A máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo
Unindo a direita
Jonas Kaiser olhou para dentro da sua primeira toca de coelho do YouTube em uma pausa entre sessões de pesquisa para um doutorado que, no início, pouco tinha a ver com as mídias sociais nos Estados Unidos. Ele estava estudando pessoas céticas quanto à mudança climática na Alemanha, onde nascera. Lá, tal ceticismo era um tanto quanto misterioso. Diferentemente dos Estados Unidos, a Alemanha não tinha um partido ou figura política de destaque que pregasse a desconfiança quanto à mudança climática, de modo que a existência de questionadores o deixava perplexo. “É que me parecia um grupo esquisito”, disse. “Meu interesse era, tipo: Como? Por quê?”
A vida de pós-graduando pode ser exaustiva. Kaiser, que é magrelo, careca, lembra um desentupidor de cachimbos com seus óculos e gola V, e gosta de relaxar assistindo a vídeos de competição de jogos no YouTube. Tendo crescido em um vilarejo remoto, ele se conectava com amigos através dos jogos da internet, mas seu laptop da pós-graduação não tinha potência, de modo que ele resolveu ficar só nos vídeos. Um dia, lembrou, “o Gamergate estava por toda parte”, saturando os canais de jogos do YouTube. Até ali ele nunca tinha ouvido falar em Breitbart ou em Milo Yiannopoulos. A plataforma começou a empurrá-lo para outras comunidades que também haviam assumido a causa do Gamergate: youtubers pró-ateísmo, youtubers da ciência, youtubers da alt-right . “Notei uma mudança bem específica, de repente havia novas comunidades formando identidades em torno daquilo”, disse, “em torno de misoginia e desinformação.” Ao direcionar usuários para e entre essas facções, era como se o algoritmo estivesse unindo todos.
Foi um momento eureca para Kaiser, que viu um paralelo com os negacionistas da mudança climática na Alemanha. “É muito pequeno e fragmentado”, disse ele a respeito do movimento dos céticos climáticos do seu país. “O único lugar onde eles podiam trocar ideias, se aglutinar e encontrar aliados era a internet.” Ele percebeu que esses grupos não eram
reflexo de comunidades de tamanho significativo no mundo real. [4] Eram nativos da internet — e, por conta disso, moldados por espaços digitais que os haviam fomentado. Os céticos climáticos se reu niam em grande parte nas seções de comentários de jornais e blogs. Ali, reacionários e conspiracionistas diversos, gente com nada em comum além da vontade de registrar sua objeção à cobertura climática, ficavam juntos. Isso lhes dava uma noção de propósito compartilhado. E a disposição dos comentários nos sites — logo abaixo do texto — os tornava anormalmente visíveis, dando aos leitores a falsa impressão de sua popularidade e atraindo levas de novos entusiastas.
O YouTube estaria fazendo algo parecido?, Kaiser se perguntou. Uma das redes que a plataforma havia costurado ao Gamergate era a alt-right . Ele sabia que a extrema direita existia havia décadas. Mas, na internet, ela parecia entrelaçada a círculos das redes sociais que pouco tinham a ver com política, mesclando-se a algo maior, algo novo. Depois de terminar seu doutorado, Kaiser fez contato com Adrian Rauchfleisch, pós-graduando suíço com interesses parecidos e um pendor pela programação, que viria a ser seu companheiro de pesquisa por muito tempo. A dupla remanejou as ferramentas que Kaiser havia criado para rastrear os céticos da mudança climática, agora para entender a extrema direita ascendente na Alemanha.
Mas eles suspeitavam que as lições se aplicariam também aos Estados Unidos. Era o terceiro trimestre de 2016, quando Donald Trump estava subindo nas pesquisas. Kaiser identificou os vínculos de Trump aos nacionalistas brancos alinhados ao Gamergate que ele havia visto no YouTube, assim como os paralelos com a direita alternativa do seu próprio país. Embora o grupo de dados inicial que ele e Rauchfleisch tinham fosse da Alemanha, o interesse dos dois ficou cada vez mais focado nos Estados Unidos.
Começaram pelo YouTube, onde várias das vozes de liderança da alt-
right , tanto alemãs quanto norte-americanas, haviam surgido. [5] Muitos descreviam a plataforma como base digital de operações. Ainda assim, era a menos estudada entre as grandes plataformas, praticamente uma caixa-preta. Kaiser e Rauchfleisch viriam a mapear o YouTube e identificar como as recomendações da plataforma guiavam os usuários. Seria a mesma coisa que Serrato fizera com os vídeos sobre Chemnitz, mas numa escala milhares de vezes maior — talvez milhões de vezes.
