A máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo

As raposas de Lyudmila

As consequências se ampliaram além da meia dúzia de pessoas que viraram alvo de ira que se pode dizer imprópria ou desproporcional. A vida pública em si estava se tornando mais ancestral, mais extremada, mais centrada no ódio e no castigo à mínima transgressão. “Estou lhe dizendo que essas plataformas não são projetadas para o diálogo ponderado”, disse Wu. “Twitter, Facebook e as plataformas sociais são projetadas para uma única coisa: ‘Nós estamos certos. Eles estão errados. Vamos acabar com essa pessoa, bem rápido e com força'. E isso só amplifica a discórdia que já existe.”

 

As raposas de Lyudmila

O mistério da indignação moral — por que somos tão atraídos por uma emoção que nos faz comportar de uma maneira que nós mesmos achamos deplorável? — acabou sendo esmiuçado por uma geneticista russa de setenta anos entocada em um laboratório na Sibéria, onde cruza milhares de raposas. Lyudmila Trut chegou ao laboratório em 1959, recém-saída da Universidade Estatal de Moscou, para buscar as origens de algo que parecia

não ter relação nenhuma: a domesticação de animais. [30]

A domesticação era um mistério. Charles Darwin havia especulado que podia ser genética. Mas ninguém sabia quais pressões externas transformavam lobos em cães nem como a biologia do lobo se modificou até torná-lo tão amigável. Os discípulos de Darwin, porém, identificaram uma pista: animais domesticados, fosse o cão, o cavalo ou a vaca, tinham rabo mais curto, orelhas mais caídas, compleição um pouco mais frágil e pelos mais manchados do que suas versões selvagens. E muitos tinham uma marca distintiva na testa, em forma de estrela.

Se Trut conseguisse ativar a domesticação em um ambiente controlado, talvez conseguisse isolar suas causas. Seu laboratório, vinculado a uma fábrica siberiana de peles, começou com centenas de raposas selvagens. Ela deu pontos a cada uma quanto ao nível de amizade com seres humanos, cruzou apenas as 10% mais amigáveis, depois repetiu o processo com os filhotes daquela geração. Na décima geração, como esperado, uma raposa nasceu com orelhas felpudas. Outra tinha uma marca em forma de estrela na testa. E se mostravam, escreveu Trut, “ansiosas para firmar contato com humanos, ganindo para chamar a atenção e fungando e lambendo os

pesquisadores como cães”. [31] Darwin estava certo. A domesticação era genética. Gerações subsequentes das raposas, conforme ficaram ainda mais amigáveis, nasceram com patas, rabo e focinho mais curtos, crânio menor, rosto mais plano, pelo mais sarapintado.

Trut estudou os animais durante meio século e finalmente descobriu onde estava o segredo da domesticação: nas células da crista neural. Todo animal começa a vida com um conjunto dessas células. Elas migram pelo embrião conforme ele cresce, convertendo-se em maxilar, cartilagem, dentes, pigmento da pele e partes do sistema nervoso. O trajeto termina logo acima dos olhos. É por isso que raposas domesticadas tinham marcas brancas na testa: as células da crista neural que vinham de seus pais mais amigáveis nunca chegavam lá. Isso também explicava as orelhas caídas, o rabo mais curto e o focinho menor.

Além do mais, aquilo desencadeava uma mudança na personalidade, pois as células da crista neural também se tornam as glândulas que produzem os hormônios responsáveis por ativar o medo e a agressividade. Raposas selvagens tinham medo de humanos e eram agressivas umas com as outras, características que lhes serviam bem na vida selvagem. Quando Trut cruzou as raposas mais amigáveis, sem saber promoveu animais com menos células da crista neural, atrofiando seu desenvolvimento neurológico em um sentido muito específico e forte.

Uma das muitas revelações que partiram da pesquisa de Trut, talvez a

maior, foi a solução de um mistério de longa data entre os humanos. [32] Por volta de 250 mil anos atrás, nosso cérebro, depois de crescer cada vez mais durante milhões de anos, começou a diminuir. O estranho foi que isso ocorreu exatamente quando os humanos pareciam mais inteligentes, a julgar pelas ferramentas que se encontravam entre seus restos mortais. Os humanos desenvolveram simultaneamente ossos mais finos nos braços e pernas, rosto mais plano (deixando para trás os arcos superciliares de homem das cavernas) e dentes menores, com corpos masculinos que começaram a lembrar mais os femininos. Com as descobertas de Trut, de repente o motivo ficou claro. Eram as marcas de uma queda repentina no número de células da crista neural — marcas da domesticação.

