A máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo
A maior aventura de suas vidas
O que acontece quando uma sociedade inteira entra na internet ao mesmo tempo e, da noite para o dia, faz a transição da vida sem mídias sociais para a vida dominada pelas redes? Pode soar como um experimento impossível, mas aconteceu. Chama-se Mianmar.
“Tenho convicção de que vocês, a partir de hoje, vão embarcar na maior aventura de suas vidas”, disse Eric Schmidt, o CEO de longa data do Google, a uma sala lotada de estudantes durante sua visita ao país no início de 2013.
“Com a internet, vai ser impossível retroceder.” [40]
Durante décadas, esse país, o segundo maior do Sudeste Asiático depois da Indonésia, com florestas tropicais, deltas tomados por arrozais e costa para o oceano Índico, estava empenhado em um dos isolacionismos mais ferrenhos do planeta. A paranoica junta militar que o governava impôs a proibição quase absoluta de internet, celulares, imprensa estrangeira e viagens internacionais. Torturas e repressões violentas eram executadas com a pior combinação possível de incompetência e crueldade. Em 2011, o líder em idade avançada foi substituído por mais um general de cara azeda, Thein Sein, mas este revelou tendências reformistas. Ele convidou os exilados a voltarem ao país, relaxou as restrições à imprensa e tirou presos políticos da cadeia. Distanciou-se da China, o vizinho cada vez mais imperialista, e deu início a tratativas com os Estados Unidos. Eliminaram-se sanções e marcaram-se eleições; em 2012, Barack Obama foi o primeiro presidente norte-americano em exercício a visitar o país.
Um agente coadjuvante, mas de alta visibilidade, nesse processo de abertura, bem-visto tanto por líderes de Mianmar quanto por norte-americanos, foi o Vale do Silício. Ele prometeu que botar o país na internet, e rápido, iria modernizar sua economia e empoderar seus 50 milhões de cidadãos, garantindo efetivamente a transição para a democracia. Meses depois da visita de Obama, Schmidt, no papel de embaixador itinerante do Vale, pousou em Yangon, a capital histórica de Mianmar, para anunciar a chegada das gigantes da tecnologia.> Ladeado pelo embaixador norte-americano, ele disse à plateia estudantil: “A internet, uma vez instalada, garante que a comunicação e o empoderamento se tornem lei e prática do seu país”.
Os líderes mianmarenses também acreditaram na visão do Vale do Silício. Um jornal estatal advertiu os cidadãos: “Uma pessoa sem identidade
no Facebook é como uma pessoa sem endereço”. [41] O país embarcou na internet quase instantaneamente. De 2012 a 2015, o índice de adoção da internet explodiu de 0,5% para 40%, principalmente através de smartphones
baratos. [42] O preço de chips de celular caiu de 1500 dólares para 1,50 dólar.
O Facebook teve papel determinante nisso. A partir de acordos com empresas locais, providenciou que os aparelhos já viriam com uma versão enxuta do aplicativo da plataforma. Em países pobres como Mianmar, onde a renda média é de aproximadamente três dólares ao dia, o preço do pacote de dados pode ser proibitivo. De forma a superar esse obstáculo e vencer a corrida para capturar os 2 bilhões ou 3 bilhões de usuários mais pobres do mundo, o Facebook e outras companhias de tecnologia dos Estados Unidos lançaram a “taxa zero” — na prática, um subsídio à população inteira através de acordos com operadoras locais para abrir mão de cobrança dos dados que passassem pelos aplicativos das empresas. Mianmar foi um tubo de ensaio e, para o Facebook, um sucesso estrondoso. Uma imensa proporção do país aprendeu a mandar mensagens e navegar na internet exclusivamente através do Facebook. Tanto que muitos ainda não sabem
que existe outro jeito de se comunicar ou de ler notícias na internet. [43]
Cheguei a Mianmar no início de 2014 e pousei em Yangon para cobrir a tênue transição do país para a democracia. Parecia um lugar congelado no início dos anos 1960, quando governantes militares o haviam cortado fora do mundo exterior. As quedas de energia elétrica eram comuns e a tecnologia moderna era rara; os primeiros caixa automáticos internacionais estavam sendo instalados. Prédios de repartições coloniais britânicas, caindo aos pedaços e tomados por trepadeiras, ainda se destacavam no centro da cidade. Muitas das ruas principais ainda não eram pavimentadas e, no início da manhã, se enchiam de monges descalços. Religiosos de manto laranja e escarlate, reverenciados pela devotíssima maioria budista, estão por todo canto em Mianmar.
