A máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo
À procura dos russos
para conseguir cocaína.” [44]
A partir de sua pesquisa, Crockett sabia que as plataformas sociais, ao favorecer essas emoções, ativavam um grupo particularmente poderoso de trilhas neurais — que influenciava nosso comportamento, nossa percepção da realidade, até nossa noção de certo e errado. Apoiando-se no trabalho de Brady, ela publicou um artigo curto, mas muito influente, “Moral Outrage
in the Digital Age” [Indignação moral na era digital]. [45] A premissa era muito direta. Sob as circunstâncias certas, determinados estímulos sociais podem mudar nossa natureza subjacente. As conclusões, derivadas de dados recém-disponibilizados, eram estimulantes: normas online de indignação e conflito cada vez mais intensos podiam “fazer emoções sociais antigas passarem de forças pelo bem coletivo a ferramentas para a autodestruição coletiva”. Essa tecnologia, ao nos adestrar para sermos mais hostis, mais tribais e mais propensos a ver membros do exogrupo como menos do que completamente humanos, podia estar fazendo o mesmo com a sociedade e com a política como um todo.
Naquele momento, era só uma teoria. Crockett entrou em contato com Brady, que concordou em investigar o tema mais a fundo com ela. Enquanto eles começavam, o círculo de analistas informais de DiResta, que seguiam métodos que não podiam ser mais distintos, investigando o que de início parecia um aspecto da influência das mídias sociais totalmente sem relação, empenhavam-se na sua própria jornada. Embora uma equipe não soubesse da outra, elas acabariam, para horror dos dois lados, chegando a um conjunto de conclusões praticamente idênticas. Mas, para DiResta, assim como para Brady e Crockett, começou com uma pergunta de formulação mais simples: Até que ponto a operação russa havia chegado?
À procura dos russos
Conforme a pressão pública diminuiu um pouco e as promessas de transparência das grandes plataformas falharam, DiResta entrou em contato com analistas junto com os quais havia acompanhado gente do Estado Islâmico, antivaxxers e pizzagaters. “Foi o reencontro da banda”, contou. Eles montaram um chat em grupo, criptografado, para compartilhar conteúdos de mídias sociais que pareciam ter vínculos com traficantes da influência russa e começaram, segundo ela, a “encontrar migalhas”.
Mapear a campanha russa, acreditavam eles, talvez revelasse como as plataformas direcionavam ou distorciam o fluxo de informações. Também era uma primeira jogada para pressionar as empresas a assumir responsabilidades. A tentativa de subversão da democracia norte-americana, amplificada pelos seus próprios sistemas, não seria algo tão fácil de desprezar quanto conspiracionistas antivacina. Mas eles tinham um problema: acesso. Em plataformas nas quais bilhões de pedacinhos de conteúdo circulavam todos os dias, esquadrinhar uma postagem por vez era como estudar geologia analisando cada grão de areia. “As únicas pessoas que têm todo o escopo”, disse DiResta, “que não têm que fazer essa palhaçada de colar nomes aleatórios pela internet, são as plataformas.” Mas as empresas mal respondiam a dúvidas e muito menos iriam abrir seus sistemas ao escrutínio alheio. “Fui barrada várias vezes”, contou.
Através de um membro do seu grupo, ela entrou em contato com Tristan Harris, ex-designer do Google que se demitiu em protesto após ter alertado contra o prejuízo algorítmico. Ele estava a caminho de Washington, disse, para se encontrar com assessores no Congresso. Vários legisladores, entre os quais Mark Warner, o democrata líder no Comitê de Inteligência do Senado, queriam apoio para entender a influência das mídias sociais. Será que ela gostaria de vir junto?
DiResta percebeu uma oportunidade. O Facebook e o Google não iam conseguir se livrar tão fácil do Senado. Ela se uniu a Harris e fez sua apresentação em Washington: “Por motivos de segurança nacional”, afirmou, “as empresas deviam ser obrigadas a entregar seus dados para análise suplementar do Comitê de Inteligência do Senado”. Warner se convenceu. “Acho que elas precisam ser muito colaborativas”, disse o senador em um de vários comentários que pressionavam as empresas. “Creio que o Facebook sabe mais a respeito de cada um de nós do que o governo federal. E a ideia de que eles não estariam cientes do que se passa
nas suas plataformas desafia nossa credulidade.” [46]
Quase um ano exato após a eleição de Trump, DiResta acordou antes do amanhecer. Após meses de pressão, representantes de Google, Facebook e Twitter finalmente iriam encarar um interrogatório do Congresso. Ela e outros de seu círculo de analistas entraram em uma sala de chat para compartilhar anotações enquanto acompanhavam as perguntas feitas por uma mesa de senadores, que, em alguns casos, eram exatamente as que DiResta e colegas vinham fazendo havia anos.
