A máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo
A magia do meme
Sua gestão durou apenas oito meses.
Ainda assim, nesse período ela havia revelado a bifurcação na estrada que as mídias sociais encaravam. Elas podiam continuar tendendo a se tornar novas versões do 4chan, turbinadas por algoritmos. Ou podiam pegar a rota do futuro no qual restrições e regras refreariam os impulsos da maioria ou os de minorias ruidosas, de modo que outros pudessem participar. Embora seja difícil defender que Pao tenha tido sucesso em convencer o comitê, seus funcionários ou seus usuários a tomar a segunda rota, ela tentou. E o fez quase dois anos antes de uma eleição que mudou o mundo e antes de uma reação em nível mundial que obrigaria os Mark Zuckerbergs e os Jack Dorseys muito mais relutantes, teimosos e poderosos do Vale do Silício, a pelo menos fingir que estavam dando continuidade a suas ações.
A magia do meme
Milo Yiannopoulos, 29 anos, faculdade trancada, tinha poucos motivos para crer que iria superar as fronteiras mais longínquas do mundo da tecnologia. Seu blog de fofocas, sempre com fontes muito suspeitas, lhe valera o 98o lugar na lista de cem influenciadores da Wired UK em 2012 (“A mosquinha incômoda do mundo da tecnologia ainda provoca e irrita”), até que ele o vendeu devido a percalços jurídicos. No que parecia ser a última parada na rota da obscuridade, Yiannopoulos recorreu a escrever colunas curtas e praticamente sem leitores na editoria de tecnologia do site Breitbart, o fundo do poço virtual dos nacionalistas brancos. Seus primeiros textos, um apanhado de fofocas insípidas do mundo da tecnologia e queixas de direita que ele havia tirado das mídias sociais, tiveram pouco impacto.
Então, passados alguns meses no novo emprego, surgiu o Gamergate. Como frequentador das mesmas plataformas em que o caso havia brotado, Yiannopoulos sabia como satisfazer as queixas e motivações do movimento, que se alinhavam com a pauta de extrema direita e com a perspectiva conspiratória de seu patrão. Manchetes como “Feministas agressoras, promíscuas, mentirosas e gananciosas desmontam a indústria gamer ” viralizaram nessas plataformas e aparentemente confirmaram o que ele pensava.
Seus chefes esperavam que os artigos de Yiannopoulos viessem a informar o pequeno leitorado de extrema direita do Breitbart quanto a questões tecnológicas. Em vez disso, conseguiram acesso a um público novo, muito maior, que nem sabiam que existia — e que estava em formação naquele momento. “Toda vez que você publica um de seus textos ele ganha 10 mil comentários”, disse Steve Bannon, diretor do Breitbart, a Yiannopoulos no programa de rádio do site. “Suas colunas têm mais leitores
do que todo o restante do público do Breitbart.” [12]
Dentro de três anos, a pequena e furiosa subcultura que Yiannopoulos defendia ia evoluir e se transformar em um movimento popular tão potente que ele foi convidado para proferir um discurso de abertura no Conservative Political Action Conference [Congresso da Ação Política Conservadora], o evento mais importante na direita política. (O convite foi mais tarde retirado.) Bannon chamou sua causa de alt-right , abreviação de “direita alternativa”, expressão que pegou emprestada de extremistas do white power que tinham a esperança de recauchutar seu movimento para a nova geração. Para Yiannopoulos, o termo era o que as redes sociais dissessem que era.
Descarado e carente de atenção, ele absorvia qualquer mensagem que parecesse dominante na internet, exagerava a informação em alguns graus, depois postava de volta nas mesmas plataformas. Ele era um algoritmo vivo que podia aparecer em mesas-redondas na TV a cabo. Mantinha-se no alto dos feeds de usuários com ofensas no estilo 4chan e piadas perversas (“Se a cultura do estupro fosse real, eu passaria ainda mais tempo do que já passo
nas universidades da América do Norte”), [13] agora dirigidas às massas do Twitter, do Facebook e do YouTube. E como a nova cara de um movimento que havia ficado tanto tempo sem rosto, ele incitava ou comandava campanhas coletivas de assédio e abuso.
Bannon e outros na alt-right viram ali uma chance de romper barreiras. “Percebi na hora que Milo ia se conectar com a garotada”, Bannon viria a dizer. “É possível ativar o exército. Eles entram pelo Gamergate ou o que
for e aí se ativam com a política e com Trump.” [14] Dentro dessa linha, no início de 2016, o Breitbart pediu a Yiannopoulos que escrevesse um Guia da alt-right do tamanho de uma lista telefônica. O colunista do Gamergate, e não um supremacista branco ou um conspiracionista da velha guarda, seria o porta-bandeira do movimento.