Nos intervalos entre entrevistas com políticos e ativistas, passei a ver o futuro de Mianmar como algo mais instável do que haviam pintado. Os militares ainda tinham nesgas de poder e se mostravam relutantes em abrir mão dele. Uma ala extremista crescia entre a classe clerical. E as mídias sociais do país, recém-abertas, estavam se enchendo de racismo e conspirações. Em qualquer ponto da internet, encontravam-se conversas acirradas sobre minorias traiçoeiras.
Um nome aparecia com frequência nas minhas conversas, e era preocupante: Wirathu. O monge budista havia passado a última década preso por seus sermões carregados de ódio e acabara de ser solto graças a um pacote de anistia geral. Ele entrou imediatamente no Facebook e no YouTube. Agora, em vez de viajar pelo país de templo em templo para espalhar o ódio, ele usava as plataformas para chegar a boa parte da nação, inclusive várias vezes por dia. Acusava a minoria muçulmana mianmarense de crimes horrendos, misturando boato com invencionice. No Facebook, acima de tudo, suas postagens circulavam e recirculavam entre usuários que as aceitavam como verdade, criando uma realidade alternativa definida por
conspirações e ira, que elevou Wirathu a outro nível de estrelato. [44]
Uma pesquisadora de Stanford que havia trabalhado em Mianmar, Aela Callan, se encontrou com gerentes sêniores do Facebook em fins de 2013 para alertar que o discurso de ódio estava tomando conta da plataforma, tal como ela contou posteriormente ao jornalista Timothy McLaughlin. Em um país com centenas de milhares de usuários, em breve milhões, o Facebook empregava apenas um moderador que sabia revisar conteúdo em birmanês, a língua predominante em Mianmar, o que deixava a rede social praticamente sem supervisão. Os gerentes disseram a Callan que mesmo
assim a empresa ia seguir adiante com a expansão em Mianmar. [45]
No início de 2014, Callan transmitiu outro alerta ao Facebook: a situação estava piorando e havia ameaça de violência. Mais uma vez, pouca coisa mudou. Meses depois, Wirathu compartilhou uma postagem na qual afirmava falsamente que muçulmanos donos de duas casas de chá na cidade de Mandalay tinham estuprado uma budista. Ele postou os nomes dos homens e da loja e disse que a agressão fictícia era o tiro de largada de um levante dos muçulmanos contra os budistas. Insistiu que o governo devia fazer um ataque preventivo, invadindo casas de muçulmanos e mesquitas — uma demanda comum da parte de genocidas, cuja mensagem implícita é que cidadãos de bem têm que fazer o que as autoridades não fazem. A postagem viralizou e dominou os feeds país afora. Usuários indignados embarcaram no entusiasmo, instigando uns aos outros a dizimar os vizinhos muçulmanos. Centenas se revoltaram em Mandalay, atacando lojas muçulmanas e seus proprietários, matando duas pessoas e ferindo várias.
Conforme a revolta se espalhou, uma autoridade do governo ligou para um conhecido na sucursal mianmarense da firma de consultoria Deloitte, pedindo ajuda no contato com o Facebook. Mas nem um nem outro conseguiram falar com a empresa. Em desespero, o governo bloqueou o acesso à rede social em Mandalay. As revoltas arrefeceram. No dia seguinte, autoridades da companhia finalmente responderam à ligação do representante da Deloitte — não para saber mais acerca da violência, mas para lhe perguntar se sabia por que a plataforma havia sido bloqueada. Duas semanas depois, em reunião com uma autoridade governamental, um representante do Facebook disse que estavam trabalhando para melhorar sua capacidade de resposta a conteúdo perigoso em Mianmar. Mas, se a empresa mudou alguma coisa, o efeito na plataforma foi indetectável. Assim que o governo revogou o bloqueio virtual, o discurso de ódio e o público de Wirathu só cresceram. “O Face book sabia pelo menos desde o incidente em Mandalay”, disse David Madden, um australiano que coordenava a maior aceleradora de startups de tecnologia em Mianmar, ao jornalista Timothy McLaughlin. “Não é questão de retrospecto. A escala do problema era significativa e já estava na cara.”
Sem capacidade ou sem disposição para considerar que seu produto podia ser perigoso, o Facebook continuou ampliando seu alcance em Mianmar e em outros países em desenvolvimento e mal monitorados. A empresa se ilhou em uma crença do Vale do Silício que Schmidt havia citado na sua primeira visita a Yangon: “Você responde ao discurso do mal com mais discurso. Mais comunicação, mais vozes”.
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