A máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo
Ciberdemocracia
negociando para sempre.” [23]
Até o Vale do Silício estava começando a internalizar o repúdio. Um levantamento interno de 29 mil funcionários do Facebook feito naquele mês de outubro descobriu que a parcela de funcionários que tinha orgulho de
trabalhar na empresa havia caído de 87% para 70% em apenas um ano. [24] A fatia que achava que sua empresa deixava o mundo melhor havia caído de 72% para 53%. Quanto a se sentirem otimistas em relação ao futuro do Facebook, de mais de 80% a pouco mais de 50%. “Quando entrei no Facebook em 2016, minha mãe ficou orgulhosa de mim”, disse uma ex-gerente de produto da companhia à revista Wired. “Eu podia andar com minha mochila do Face book pelo mundo inteiro, as pessoas vinham me parar e diziam: ‘Que legal que você trabalha no Facebook'. Não é mais assim.” E complementou: “Foi difícil ir para casa no Dia de Ação de Graças”.
Ciberdemocracia
Desde que existe uma era democrática, ela é regida por gatekeepers , os “guardiões dos portões” da sociedade. A elite dominante do partido dita as pautas e escolhe quem entra na cédula eleitoral. A elite dominante da imprensa controla quem aparece nas câmeras e quem não, quem é retratado como aceitável e quem não é. Empresas e grupos de interesse desembolsam o dinheiro que vence as eleições. As mídias sociais, entre outros fatores, corroeram o poder desses gatekeepers . A custo zero, candidatos podiam construir sua própria maneira de se comunicar com o público, organizando e levantando fundos para impérios, contornando os gatekeepers . As elites dominantes ainda têm influência, mas, para o bem ou para o mal, o controle
que elas tinham sobre a democracia acabou. [25]
O Vale do Silício esperava fazer exatamente isso. Ao possibilitar que as pessoas se expressassem direta e coletivamente, “e não através de intermediários controlados por poucos”, escreveu Zuckerberg em uma carta a investidores de 2012, “espe ramos que os governos fiquem mais reativos”.
[26] Mas, na prática, as mídias sociais não aboliram a elite dominante, e sim a substituíram. Seus algoritmos e estímulos passaram a funcionar como gatekeepers , determinando quem sobe ou desce. E fizeram isso com base não na popularidade, mas no engajamento — o que, como Chaslot demonstrou em sua análise do YouTube, levou a candidatos marginais com melhor desempenho.
Alguns chamaram essa nova era de “ciberdemocracia”. [27] Na França, em fins de 2018, chamaram de “coletes amarelos”. Tudo começou com um abaixo-assinado para reduzir o preço dos combustíveis, que circulou pelas mídias sociais durante as férias do meio do ano e, em outubro, se tornou a base de um grupo do Facebook cada vez maior que incitava motoristas a fazerem bloqueios nas estradas da sua região. A discussão era acalorada e a culpa pelo preço do combustível, atribuída à queixa preferencial de cada usuário, exogrupo ou conspiração, dava motivo a todos para se mobilizar. Em um dia combinado de novembro, dezenas de milhares em todo o país pegaram os coletes de segurança amarelos que guardam nos carros — há uma lei na França que os obriga a tê-los à mão — e bloquearam estradas. O espetáculo chamou a atenção, o que trouxe novos recrutas.
Desde o princípio, os Coletes Amarelos, como eles se autodenominavam, se identificaram como um movimento sem líderes e radicalmente horizontal. Eram as mídias sociais que, de forma inquestionável, tinham viabilizado tudo. Nunca houvera uma maneira tão escalonável, sem custo e universalmente aberta de se organizar. Mas as plataformas também deram uma mão invisível. Seus recursos de promoção atraíram usuários para os grupos de alto engajamento que organizavam a
movimentação, nos quais as postagens mais carregadas subiam ao alto. [28] Assim como a natureza participativa das plataformas, que retribuía os usuários que participavam com postagens e fotos de sua barreira na estrada. E foi uma identidade compartilhada, na qual qualquer francês com um colete de um euro podia se sentir parte de algo grande e significativo.
Os Coletes Amarelos logo se aglutinaram em torno de uma causa maior: reconstituir a democracia francesa à sua imagem. Uma “associação de cidadãos” ia implementar diretamente a vontade popular, sem mediação de representantes ou instituições. As questões seriam decididas por referendo. Os votantes teriam poder para revogar representantes a qualquer momento. Até que isso fosse concedido, eles se comprometiam a travar as estradas todo sábado.