As audiências podem ser quase teatrais, uma chance para os legisladores trovejarem diante das câmeras. Os CEO s da tecnologia, talvez supondo que seria esse o caso, enviaram advogados no seu lugar, o que balançou DiResta. Ela estivera em Wall Street durante a crise financeira, quando banqueiros e seguradoras ao menos submeteram seus diretores executivos à bronca do Congresso. Ainda assim, aquele podia ser um passo rumo à responsabilização. DiResta havia auxiliado assessores dos congressistas a preparar as perguntas dos chefes, afinadas para render respostas que tivessem algum valor. Porém, assim que a sessão começou, os advogados em geral só se desviavam delas ou faziam objeções. Foi uma questão de “como você faria para sair pela tangente num momento de má visibilidade”,
contou DiResta a um entrevistador da PBS . [47] “Deprecie, desabone e desdiga.” O dia a deixou, bem como a seu círculo de analistas, com “a frustração de que ainda dependíamos das próprias plataformas para as investigações”, disse. Era difícil não se perguntar quando e se as empresas seriam responsabilizadas pelo que suas plataformas haviam desencadeado.
[48]
Graças a artifícios políticos, talvez isso acontecesse em breve. As perguntas afiadas dos senadores haviam encurralado os representantes das empresas a se flexionarem de modo tão descarado que os legisladores transformaram a obstrução na pauta principal, o que intensificou a ira do grande público. Warner também redigiu leis, junto a Amy Klobuchar e John McCain, que exigiam que as companhias tornassem público quem comprava anúncios políticos e como se definia o alvo desses anúncios. A proposta foi muito ousada para aprovação no Congresso sob controle do Partido Republicano. Mas foi um tiro de alerta legislativo, uma ameaça de regulamentação à força que mirava o fluxo de caixa das empresas.
As plataformas por fim revelaram o escopo da operação russa: pelo menos mil vídeos do YouTube, 131 mil tuítes, assim como postagens do Facebook que haviam alcançado 126 milhões de usuários. DiResta insistiu com seus contatos no Senado que continuassem pressionando até que as plataformas entregassem todos os seus arquivos. Alguns meses depois, no início de 2018, chegou tudo: quatrocentos gigabytes em um único drive. Eram dados brutos, tal como entrar numa sala com 200 milhões de papeizinhos não catalogados. Os assessores do Senado não entenderam nada. Eles pediram a DiResta que comandasse uma equipe que analisasse tudo, expondo as conclusões em um relatório formal. Depois de conversar com o marido, ela largou a startup de logística que ajudara a lançar, deixando o mundo de investimentos para trás. “Senti que seriam os dados mais interessantes que já tínhamos visto em operações de inteligência modernas”, contou. “Estaríamos fazendo parte da história.”
Os dados revelaram, tanto quanto qualquer complô estrangeiro, as maneiras como os produtos do Vale do Silício haviam amplificado o alcance e exacerbado o impacto de influências malignas. (Depois ela viria a chamar isso de “ampliganda”, um tipo de propaganda cujo poder vem de
sua propagação massiva por meio de pessoas desavisadas.) [49] Um agente russo que postava memes no Facebook representava pouco perigo por conta própria. Se poucos usuários compartilhassem o conteúdo, a única consequência seria o agente perder uma tarde. A influência vinha do envio das coisas de modo viral. E não só porque a viralização trazia mais olhinhos. Quando parece que uma ideia está vindo de dentro da sua comunidade, ela é convincente de maneiras que nenhuma postagem teria como ser por conta própria.
Ao longo de várias iterações, os russos se decidiram por uma estratégia: fazer apelo a identidades de grupo. Dizer que a identidade estava sob ataque. Incitar indignação contra um exogrupo. E mobilizar o máximo possível de linguagem moral-emocional. Uma página do Facebook sob controle russo, a Heart of Texas, atraía centenas de milhares de seguidores cultivando uma identidade limitada e ressentida. “Curta se você concorda”, dizia a legenda de um mapa viral em que todos os outros estados estavam marcados com “terrível” ou “chato”, junto a textos que instigavam a secessão da união moralmente impura. Algumas postagens apresentavam a identidade do Texas sitiada (“Curta & compartilhe se você concorda que o Texas é um estado cristão”). Outros incitavam contra exogrupos (“Chega de mesquitas em solo americano! Curta se concorda!”). Conforme a eleição se aproximava, o Heart of Texas, agora com número de seguidores do tamanho de uma cidade, e perfeitamente educada, começou a hiperventilar a ideia de que a eleição ia ser roubada por Hillary Clinton. O grupo instigou os seguidores a fazer um protesto em frente a um centro islâmico em Houston; mais ou menos cem pessoas compareceram, algumas com fuzis. Enquanto isso, contas de coordenação russa parecidas, operando em todas as grandes plataformas, aliciavam eleitores negros, apoiadores de Sanders, mães hippies — qualquer grupo que os russos achavam que pudesse impulsionar ao extremismo.
Analistas e fiscalizadores se concentraram de início na intenção da campanha: semear a discórdia e impulsionar Trump. Dessa perspectiva, o pecado da plataforma havia sido apenas a falta de ação, o fracasso em identificar e deter a campanha. Mas, para DiResta e Brady, que acompanhavam os dados que chegavam de todo o país, o papel das redes sociais parecia mais ativo. O entendimento da cultura norte-americana e seu idioma por parte dos russos parecia irregular, seus métodos eram bruscos, suas iniciativas tinham recursos modestos. Seguindo tentativas e erros, eles não haviam inventado as regras do jogo, mas sim as descoberto e codificado em algoritmos e estímulos das plataformas sociais. Era razoável crer que outros iam encontrar a mesma estratégia, se não por outro motivo, para ganhar as recompensas que as plataformas davam por manter o engajamento das pessoas.