Mas as raposas de Trut haviam sido domesticadas por uma força externa: ela. O que tinha intervindo na trajetória evolutiva dos humanos que de repente favoreceu os indivíduos dóceis, e não os agressivos? O antropólogo Richard Wrangham chegou a uma resposta: a linguagem. Durante milhões de anos, nossos ancestrais que viriam a se tornar Homo sapiens formaram pequenas comunidades comandadas por um alfa. O macho mais forte, mais agressivo, seria dominante, transmitindo seus genes às custas dos machos mais fracos.

Todo primata de grande porte detesta valentões. Chimpanzés, por exemplo, demonstram tratamento preferencial com seus colegas que lhes são gentis e desgostam dos que são cruéis. Mas eles não têm como compartilhar essa informação entre si. Os valentões nunca sofrem de má reputação porque, sem a linguagem, isso não existe. Foi o que mudou quando nossos ancestrais criaram uma linguagem com tal nível de sofisticação que podiam discutir o comportamento uns dos outros. A agressividade passou de recurso — o que os machos alfa usavam para dominar seu clã — a desvantagem que o grupo maior, cansado de ser dominado, podia castigar ao se unir.

“A conspiração com base na linguagem foi a chave, pois deu aos machos beta sussurrantes o poder para unir forças e matar os valentões

machos alfa”, escreveu Wrangham em um livro revolucionário de 2019. [33] Toda vez que um clã de antigos humanos derrubava um alfa despótico, estava fazendo a mesma coisa que Lyudmila Trut fez com as raposas: uma seleção em prol da mansidão. Machos mais cooperativos se reproduziram; os agressivos, não. Nós nos autodomesticamos.

Mas, tal como os primeiros humanos começaram a excluir um tipo de agressividade nos cruzamentos, passaram a escolher outra: a violência coletiva, que usavam tanto para derrubar os alfas como para impor uma nova ordem no seu lugar. A vida passou a ser regida pelo que o antropólogo

Ernest Gellner chamou de “tirania dos primos”. [34] As tribos se tornaram sociedades sem líderes, baseadas no consenso, unidas pela fidelidade a um código moral em comum, que os adultos do grupo (os “primos”) fiscalizavam, às vezes de forma violenta. “Não se conformar, ser contra as definições da comunidade ou ganhar reputação por ser malvado se tornou

uma aventura perigosa”, escreveu Wrangham. [35] Incomode o coletivo e você pode ser marginalizado ou exilado — ou acordar com uma pedra esmagando sua testa. A maioria das sociedades caçadoras-coletoras vive assim hoje, o que sugere que tal prática se baseia em algo inerente a nossa espécie.

A base dessa nova ordem era a indignação moral. Era assim que você alertava sua comunidade quanto a um mau comportamento — como você os incitava, ou era incitado, a castigar uma transgressão. E era uma ameaça que pairava sobre sua cabeça do nascimento até a morte, que mantinha você na linha. A indignação moral, quando ganha bastante impulso, se torna o que Wrangham chama de agressividade “proativa” e “coalizadora” —

coloquialmente conhecida como turba ou manada. [36] Quando você vê uma manada, está vendo a tirania dos primos, o mecanismo da nossa própria autodomesticação. Essa ameaça, muitas vezes mortal, se tornou uma pressão evolutiva por si só, que nos levou a desenvolver sensibilidades ultra-afinadas com os padrões morais do grupo — e o instinto de topar tudo. Se quer provar ao grupo que ele pode confiar em você para impingir suas regras, pegue uma pedra e jogue. Se não, você pode ser o próximo.

Na nossa história bastante recente, decidimos que esses impulsos são mais perigosos do que benéficos. Substituímos a tirania dos primos pelo estado de direito (ou quase), proibimos a violência coletiva e tiramos o incentivo ao comportamento de manada. Mas não há como neutralizar por completo os instintos, apenas contê-los. As redes sociais, ao acessar diretamente as emoções de grupo mais viscerais, desviam desse muro de contenção — e, nas circunstâncias certas, derrubam tudo, o que faz tais comportamentos primordiais respingarem na sociedade.