Os Coletes Amarelos também emitiram uma cacofonia de demandas
políticas, muitas das quais contraditórias. [29] Vários impostos teriam que ser zerados, assim como o número de sem-teto. O tamanho das turmas de jardim de infância teria que ser reduzido e estacionar no centro não teria custo. A dívida nacional deveria ser “declarada ilegítima” e seguida de calote. Tinha-se que proibir a entrada de refugiados no país. Uma segunda lista, acrescentada uma semana depois, exigia que a França abandonasse a União Europeia e a Otan, cortasse os impostos pela metade e travasse quase toda imigração. Era uma pauta que só podia emergir das mídias sociais: maximalista, incoerente, fincada na identidade, sem entraves dos tomadores de decisão que poderiam deixar a lista coerente. Puro id.
Os Coletes Amarelos, de certo modo, eram um feito histórico, o maior movimento popular desde os anos 1960 no país que praticamente inventou esses movimentos. Mas teve pouco impacto. Todos os partidos políticos tentaram canalizar sua energia. Os sindicatos de trabalhadores também. Os estudantes também. Ninguém conseguiu nada. Então o movimento se exauriu, como se nunca tivesse acontecido. Mesmo mais de sete anos após a Primavera Árabe e as lições que ela havia deixado para os ativistas da internet, a nova democracia das redes sociais rendera muito caos, mas, estranhamente, poucos resultados.
Descobriu-se que isso representava uma tendência, e uma tendência muito reveladora, no levantamento de Erica Chenoweth, pesquisadora de resistência civil em Harvard. Ela descobriu que a frequência de movimentos de protesto coletivo vinha crescendo mundo afora desde os anos 1950 e
havia se acelerado nos últimos tempos. [30] Entre as décadas de 2000 e 2010, a média de episódios por ano saltara quase 50%. O índice de sucesso desses movimentos também vinha crescendo, ano a ano, fazia décadas. Por volta do ano 2000, 70% dos movimentos de protesto que exigiam mudanças sistêmicas tinham sucesso. De repente, essa tendência se inverteu. Eles começaram a ter insucessos — justamente quando passaram a se tornar mais frequentes. Agora, descobriu Chenoweth, apenas 30% dos movimentos coletivos tinha êxito. “Alguma coisa mudou muito”, contou ela, referindo-se à queda como “assustadora”. Praticamente todo mês mais um país tinha uma erupção de protestos nacionais: o Líbano pela corrupção, a Índia pela desigualdade de gênero, a Espanha pelo separatismo catalão. Muitos com uma dimensão que superava os movimentos mais transformadores do século XX . E a maioria deles dava em nada.
Para explicar o fenômeno, Chenoweth se apoiou na observação de Zeynep Tufekci, pesquisadora da Universidade da Carolina do Norte: as redes sociais facilitam que ativistas organizem protestos e atraiam rapidamente números impensáveis de gente. Mas isso pode ser uma
desvantagem. [31] Para começar, as mídias sociais, embora recebidas inicialmente como força de libertação, “na verdade, beneficiam, na era digital, muito mais a repressão do que a mobilização”, segundo Chenoweth. Ditadores haviam aprendido a transformar isso em vantagem para si mesmos, usando seus recursos extras para inchar as plataformas de desinformação e propaganda política.
O efeito sobre as democracias era mais sutil, mas ainda assim potente. Chenoweth citou, em comparação, o Comitê Estudantil de Coordenação Não Violenta (Student Nonviolent Coordinating Committee, SNCC ), um grupo da era de luta pelos direitos civis. Antes das mídias sociais, os ativistas tinham que se mobilizar por meio do envolvimento com a comunidade e construindo a organização. Eles se reuniam quase diariamente para se exercitar, planejar estratégias e conversar. Era um trabalho agoniante, de anos. Mas foi o que fez o movimento durar, baseado em laços do mundo real e hierarquias de comando. Foi isso que possibilitou que movimentos como o SNCC perseverassem quando as coisas ficavam difíceis, reagissem estrategicamente aos acontecimentos e traduzissem vitórias nas ruas em transformação política.
As mídias sociais permitem que os protestos pulem vários desses passos, levando mais gente às ruas e mais rápido. “Assim as pessoas podem ficar com uma sensação de falsa confiança”, disse Chenoweth, “porque o compromisso é menor.” Sem a infraestrutura subjacente, os movimentos das redes sociais são menos aptos a organizar demandas coesas, a se coordenar ou a agir com estratégia. E ao canalizar a energia popular para longe do tipo mais difícil de organização, elas inviabilizaram o surgimento de movimentos tradicionais. Era o que Zuckerberg havia prometido: movimentos populares maiores e sem líderes. Mas o próprio Facebook, assim como outras gigantes das redes, se tornou uma instituição titular. E, como a maioria dos gatekeepers , se inclinou a proteger a elite dominante e o status quo do qual dependia para manter seu poder.