A máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo

11. A ditadura da curtida

 

Presidente YouTube

Fazia sete anos, Tatiana Lionço lembrou com a voz rouca, que um vídeo no YouTube destruíra sua vida. Em 2012, Lionço, uma psicóloga, tinha participado de uma mesa-redonda sobre o combate à homofobia nas escolas. Ela disse à minúscula plateia de acadêmicos e autoridades políticas que deveriam assegurar aos pais que não havia nada de incomum em uma criança pequena expressar curiosidade pelo corpo ou pela roupa de outra.

Pouco depois, um deputado de extrema direita editou gravações do evento, reordenando as palavras de Lionço de modo a sugerir que ela havia

incentivado a homossexualidade e o sexo entre crianças. [1] O deputado, por muitos considerado uma esquisitice às margens da política, tinha poucos aliados e pouco poder efetivo. Mas tinha um séquito substancial no YouTube, onde postou a gravação editada. Youtubers de extrema direita, então uma comunidade pequena mas ativa, repostaram o vídeo enganador, acrescentando seus comentários carregados na desinformação. Lionço representava uma conspiração global comunista e homossexual, disseram. Ela havia endossado a pedofilia. Estava distribuindo “kits gays” para escolas, usados para converter crianças à homossexualidade. As declarações desses youtubers chegaram ao Twitter e ao Facebook. Os comentários nos vídeos exigiam a morte de Lionço.

De início, os amigos e colegas de trabalho da psicóloga trataram aquilo como ruído das redes sociais. Até que a história fabricada virou realidade consensual nas plataformas, indignando gente comum. Muitas entraram em contato com a universidade onde ela trabalhava, exigindo sua demissão. Acusaram seus chefes ou quem quer que a apoiasse de ameaçar a vida de crianças. Amigos e colegas se distanciaram.

“Tive que lidar com isso sozinha”, contou Lionço. Ela fez uma pausa, com o rosto contorcido, e olhou para o colo. Talvez as pessoas de seu convívio sentissem vergonha por terem deixado o caso se desenrolar, disse. “Acho que elas têm medo de que aconteça com elas.” Mesmo depois de a psicóloga praticamente se retirar da vida pública, os youtubers de extrema direita, cujos números de audiência estavam estourando, continuaram impulsionando a pauta da comunista acadêmica que tramava sexualizar crianças. Embora tenha voltado a lecionar após algum tempo, sua vida nunca mais foi a mesma e ela é acossada pela infâmia aonde quer que vá. Ameaças de morte continuam sendo uma presença constante, assim como cochichos de desconfiança até de colegas que pensavam como ela. “Estou exausta. Faz sete anos”, disse, cobrindo o rosto com as mãos. “Aquilo me quebrou. Para mim, isso é o pior. Eu me sinto sozinha.”

Lionço é brasileira. Em fins de 2018, o deputado marginal e youtuber que havia lançado a campanha de desinformação contra Lionço seis anos antes, um homem chamado Jair Bolsonaro, concorreu à Presidência do país. Todos esperavam que ele fosse perder. Em vez disso, ele ganhou com dez pontos percentuais a mais do que o concorrente. Foi o acontecimento mais significativo na política global desde a eleição de Donald Trump. O sexto maior país do mundo ficou sob o comando de um conspiracionista de extrema direita. Ele administrou a destruição de milhões de hectares da Floresta Amazônica, sinalizou seu apoio à violência da extrema direita, atacou implacavelmente as instituições democráticas do Brasil e esvaziou a

máquina estatal burocrática. [2]

A ascensão de Bolsonaro parecia uma narrativa de raiva do público contra a corrupção no governo, a desordem econômica e os retrocessos democráticos. Mas os brasileiros e analistas com quem conversei só falavam das plataformas sociais dos Estados Unidos. “A direita brasileira mal existia até coisa de dois anos atrás”, disse Brian Winter, diretor da revista acadêmica sobre política Americas Quarterly. “Ela saiu praticamente do nada.” A classe dominante havia rejeitado Bolsonaro por conta de suas conspirações extremistas, seus discursos de ódio e sua hostilidade contra mulheres (“Não te estupro porque você não merece”, ele dissera a outra

deputada). [3] Mas esse comportamento para chamar a atenção dava resultado nas redes. As mídias sociais e, em particular, o YouTube, disse Winter, apresentavam Bolsonaro como “uma personalidade reinventada”. Antes da eleição, Winter visitara o gabinete dele, querendo entender sua ascensão tanto estranha quanto repentina. Seus oito assessores “passaram todo o tempo que eu estava lá nas redes”, disse ele. “Ninguém fazia trabalho legislativo.”

Não era só Bolsonaro. Por motivos que ninguém conseguia explicar, o Brasil estava inundado de conspirações e novas pautas radicais que, em todos os casos, pareciam vindas do YouTube. “Comecei a conferir o YouTube quando, no primeiro debate de candidatos a presidente, um deles falou da Ursal”, contou uma pesquisadora que trabalha no Brasil, Luiza Bandeira. A Ursal, um plano fictício para unir a América Latina como um Superestado pancomunista, supurou nas margens da extrema direita

brasileira até que, em 2016, estourou no YouTube. [4] Vídeos que impulsionavam o plano renderam centenas de milhares de visualizações — guiados, em grande parte, como concluiu Bandeira, pelos algoritmos da plataforma, que consistentemente encaminhavam até ela mesma de vídeos sobre política até vídeos sobre conspiração.

Outras dezenas de conspirações borbulhavam no diálogo nacional,

desatando ondas sísmicas de perplexidade e medo país afora. [5] Um juiz que investigava políticos de esquerda e que morrera em um acidente, dizia uma delas, na verdade havia sido assassinado. As Forças Armadas estavam preparando um golpe de Estado. Agentes estrangeiros iam fraudar a eleição, estavam inseminando doenças letais no país e subornando o governo para perder a Copa do Mundo.

As pautas dominavam o Facebook e o Twitter, descobriu Bandeira, superando a verdade nas duas plataformas nos meses que precederam a eleição de 2018. Geralmente era possível rastreá-las até o YouTube. Praticamente todas se alinhavam com a política de extrema direita de Bolsonaro e com sua visão de mundo paranoica, abominável, que empurrava os brasileiros na sua direção. “Bolsonaro sempre advogou esses pontos de vista hipersectários, mas eles nunca tinham dado retorno”, disse Roberta Braga, colega de Bandeira, no Laboratório Forense Digital, que rastreia desinformação. “Agora eles estão na boca do povo.” A eleição que levou Bolsonaro à Presidência também fez dois youtubers de extrema direita chegarem à legislatura federal e muitos mais a cargos de nível estadual. Outros logo conseguiram empregos na política federal. Era como se uma grande maré subisse e alçasse um recorte bem específico da direita marginal — os youtubers — aos altos níveis do poder.