A máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo

Os revolucionários

O Gamergate anunciou nossa nova era, da vida norte-americana moldada pelos estímulos e regras das redes sociais, de plataformas que estavam logo ali, nas franjas da sociedade tradicional. Em poucos anos, essas plataformas transformariam o Gamergate e suas ramificações em movimento nacional, entrariam nas casas de milhões de recém-chegados ao mundo digital e os mobilizariam para um movimento que, muito em breve, chegaria à Casa Branca.

 

Os revolucionários

Os dias de formação da revolução informática coincidiram com um período de extrema turbulência na vida norte-americana. Assassinatos políticos, revoltas, a derrota no Vietnã e a desonrosa renúncia de Richard Nixon fomentaram uma hostilidade intensa contra autoridades centralizadas, assim como uma contracultura cujas desvairadas extravagâncias aparentemente combinavam com a época. Mas embora os marqueteiros viessem a reescrever a era da informação como a de sonhadores iconoclastas, na verdade ela começou com gente como Douglas Engelbart, um engenheiro-pesquisador da Marinha. Durante os anos 1960, Engelbart, com apoio de bolsas da Nasa e do Pentágono, penou na construção de uma máquina que

usasse semicondutores para armazenar e mostrar informações. [11] Mas, diferentemente dos colossos com cartão perfurado ao estilo IBM , ela seria de uso fácil para quem não era especialista.

O aparelho que Engelbart finalmente apresentou em uma demonstração pública em 1968 exibia a primeira interface gráfica. Também incluía o primeiríssimo mouse. Ele podia até trocar informações com outras máquinas via modem. A demonstração disparou uma tempestade de ânimo no Vale do Silício, que percebeu os ingredientes de uma novíssima indústria. Intelectuais públicos, imersos na empolgação contracultural do momento, anunciaram o aparelho como um passo para derrubar as estruturas e construir uma nova sociedade de baixo para cima. O choque do futuro , célebre best-seller dos anos 1970, previa uma “revolução tecnológica” que ia empoderar mais indivíduos do que instituições. O sociólogo Ted Nelson, amigo de Engelbart, escreveu Computer Lib /Dream Machines , cujo título (“Lib ” é abreviação de libertação ) e capa com punho em riste transmitiam boa parte da mensagem.

A mitologia pegou rápido em uma indústria pronta para se redefinir. Em 1971, um periódico empresarial cunhou o termo “Vale do Silício”, fazendo referência ao mercado de transistores de silício inaugurado uma década antes por William Shockley e discípulos. No ano seguinte, o perfil apaixonado de um departamento de pesquisa empresarial no Vale foi publicado — onde mais? — na revista Rolling Stone. Retratava os engenheiros como cabeludos excêntricos que iam nos dar “liberdade e esquisitice” através de um produto — o computador — com que a maioria só havia se deparado como uma máquina sem graça e assustadora no trabalho ou na universidade.

Engenheiros de todo o Vale prontamente internalizaram os elogios como a verdade. Daí em diante, digitar código em um terminal deixou de ser desenvolvimento de produto comercial e virou “hack”. “Nós somos os revolucionários do mundo de hoje — não os garotos de barba e cabelão que estavam detonando as escolas havia poucos anos”, disse Gordon Moore, um

dos fundadores da Intel, a um jornalista. [12] Conforme as excentricidades da contracultura recuavam no restante do país logo após a renúncia de Nixon, no Vale elas se mantiveram graças, em parte, à chegada do Altair 8800, o primeiro computador pequeno e barato para uso doméstico, em 1974. As máquinas eram “abertas”, ou seja, qualquer pessoa com know-how podia mexer ou trocar componentes. Engenheiros do Vale formaram clubes com encontros depois do expediente para aficionados, com nomes como Homebrew Computer Club [Clube do Computador Caseiro] e People's Computer Company [Companhia do Computador Popular]. Em circulares e encontros, eles codificaram sua autoimagem revolucionária até transformá-la em algo que lembrava uma doutrina. A circular do People Computer's Company publicava orientações técnicas juntamente com

tratados sobre a utopia libertária vindoura. [13]

Os encontros do Homebrew renderam uma geração de startups, entre elas a Apple Computer. Conforme os computadores pessoais cresceram e superaram o nicho dos diletantes, a Apple deu um salto à frente da concorrência graças a sua tecnologia e, especialmente, ao marketing. Ela vendeu a imagem de “liberdade e esquisitice” aos baby boomers como algo que era ao mesmo tempo nostalgia — um eco da contracultura dos anos 1960 — e aspiração. Em 1984, com os negócios de vento em popa a cada ano que passava, a empresa veiculou no Super Bowl o vídeo de uma mulher lançando um martelo contra a tela de um chefe supremo totalitário. O consumismo como revolução: o anarquismo hacker preenchido pelo capitalismo desavergonhado dos anos Reagan. “É perigoso”, disse a historiadora Margaret O'Mara, “porque o mito se torna a realidade do Vale do Silício.”