Eles adestraram um computador para monitorar as recomendações do YouTube a partir de meia dúzia de canais conhecidos na Alemanha, depois
de mais meia dúzia, e assim por diante. [6] Repetiram o processo várias vezes, à procura de padrões nas escolhas do sistema. Como as recomendações de vídeo podem ser desorganizadas — variando a cada dia, conforme o algoritmo aprende, e de pessoa para pessoa, com base nos perfis de cada usuário —, a dupla também rastreou uma das recomendações padronizadas do YouTube: uma lista de “canais relacionados” que o algoritmo gerava na parte inferior de cada canal. Aquilo dava outra camada de informação sobre o raciocínio do algoritmo, ajudando Kaiser e Rauchfleisch a separarem padrão e ruído. Era uma faxina na metodologia — uma conferência para garantir que os resultados teriam rigor —, que iria, posteriormente, quando suas descobertas viessem a provocar indignação nos altos escalões do governo norte-americano, se tornar fonte de conflito com o próprio YouTube.
Os pesquisadores esperavam resultados que lembrassem uma nuvem: milhares de canais de tópicos abrangentes dispostos de forma flexível. Em vez disso, a rede retratou uma série de aglomerados bem nítidos, dispostos um ao lado do outro, como um mapa de metrô. Foi um espanto. O feito dos sistemas do YouTube de conseguir analisar e organizar bilhões de horas de vídeo em tempo real, depois direcionar bilhões de usuários pela rede, com esse nível de precisão e consistência, era incrível para a tecnologia e demonstrava a sofisticação e a potência do algoritmo.
Os vídeos de política eram ainda mais concentrados. O sistema havia formado um superaglomerado — parecido com um sistema de tempestade em um mapa meteorológico — a partir de várias comunidades que Kaiser e Rauchfleisch esperavam ver à parte. Os veículos da imprensa alternativa, a crítica de centro-direita, os extremistas de direita, os pirralhos neorracistas universitários e os teóricos da conspiração com chapéu de alumínio estavam todos vinculados. Com a meta de testar se esse superaglomerado afetava o comportamento dos usuários, a dupla recolheu cada comentário nos vídeos em um período de três anos, no total de 2 milhões, depois rastreou as atividades dos críticos (anonimizados por uma questão de privacidade) em
todo o site. [7]
Os resultados eram o que eles temiam. Usuários que começavam a comentar apenas um recorte de vídeos — canais de notícias da centro-direita, digamos — passaram a comentar em canais de todo o superaglomerado. “Com o tempo, a rede ficou mais densa e mais fechada”, disse Kaiser. Conforme os usuários eram levados algoritmicamente a circular entre críticos da direita tradicional, conspiracionistas esquisitões e racistas de porão, eles começavam a tratar as páginas, antes discrepantes, como parte de uma comunidade unificada. A comunidade deles. O YouTube, Kaiser disse, havia criado uma nova “identidade coletiva”.
O projeto lhes tomara um ano inteiro, até o terceiro trimestre de 2017. A vitória de Trump havia subido o sarrafo. Se algo parecido estava se desenrolando nos Estados Unidos, eles sabiam que as forças que tinham identificado na Alemanha agora dominavam a nação mais poderosa do planeta. Era o que tornava a compreensão daquele movimento — suas peças e como elas se conectavam — uma questão de importância urgente. Antes de eles terem chance, algo que se parecia muito com a comunidade formada no digital que eles haviam encontrado na Alemanha apareceu no
que primeiramente era o coração dos Confederados. [13]
Em agosto de 2017, centenas de manifestantes se materializaram em Charlottesville, Virgínia, em nome do que chamaram, perante o grande público, de manifestação contra o plano da cidade de derrubar uma estátua do general confederado Robert E. Lee. Nas plataformas sociais em que se organizaram, eles chamaram o encontro de Unite the Right, ou “Unindo a Direita”. Havia algo de incomum na aliança. Grupos marginais que até então tinham pouca ou nenhuma associação de repente se juntaram. Os seguidores chegaram em números até então inimagináveis, como se materializados do nada. Muitos não faziam parte de grupo algum. Eram desgarrados que entraram na onda.