Foi exatamente o que aconteceu. Dos 58 milhões de contas do Twitter com base nos Estados Unidos ativas em 2016, a 107a de maior influência política, segundo análise do MIT Media Lab, era uma conta troll com
pseudônimo, a Ricky_Vaughn99. [50] O proprietário da conta havia entrado no Twitter em 2014, sido engolido pelo Gamergate e começara a postar
duzentas vezes ou mais por dia. [51] Ele participava de praticamente toda mobilização ou conjugação da direita no Twitter. Era um oportunista que modulava sua raiva e seus apelos descarados ao ressentimento branco macho sempre alguns pontinhos além de todo mundo. As postagens, que chegaram no topo de incontáveis ciclos de indignação, lhe valeram milhares de seguidores. Ele puxava memes racistas da pior estirpe do 4chan e das profundezas mais lodosas do Reddit, fazendo-os circular entre públicos conservadores mais tradicionais. Ele promovia conspirações sobre um complô judeu para diluir a raça branca. No meio daquele ano, estava alavancando toda essa atenção a serviço de Trump. Ele e seus seguidores postaram anúncios falsos da campanha de Hillary Clinton dizendo aos apoiadores da candidata que podiam votar por mensagens de celular em vez de ir às urnas. O plano ludibriou pelo menos 4900 eleitores, segundo denúncias federais que o acusaram de querer “privar indivíduos de seu direito constitucional ao voto” e identificavam seu nome: Douglass Mackey, consultor financeiro que morava no Brooklyn.
Para cada interferente russo havia mil Douglass Mackeys, pessoas normais com discursos radicais na internet e que exploravam as plataformas para satisfação pessoal. E para cada Mackey havia outros mil guiando inadvertidamente desinformação em massa. Mães da aula de ioga espalhando conspirações de vacina no Facebook, youtubers despencando em tocas de coelho do Pizzagate, usuários do Twitter embarcando em turbas da indignação por causa de uma deturpação. Sem líderes, sem pautas e, por conta disso, mais influentes. DiResta chamou o fenômeno de “desinformação p2p”. Os usuários e as plataformas, trabalhando em conjunto, eram os verdadeiros impulsionadores. Em questão de meses, aquilo se tornou rotineiro.
Quando centenas de pessoas da América Central fugiram da violência das gangues em seus países natais, sua chegada na fronteira dos Estados Unidos atacou a visão de mundo essencial à identidade política de muitos conservadores. Trump chamara os refugiados de criminosos e terroristas, mas o grupo era formado por famílias amedrontadas, em desespero. As mídias sociais davam uma saída. Uma foto, compartilhada 36 mil vezes, supostamente mostrava um policial mexicano ensanguentado que havia sido
atacado por ladrões fingindo ser refugiados. [52] Outra, compartilhada 81 mil vezes, mostrava um trem lotado, prova de que os refugiados, que diziam estar vindo a pé, eram mentirosos que contavam com a cooperação do jornalismo desonesto. Descobriu-se mais tarde que as tais fotos e outras dezenas do mesmo tipo eram de incidentes sem relação alguma entre si e que eram bastante antigas. A verdade, porém, não importava. As postagens não tinham a ver com a fronteira. Tinham a ver com a proteção da identidade compartilhada dos apoiadores de Trump, prova de que eles estavam certos e de que os progressistas eram os verdadeiros monstros.
Em um experimento revelador, mostrou-se a republicanos uma manchete inventada a respeito de refugiados (“Mais de 500 ‘caravanas migrantes'
presas com coletes suicidas”). [53] À pergunta se a manchete parecia precisa, a maioria a identificou como falsa; apenas 16% a consideraram exata. O enquadramento da pergunta havia incentivado os participantes, implicitamente, a pensar sobre precisão. Foi o que ativou seções racionais da mente, que rapidamente identificaram a manchete como falsa. À subsequente pergunta, se compartilhariam a manchete no Facebook, a maioria disse não: pensando com o cérebro racional, eles preferiam a precisão.
Mas quando pesquisadores repetiram o experimento com outro grupo de republicanos, dessa vez pulando a pergunta sobre precisão para indagar apenas se o participante compartilharia a manchete no Facebook, 51% disseram que sim. Focar no Facebook ativava a parcela social da mente deles, que via na mesma manchete a promessa de validação da identidade — algo que o cérebro social valoriza muito mais que a precisão. Tendo decidido compartilhar, os participantes do experimento diziam a si mesmos que aquilo era verdade. “A maioria das pessoas não quer compartilhar informações erradas”, escreveram os autores do estudo, diferenciando a mentira deliberada de uma crença motivada socialmente. “Mas o contexto das mídias sociais concentra sua atenção em fatores que não a verdade e a