O papo sobre destruir estruturas de poder foi, de início, principalmente retórico. Mas meia dúzia de devotos transformou esses ideais, alçados a um extremo quase milenarista, em uma coisa que chamaram de WELL , a primeira rede social com consequências sérias. Ela havia surgido a partir de uma revista fundada por um sócio de Ken Kesey chamado Stewart Brand, que passara os anos 1960 dirigindo seu furgão entre as comunas ripongas da

Califórnia vendendo mantimentos. [14] Ele chamava seu empreendimento de Whole Earth Truck Store [Loja-Furgão de Toda a Terra]. Ao se firmar no Vale de Santa Clara, em 1968, converteu-o em Whole Earth Catalog [Catálogo de Toda a Terra]. O nome era uma piada: o catálogo orientava leitores sobre como fazer os produtos por conta própria, junto com matérias que promoviam a vida comunitária hippie.

Exemplares do catálogo eram onipresentes no Vale do Silício. Steve Jobs viria a chamá-lo de “uma das bíblias da minha geração”. Brand, tendo absorvido as promessas de libertação do Vale, usou sua revista e suas credenciais ripongas para repetir à comunidade como se fosse uma ordem: só você pode terminar o que os anos 1960 começaram. “Acho que os hackers”, disse ele num congresso da indústria em 1984, “são o corpo de intelectuais mais interessante e mais eficiente desde os autores da Constituição dos Estados Unidos da América.” Quando uma empresa de teleconferências lhe propôs transformar sua revista em fórum, ele lançou o Whole Earth ‘Lectronic Link [Contato Eletrônico de Toda a Terra], ou WELL . Seus amigos nos altos escalões da indústria se inscreveram, e boa parte do Vale foi atrás, transformando-o em uma central da qual você tinha que fazer parte.

Os fundadores do site o imaginaram como a concretização de seus

sonhos da utopia anarquista. [15] A quase ausência de regras, acreditavam, levaria a uma comunidade com autogestão na qual as ideias iam subir ou

cair de acordo com o mérito. [16] Na realidade, conforme entravam engenheiros rabugentos ou combativos, as vozes mais ruidosas e as opiniões mais populares passaram a dominar. Mas como os arquitetos da WELL representavam esses dois lados, eles entenderam isso como confirmação de que sua meritocracia intelectual dava certo. A partir daí, os arquitetos da era da internet que haviam se reunido na WELL viriam a tratar eternamente o majoritarismo bruto como ideal natural, que acoplariam a toda rede social subsequente até hoje. A discussão ruidosa passou a ser vista como a meritocracia mais pura: se você não conseguia lidar com seus pares nem ganhar público, se você se sentia intimidado ou indesejado, era porque suas ideias não tinham o mérito da vitória.

Os usuários da WELL , espalhados pela indústria, vieram a construir a internet do consumo à sua imagem: sem regulamentação, sem governo, de uso aberto, projetada implicitamente para geeks do sexo masculino que haviam preenchido o seu fórum seminal. Não eram meros sites. Era uma cibersociedade que nos alçava dos comportamentos ultrapassados do mundo físico. “Rejeitamos: reis, presidentes e eleições. Acreditamos em: consenso bruto e código rodando”, afirmou David Clark, um dos arquitetos

da internet, em 1992. [17]

Em 1996, um ex-integrante da WELL escreveu o documento que definiu a era da internet, “Uma declaração de independência do ciberespaço”. Dirigindo-se aos “Governos do Mundo Industrial”, ele proclamava: “Vocês não têm nenhuma soberania sobre onde nos reunimos”. A internet devia ser

“uma civilização da mente” gerida pela vontade coletiva dos usuários. [18] Era uma ideologia que penetrou na cultura ampla, e rápido, foi sagrada em filmes como A rede e Matrix , que retratavam programadores como a nova vanguarda contracultural, rebeldes kung fu que romperiam as correntes da escravidão humana.

O manifesto sagrou um ideal em particular: liberdade de expressão total. Assim como na WELL , esse viria a ser o mecanismo da internet para um governo autônomo, seu primeiro mandamento e sua maior dádiva ao mundo. Seus preceitos ainda são o texto fundador da indústria das mídias sociais. “Nossa assessoria jurídica e CEO gostam de dizer que somos a ala da liberdade de expressão no partido da liberdade de expressão”, disse o

cabeça do Twitter no Reino Unido. [19] Zuckerberg chamou a liberdade de

expressão de “ideal fundador da empresa”. [20]

Mas é a ambição de concretizar uma revolução que vá das raízes até os galhos o que mais anima a ideologia subjacente do Vale do Silício. É uma profecia que as empresas de mídias sociais se veem predestinadas a cumprir. Enquanto a Apple era a “empresa da inovação”, o Facebook era a “empresa da revolução” — foi o que Zuckerberg disse, aos 22 anos, a um

funcionário em potencial. [21] A um entrevistador na TV , ele afirmou: “Em

termos básicos, estamos reprogramando o mundo de baixo para cima”, [22]

promessa que formalizou em carta aos acionistas. [23] O Facebook podia e devia fazer tudo isso, acreditava ele, porque era comandado por engenheiros, cuja visão pura os levaria até lá. “Há essa coisa fundamental que é olhar algo e pensar, desde cedo: Isso pode melhorar. Eu consigo desmontar esse sistema e deixá-lo melhor”, disse Zuck erberg em viagem à Nigéria, onde prometeu que o Facebook promoveria o avanço de todo o continente africano. “Acredito de verdade que a mentalidade da engenharia