O impulso se tornou demonstração de força. Centenas carregaram tochas de luau, brandindo bandeiras nazistas e confederadas enquanto entoavam “Judeus não vão tirar nosso lugar”. Com capacetes e ostentando porretes, muitos entraram em choque com a polícia. No segundo dia, pouco depois de o governador declarar estado de emergência, um dos manifestantes jogou de propósito seu Dodge Challenger contra uma multidão de manifestantes contrários, ferindo dezenas e matando uma mulher de 32 anos chamada Heather Heyer.
Não foi difícil entender como a extrema direita ganhara coragem. Trump havia usado a Presidência para defender o movimento e muitas das suas conspirações e causas. Ainda assim, isso não explicava como tais grupos tinham se unido e superado as divisões tribais, conseguido recrutar em quantidade tão vasta e ganhado coesão tão rápido. A manifestação e o grupo por trás dela haviam se constituído, como se descobriu, nas redes sociais. Mas o próprio evento, além de seu terrível significado, sugeria algo mais vasto, e ao fim e ao cabo mais perturbador, que estava acontecendo na internet.
A direita alternativa na internet, ainda próxima a suas raízes no Gamergate, estava centrada em uma subseção muito ativa do Reddit
chamada The_Donald. [8] Embora regida sobretudo por sua própria cultura de provocação troll, ela tirava deixas de extremistas como Andrew Anglin, o astro do 4chan que virou neonazista. Anglin havia declarado o “verão do
ódio”, incentivando manifestações no mundo real. [9] Conforme os tambores a convocar um megaencontro passaram a rufar na internet, um ativista chamado Richard Spencer começou a organizar um desses eventos em torno de Charlottesville. Spencer, que cunhara o termo alt-right para dar um lustro simpático ao nacionalismo branco e atrair os universitários, vivia nas redes sociais, especialmente como convidado de canais de direita do YouTube. Certa vez ele disse a um jornalista: “Memeficamos a direita
alternativa até ela passar a existir”. [10] Enquanto Spencer e Anglin impulsionavam a manifestação, os moderadores da The_Donald no Reddit
endossavam o evento e incentivavam a participação nele. [11]
Mas foi o Facebook que fez o evento crescer de encontrinho do Reddit a festa dos transextremistas saindo do armário, como definiu Megan Squire, pesquisadora do extremismo de internet na Universidade de Elon. Em um estudo que investigava a significância da plataforma, ela identificou
primeiramente 1870 grupos e eventos de Facebook da extrema direita. [12] Ela os descobriu verificando os perfis de extremistas já conhecidos, buscando termos associados com a extrema direita e, é claro, seguindo o algoritmo de “grupos sugeridos” no Facebook, que a direcionou com toda fluidez ao universo do ódio. Ela vasculhou o rol de participantes de cada grupo. Depois fez uma análise da rede, tal como Kaiser havia feito com o YouTube, para visualizar tudo. Cada grupo do Facebook era um nó. Quanto mais membros em comum entre dois grupos, mais próximos ficavam os dois nós.
Em uma rede social mais neutra, o resultado poderia se resolver em cinco ou seis agrupamentos — digamos: revivalistas da Confederação, neonazistas, milícias antigoverno, círculos de memes da direita alternativa — que permaneciam apenas entre eles próprios no mundo desconectado. Mas, no Facebook, tal como o YouTube na Alemanha, a plataforma mesclava essas comunidades, que em outro lugar ficariam separadas, criando algo totalmente novo. E, bem no centro, lá estava: a página do evento Unite the Right.
Jonas Kaiser, agora nos Estados Unidos, depois de conseguir uma vaga de docente iniciante em Harvard, estava perplexo. “Por vir da Alemanha, eu devia ser meio ingênuo”, disse. Nas manifestações da extrema direita na Alemanha, contou, “alguns nazistas vão à rua, berram, e geralmente os manifestantes contrários ganham deles em peso”. A manifestação nacionalista branca de Charlottesville tinha sido muito mais tectônica. “Aumentou a gravidade”, disse, tanto para ele quanto para Rauchfleisch.
Eles partiram para a aplicação das técnicas que haviam aprendido na Alemanha, dessa vez com o YouTube em língua inglesa. Agora, estavam aprendendo a identificar bem mais do que conexões simples. Conseguiram mapear não só a rede como um todo, tal como tinham feito na Alemanha, mas como o algoritmo direcionava usuários ali dentro, incluindo quais canais tratava como pontos de entrada e quais seriam destinos. Era a diferença entre mapear uma cidade e mapear seu trânsito.