E quem melhor Yiannopoulos podia alistar como seu ajudante do que Andrew Auernheimer, o hacker celebridade que havia tatuado uma suástica no peito? “Finalmente fazendo minha grande reportagem sobre a alt-right ”, escreveu em um e-mail a Auernheimer. “Topa uma conversa sem filtro
comigo?” [15] Depois de mandar e-mails a outras figuras do ultranacionalismo e do white power , enviou seu material a um ghost-writer que recrutara através do Gamergate, pedindo-lhe que o organizasse em forma de artigo assinado por Yiannopoulos. “A alt-right é um movimento que nasceu das margens juvenis, subversivas e subterrâneas da internet”, dizia. Os usuários da internet seriam divulgadores da direita alternativa, impulsionando ao grande público uma causa que “promete diversão,
transgressão e desafio às normas sociais que eles não entendem”. [16]
A cada semana, a linguagem dos extremistas das redes caía nas grandes plataformas, que a levavam à discussão política popular. Nas primeiras semanas das eleições para escolher o candidato do Partido Republicano à Presidência, as plataformas ficaram lotadas de acusações a candidatos com tendências moderadas, chamando-os de cuckservatives . Acredita-se que a palavra composta — baseada em conservatives [conservadores] — teve origem em fóruns de supremacistas brancos, nos quais cuck [de cuckold ,
“corno”] faz referência ao medo de ser corneado por homens negros. [17] Os gamergaters levaram o termo para o Twitter, onde sua grosseria para chamar a atenção o deixou no alto dos feeds. Os conservadores mais convencionais o adotaram aos poucos, tingindo a política de direita — que cada vez mais se dava no Twitter e no Facebook — com um toque da cultura troll que só ia se alargar.
“Eles chamam de ‘magia do meme' — quando memes que antes eram obscuros na internet ganham tanta influência que começam a afetar o
mundo real”, escreveu Yiannopoulos poucos meses antes da eleição. [18] Dezenas de memes de extrema direita seguiam rota similar. Pepe the Frog [O sapo Pepe], um cartum que neonazistas da internet haviam adotado como mascote, cresceu no Twitter e no Reddit e se transformou em algo mais complexo: uma expressão do racismo irônico. Memes de Pepe propositalmente ofensivos (o Pepe nazista operando uma câmara de gás, o Pepe judeu sorrindo nos ataques do 11 de Setembro) se tornaram o dedo médio erguido para o mundo. E foi um instrumento para contrabandear o racismo real, mortal, coberto com um manto de ironia, para o discurso popular. “Os não doutrinados não saberão se estamos de brincadeira ou não”, escreveu Anglin, o fundador do Daily Stormer, no guia de estilo e de recrutamento do site. “É óbvio que é um estratagema e eu quero, sim,
mandar os judeuzinhos pro gás. Mas isso não é nem lá nem cá.” [19]
O movimento se aglutinou em torno de Trump, que havia convergido para os mesmos cacoetes e táticas usados por Yiannopoulos e outros astros do Gamergate. Aparentemente por idêntico motivo: era o que as mídias sociais premiavam. Ele brandia a desinformação e a misoginia como armas. Trollava sem constrangimento, abusando e zombando das vítimas. Testava os gatekeepers da sociedade, ofendendo-os com provocações exibicionistas tiradas diretamente do 4chan. “Ele tem caráter e estilo perfeitamente afinados com o que os cafajestes da internet procuram”, escreveu
Yiannopoulos. [20] Uma variação popular do meme com Pepe vestia a gravata vermelha e os cabelos loiros de Trump. O próprio Trump postou a imagem no Twitter e seu filho a postou no Instagram.
Mas enquanto Yiannopoulos e Bannon afirmam há muito tempo que são as mesclas da cultura troll da internet com a direita popular, na verdade o crédito era de uma força muito mais poderosa: o Facebook. De maio de 2015, um mês antes de Trump anunciar sua candidatura, a novembro de 2016, como um estudo de Harvard viria a descobrir, a fonte de notícias mais popular da extrema direita no Facebook foi o Breitbart, superando até a Fox
News. [21] Era o terceiro canal de imprensa mais compartilhado entre todos, batendo qualquer jornal ou canal de TV , exceto CNN e New York Times. Se você lia o Face book com regularidade à procura de notícias em 2016 — o que 43% dos norte-americanos fizeram naquele ano —, provavelmente leu
o Breitbart. [22] Ele se tornou uma referência tão predominante na plataforma que, ainda em fins de 2019, depois de o site ter diminuído por falta de gerência e controvérsias, o Facebook o indicou como “fonte de
notícias confiável” com acesso especial para seus usuários. [23]
Pessoas apavoradas, vendo de fora, por muito tempo atribuiriam a ascensão do Breitbart à manipulação que este fazia das mídias sociais com artifícios sombrios. Na verdade, a publicação pouco mais fez do que postar artigos no Facebook e no Twitter, como sempre fizera. O site foi, de certo modo, um beneficiário passivo. Os sistemas do Facebook estavam promovendo um bando de blogs hipersectários e antes obscuros, além de oficinas da desinformação — que brandiam nomes como The Gateway Pundit [O especialista de entrada], Infowars [Infoguerras], The Conservative Treehouse [Casa na árvore conservadora] e Young Cons [Jovens reaças] —, até virarem megapublicações com poder para remodelar a realidade para uma grande fatia do público.