Quando você vê uma postagem que expressa indignação moral, 250 mil anos de evolução entram em ação. Você é compelido a participar. Isso o faz esquecer seu senso moral íntimo e acatar o do grupo. E o faz sentir que causar mal ao alvo da indignação é uma coisa necessária — até um prazer. Tomografias revelam que, quando as pessoas ferem alguém que acreditam

ser um transgressor moral, seus centros de dopamina se ativam. [37] É uma recompensa. As plataformas também derrubam muitas das restrições que normalmente nos impedem de levar situações até onde não se deve. Atrás de uma tela, longe de nossas vítimas, não há uma pontada de culpa ao ver a dor no rosto da pessoa que machucamos. Tampouco há vergonha em perceber que nossa raiva visivelmente chegou ao nível da crueldade. No mundo real, se você vocifera a alguém por estar usando boné em um restaurante caro, você mesmo será marginalizado, um castigo por desrespeitar as normas contra demonstrações excessivas de raiva e por perturbar seus iguais no restaurante. Na internet, se outros dão atenção a sua explosão de raiva, provavelmente será para fazer parte dela.

As plataformas sociais têm uma abundância anormal de fontes de indignação moral; sempre há um tuíte ou uma notícia que causa irritação, assim como vários usuários que a ressaltam para uma plateia de, potencialmente, milhões. É como parar no meio da maior multidão que já se viu, sabendo que, a qualquer momento, ela pode virar uma manada. Isso gera um estímulo poderoso para o que os filósofos Justin Tosi e Brandon Warmke denominaram “exibicionismo moral” — ostentar que você está mais indignado e, portanto, é mais virtuoso do que todos os outros. “Na busca para impressionar os pares”, escrevem Tosi e Warmke, “exibicionistas inventam acusações morais, menosprezam casos de humilhação pública, declaram que alguém que discorda deles está

obviamente errado ou exageram na exposição das emoções.” [38]

Fora da internet, os exibicionistas morais podem intensificar em poucos graus as sensibilidades de um grupo específico ao fazer pressão sobre seus pares para se igualarem a eles. Ou podem simplesmente incomodar todo mundo. Mas, nas redes sociais, os exibicionistas são sistematicamente recompensados e amplificados. Isso pode ativar “uma corrida armamentista moral”, segundo Tosi e Warmke, na qual as pessoas “adotam perspectivas

extremadas e implausíveis e se recusam a ouvir o outro lado”. [39]

Se isso ocorresse só em alguns fóruns de internet, as consequências podiam ser uma ou outra discussão desagradável. Mas, em meados dos anos 2010, as redes sociais haviam se tornado o vetor pelo qual passava boa parte do consumo e interpretação das notícias mundiais. Tosi e Warmke, em um estudo subsequente com o psicólogo Joshua Grubbs, alertaram que isso tinha gerado um mundo definido por “homogeneidade, vieses

endogrupo/exogrupo e uma cultura que incentiva a indignação”. [40]

O resultado foi um circuito apocalíptico de polarização e desinformação. Quando o Congresso aprovou um pacote de estímulos em 2020, por exemplo, as postagens mais compartilhadas no Twitter informavam que a proposta de lei havia sugado 500 milhões de dólares que deveriam ter ido para norte-americanos de baixa renda e enviado ao governo de Israel e outros 154 milhões à National Art Gallery, que a lei havia financiado uma operação clandestina de 33 milhões para derrubar o presidente da Venezuela, que havia cortado benefícios a desempregados, e que os cheques de seiscentos dólares para apoio durante a pandemia eram apenas empréstimos que a Receita ia tomar de volta nos impostos do ano seguinte.

Todas eram falsas. Mas, com o viés extremado da plataforma para a indignação, a desinformação tomou conta, o que gerou uma demanda por boatos e mentiras mais absurdos. Os republicanos desalmados queriam que os pobres passassem fome. Os democratas covardes haviam vendido os norte-americanos ao empresariado. Estrangeiros ardilosos tinham roubado nossa força vital financeira. Cada ciclo da história perturbava ainda mais a compreensão do público a respeito de um assunto de alto risco e deixava o meio-termo mais custo so e menos viável para legisladores cujos eleitores exigiam nada menos que posições partidárias maximalistas para aplacar sua ira.

Essa ira cria um ímpeto, às vezes opressivo, para descobrir quem vai levar o castigo. Em um experimento perturbador, os participantes eram convidados a designar uma punição para a transgressão moral de outra pessoa. Eles ficavam mais cruéis conforme eram levados a crer que estavam sendo observados, e ainda mais cruéis quando lhes diziam que sua plateia era altamente politizada ou ideológica. Muitos intensificavam o castigo mesmo que achassem que a vítima não merecia. A motivação era simples: a