[…] pode ser mais um conjunto de valores do que uma mentalidade.” [24] Mas esse idealismo — a crença de que as startups que ganhassem mais usuários apoiariam e deveriam reconstruir a sociedade inteira — refletia uma arrogância que se provaria catastrófica. “O motivo pelo qual nós, nerds, não nos encaixávamos era que, em certo sentido, estávamos um passo à frente”, escreveu Paul Graham, o investidor cuja incubadora havia

lançado o Reddit. [25] Os futuros silicionados eram “invariavelmente impopulares” quando crianças, defendeu ele, porque “estávamos pensando nas coisas que importam no mundo real, em vez de passar o tempo todo jogando um jogo árduo, mas sobretudo sem sentido, como os outros”.

Ainda mais importante do que a crença do Vale numa missão grandiosa eram os tipos de engenheiros que seus investidores destacavam para comandar a revolução e era à imagem deles que o mundo poderia ser refeito. “Todos parecem nerds brancos machos que trancaram Harvard ou Stanford e têm vida social zero”, disse John Doerr, investidor lendário do ramo da tecnologia, a respeito dos fundadores de sucesso, chamando isso de “molde” que usava para selecionar em quem ia investir. Do mesmo modo, Graham já disse que procura “nerds” e “idealistas” com um “brilho pirata nos olhos”, que “têm prazer em desrespeitar regras” e desafiam sutilezas

sociais. [26] “Esse pessoal quer ficar rico, mas quer ficar rico mudando o

mundo”, [27] instigou Peter Thiel, um dos fundadores do PayPal e o primeiro investidor externo do Facebook, exaltando a figura do opositor antissocial. “Parece que indivíduos com inaptidão social ao estilo Asperger têm vantagem no Vale do Silício de hoje”, escreveu ele em um livro influente sobre startups. “Se você é menos sensível aos mandos da sociedade, diminui a chance de você fazer a mesma coisa que todos à sua

volta.” [28] Os investidores consideravam que esse arquétipo representava uma forma extremada de meritocracia — baseada apenas em resultados, tão pura que ficava acima das preocupações mesquinhas com diversidade. Na realidade, tais resultados, confirmados pelo “molde” de Doerr, apenas refletiam uma cultura tecnológica que era hostil a quem fosse externo ao ideal vetusto do geek macho misantropo.

“Não se dá muito valor ao tato nas relações sociais”, disse Margaret O'Mara. “Existe uma tolerância com a esquisitice, em parte porque gente esquisita tem histórico documentado. Essa é a outra dimensão da cultura do Vale do Silício. É como se todo mundo fosse babaca.” Esse arquétipo era derivado das empresas que fundaram o Vale: o Shockley Semiconductor Laboratory e a fornecedora de componentes elétricos Hewlett-Packard. Ambas eram definidas pelo desdém de seus intratáveis fundadores pela vida corporativa convencional e pela gestão tradicional, que não lhes permitiram se mudar da Costa Leste. Elas cultivaram culturas internas de competição impiedosa e zelo contra as hierarquias, tratando os engenheiros com rédea solta e supervisão relaxada. Além disso, recrutavam rabugentos antiestablishment à sua imagem, com pedigree bem informal e personalidade muito difícil para as dóceis IBM e Bell Labs. Com o tempo, como o universitário desistente, briguento e obstinado era a personalidade que mais se via por ali, o Vale passou a considerá-la sinônimo de gênio.

Na maioria dos ramos, essas excentricidades se diluiriam com o tempo, novas contratações e gerações subsequentes. Mas o que costuma acontecer no Vale tem a ver com a eminência oculta por trás de tudo, que definiu tanto sua cultura quanto seu modelo econômico: o capital de risco. A prática de os engenheiros se tornarem investidores que escolhem a gera ção de engenheiros subsequente manteve o manancial genético ideológico incestuosamente reduzido.

Ainda hoje, Shockley está só a uns quatro ou cinco passos de praticamente toda figura conhecida das redes sociais. Um dos seus primeiros funcionários, um engenheiro chamado Eugene Kleiner, fundou depois a Kleiner Perkins, firma de investimentos que contratou Doerr. Doerr, por sua vez, financiou a Amazon e o Google, onde seus conselhos — que aprendeu com recrutas de Shockley — se tornaram a base para o modelo de negócio do YouTube. Outro pupilo de Doerr, Marc Andreessen, fundador da Netscape, se tornou um grande investidor e integrante da diretoria do Facebook, além de mentor pessoal de Mark Zuckerberg. Ele foi um dos fundadores de uma firma de investimentos que financiou, entre outras, Slack, Pinterest e Twitter.