Tal como aconteceu com o Gamergate, não era só o fato de o conteúdo ser indecente. Os sistemas promoviam ideias de ameaça à identidade de grupo — os muçulmanos estão vindo nos matar, os judeus vão apagar nossa identidade cultural, os progressistas querem destruir os valores tradicionais — que ativavam o instinto de defesa tribal dos usuários que Henri Tajfel e sua equipe de psicólogos haviam identificado décadas antes. Aquilo lhes incentivava a compartilhar ainda mais links e comentários que reforçavam a identidade de endogrupo e o mobilizavam contra um inimigo em comum. Era o que os fazia ficar clicando e postando, incitando outros usuários ao mesmo frenesi de compartilhamento, um circuito de retroalimentação infinito de medo e ódio que se provou de enorme benefício para o Vale do Silício e para Donald Trump, mas um desastre para todos os demais.
O alcance e o algoritmo do Facebook lhe deram um papel desproporcionalmente grande na criação desse ecossistema de informação. Mas era quase o mesmo processo que se desenrolava em outras plataformas, o que sugeria que o problema não era particular a alguma excentricidade do Facebook ou de seus fundadores, mas endêmico às redes sociais modernas. No Twitter, o Breitbart se tornou “o nexo da mídia conservadora” e a fonte das notícias mais compartilhadas entre apoiadores
de Trump, concluiu o estudo de Harvard. [24] O Breitbart dominou as discussões sobre imigração, talvez o tópico mais carregado da campanha de 2016. O conjunto de suas matérias sobre imigrantes foram compartilhadas duas vezes mais do que as de qualquer outro veículo da imprensa, um número marcante se considerarmos que o site empregava apenas meia dúzia de jornalistas.
Por todas as plataformas, a discussão sobre imigração “se precipitava com mais frequência à questão de ameaça à identidade”, descobriram os autores do estudo, naturalmente privilegiando visões de mundo da extrema direita que centram, por definição, medos de conflitos identitários. O estudo concluiu que “a mídia altamente partidária” compartilhando desinformação e “sites políticos partidarizados caça-cliques promovidos pelo Facebook” foram ambos endêmicos em 2016, uma tendência que “teve papel muito maior na direita do que na esquerda”.
Se quiséssemos saber aonde isso ia levar, bastava conferir o Gamergate, que, até o terceiro trimestre de 2016, de certa forma tinha declarado sua vitória na guerra cultural dos jogos. “O efeito do Gamergate no longo prazo foi a proliferação de uma cultura do medo para as profissionais mulheres que desenvolvem nossos videogames”, disse Brianna Wu. Muitas abandonaram o ramo, sentindo-se derrotadas. As que permaneceram descobriram as consequências de se manifestar. A indústria de 100 bilhões de dólares ainda pende de modo extremo, tanto nos produtos quanto nas pessoas que os criam, para o gênero masculino.
Expliquei a Wu que, assim como muita gente, no início eu não tinha considerado o Gamergate um prenúncio do mundo por vir, não havia captado as implicações na época. “Vou ser sincera”, disse ela, “eu também subestimei. Eu não teria como prever que toda a nossa política ia virar um Gamergate. E é óbvio que virou.” Ela queria ter previsto “o número de pessoas que estão pegando as táticas do Gamergate. Quero esclarecer que quem faz isso é principalmente a direita. Mas tem muita gente na esquerda que, por mais que isso me deixe horrorizada, adota o mesmo tipo de tática de indignação, pensamento de manada e humilhação”.
O resultado foi uma convergência quase universal para esses comportamentos e modos de pensar, incentivada durante todo o caminho pelas mídias sociais. Houve momentos, admitiu Wu, em que ela se viu tentada a esquentar a indignação, a convocar seus seguidores contra um adversário, a destacar alguma afirmação que, embora dúbia, pudesse exaltar a identidade e agravar os preconceitos de seu endogrupo. Geralmente ela se continha a tempo, mas nem sempre.
“É uma coisa com a qual brigo bastante, da minha parte, na minha pessoa, o jeito como interajo com o mundo, porque tem uma coisa muito perigosa que se desatou aqui”, disse. “Esse ciclo de queixume, ressentimento, identidade, ira coletiva… a sensação é que ele está engolindo e envenenando o país inteiro.”
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