem com suas conquistas tecnológicas.

 

A ciência em sua versão moderna

 

Dos gregos, herdamos as duas primeiras e mais influentes concepções de cientificidade: o racionalismo, que poderíamos associar aos nomes de Pitágoras e Platão e o empirismo alinhado à medicina grega e relacionado aos nomes de Empédocles e Aristóteles, principalmente.

 

Em uma concepção racionalista moderna,

 

... a ciência é um conhecimento racional dedutivo e

demonstrativo como a matemática, portanto, capaz de provar a

verdade necessária e universal de seus enunciados e

resultados [...]. O objeto científico é uma representação

intelectual universal, necessária e verdadeira das coisas

representadas e corresponde à própria realidade, porque esta é

racional e inteligível (CHAUI, 1997, p.252).

Desse ponto de vista, a realidade deveria ser enquadrada em modelos racionais apriorísticos em que as observações e experiências são realizadas apenas como objeto de confirmação de uma razão prévia.

 

Para os empiristas, cujas teses, guardadas as devidas variações, já haviam sido resumidas por Aristóteles: todo o conhecimento, razão ou verdade é fruto de nossas experiências sensórias, sem a qual, a nossa razão seria uma tábua rasa e vazia de qualquer sentido. Em uma concepção do empirismo moderno,

 

... a ciência é uma interpretação dos fatos baseada em

observações e experimentos que permitem estabelecer

induções e que, ao serem completadas, oferecem a definição

do objeto, suas propriedades e suas leis de funcionamento. A

teoria científica resulta das observações e dos experimentos, de

modo que a experiência não tem simplesmente o papel de

verificar e confirmar conceitos, mas tem a função de produzi-los

(CHAUI, 1997, p.252).

 

De Bacon a Descartes, até os dias atuais, estas duas concepções de ciência têm orientado o debate metodológico da ciência moderna no sentido de responder a uma mesma questão que reaparece de várias maneiras diferentes: quais os limites de participação do sujeito e do objeto na construção do conhecimento? Qual a relação entre fatos e teorias, entre conceitos e observações? Para o empirismo naturalista e objetivista, a prioridade deve ser dada ao objeto, aos fatos e às observações, enquanto o racionalismo, subjetivista e idealista, privilegiará o sujeito, as teorias e os conceitos.

 

Embora o empirismo aristotélico de bases classificatórias e fundamentado em observações de senso comum tenha prevalecido por mais de 1300 anos, o racionalismo, sobretudo em sua expressão matemática, não havia desaparecido. E é justamente no enfrentamento com a física de Aristóteles e em benefício do modelo copernicano que Galileu vai propor uma espécie de falseamento da realidade, reconhecendo que, para estudar a natureza era necessário reproduzir modelos experimentais mais simplificados, que permitissem avançar na direção de um conhecimento mais elaborado e apoiado em argumentos matemáticos; única linguagem apropriada ao diálogo com a natureza. Sem embargo, ao sugerir tal caminho, Galileu introduziu uma nova linguagem e um novo método que estabeleceu uma profunda ruptura com a linguagem anterior e passou a caracterizar muito claramente o que hoje denominamos de ciência moderna.

 

No entanto, como sugere Burt (1991), em Galileu, a união entre a visão racionalista e o princípio experimental empirista apresenta certa ambiguidade que permite a continuidade do debate entre as duas visões de ciência anteriormente referidas. Se, de um lado, os sentidos não são confiáveis, de outro, devemos recorrer a eles em busca das necessárias confirmações experimentais.

 

É justamente esta unidade paradoxal que, conforme Bachelard (1984), melhor define a ciência moderna. Para esse autor, o empirismo e o racionalismo estão de tal forma entrelaçados ao pensamento científico que um deles só triunfa dando razão ao outro; enquanto o empirismo precisa ser compreendido, o racionalismo precisa ser aplicado. De fato, o que caracterizará essencialmente a nova linguagem introduzida pela ciência moderna é a utilização do raciocínio hipotético-dedutivo em aliança com a experimentação reiterada por argumentos matemáticos.

 

Apesar de opostas no que se referia ao processo de aquisição do conhecimento, o racionalismo e o empirismo concordavam em uma questão de fundo: o status de verdade atribuído ao conhecimento científico. Neste caso, o entrelaçamento das duas concepções em um único método – o método científico – irá conferir um importante status de certeza epistemológica à ciência moderna que passará a ser vista como uma representação verdadeira do objeto, uma radiografia fiel da realidade. É essa visão do conhecimento científico que influenciará mais fortemente as opiniões do senso comum sobre

a ciência e os cientistas6 , mas também suscitará o futuro debate sobre o alcance da verdade no discurso científico.