A máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo

Contra o feed de notícias

O acordo ia além do dinheiro. Para resguardar seu investimento, um capitalista de risco eficiente costumava ganhar assento na diretoria da empresa, ajudava a escolher a equipe executiva, até dava mentoria particular ao fundador. E capitalistas de risco tendiam a financiar gente em

quem confiavam [5] — ou seja, que conhecessem pessoalmente ou com aparência e lábia como as deles. Assim, cada turma de engenheiros de sucesso materializou tanto seus pontos fortes quanto vieses e cegueiras na próxima turma, tal como uma espécie isolada cujas características ficam mais pronunciadas a cada geração.

Conforme os semicondutores se transformaram na placa de circuito, depois no computador, a seguir na internet, e mais tarde nas redes sociais, cada tecnologia rendia meia dúzia de astros do segmento, que por sua vez financiavam e orientavam a meia dúzia seguinte. Ao longo do caminho, a comunidade continuou sendo uma Galápagos cultural-comercial, com liberdade para desenvolver suas práticas hiperespecíficas em relação a como um negócio deve funcionar, o que constitui o sucesso e que responsabilidades uma empresa tem para com seus consumidores e o mundo.

As consequências desse modelo, com todas as suas peculiaridades, só ficariam à vista quando os sucessores de Shockley tomaram, na forma das potências das mídias sociais, o controle indireto sobre todos nós. Mas os primeiros indicadores já vinham à tona em meados dos anos 2000, conforme o Vale do Silício começou a futricar em um hardware mais complexo do que qualquer semicondutor ou computador: a mente humana.

 

Contra o feed de notícias

Se você tivesse que apontar exatamente a alvorada da era das mídias sociais, poderia escolher o mês de setembro de 2006, quando os operadores de um site criado dentro de um alojamento universitário, o Facebook.com, fizeram uma descoberta acidental enquanto tentavam resolver um problema comercial. Desde o lançamento do site, dois anos e meio antes, eles haviam tido uma penetração modesta no mercado das redes sociais, nas quais os usuários tinham páginas de perfil personalizadas e não faziam quase mais

nada. Na época, o Facebook tinha 8 milhões de usuários, [6] o que já era impressionante para um bando de garotos que mal tinha idade para comprar bebida, mas não era o suficiente para garantir a sobrevivência. Até o Friendster, que já era visto como um fracasso catastrófico, tinha por volta de 10 milhões. Assim como o LiveJournal. O Orkut tinha 15 milhões. O MySpace estava batendo os 100 milhões.

As duas vantagens competitivas do Facebook começavam a parecer riscos. O design limpo deixava o site com visual atraente, mas menos lucrativo do que o atulhamento de anúncios do MySpace e do LiveJournal. E a exclusividade do site com campi universitários lhe rendera uma fatia do mercado que era ao mesmo tempo limitada e ruim de grana. A empresa havia tentado ampliar sua abrangência para empresas, mas pouca gente se inscreveu. Que adulto respeitável colocaria sua vida profissional num site feito para a garotada da faculdade?

O crescimento do número de usuários havia travado no terceiro trimestre daquele ano, quando surgiu um bote salva-vidas: o Yahoo se ofereceu para comprar o Facebook por 1 bilhão de dólares. A gigante da internet estava faturando pelo menos isso a cada trimestre. Mas seu negócio, baseado em um portal, começava a ficar obsoleto e a empresa buscava mercados emergentes. As redes sociais prometiam. Porém, para surpresa de boa parte da indústria, depois de meses de negociação, Zuck erberg recusou a proposta. Ele não queria descer da roda-gigante das startups e, aos 22 anos,

virar engrenagem do fóssil cafona que era o Yahoo. [7] Contudo, negar aos funcionários que varavam a noite a chance de se aposentar ricos aos vinte e poucos anos deixou Zuckerberg sob uma pressão imensa não só para fazer o Facebook render, mas render de um jeito tão insano que o bilhão do Yahoo ia parecer mixaria.

A segunda e última etapa do seu plano consistia em futuramente abrir o Facebook a quem quisesse. Mas a expansão fracassada para empresas tornaria incerto o sucesso do plano e poderia até ser contraproducente se afastasse os universitários. Era por isso que tanta coisa dependia da primeira etapa: Zuckerberg ia reformular a primeira página do Facebook para mostrar um feed personalizado, de modo que cada usuário visse o que seus amigos estavam fazendo no site. Até então, você tinha que conferir cada perfil ou grupo manualmente se quisesse saber da movimentação. Agora, se um amigo mudasse o status de relacionamento, outro postasse que comeu pizza ruim na cantina e outro confirmasse presença em um evento, tudo ia parar na sua página inicial.

Esse fluxo de atualizações tinha nome: feed de notícias. Ele era apresentado como uma festa sem fim na qual todo mundo que você conhecia estaria presente. Para alguns usuários, porém, era como se eles fossem obrigados a entrar em um panóptico, onde todo mundo tinha visibilidade absoluta da vida digital de todo mundo. Brotaram grupos com nomes tipo “Estudantes contra o feed de notícias do Facebook”. Nada de concreto acontecia nos grupos. Entrar sinalizava que você concordava e era isso. Mas, por conta do novo design do site, toda vez que alguém entrava num grupo, todos os amigos daquela pessoa recebiam uma notificação no próprio feed. Com um clique do mouse, eles também podiam entrar e isso, por sua vez, seria transmitido aos amigos deles. Em questão de horas, os grupos estavam por todo lado. Um atraiu 100 mil integrantes no primeiro dia e, no fim da semana, quase 1 milhão.

Na verdade, só uma minoria dos usuários do Facebook chegou a entrar nesses grupos. Mas a proliferação de atualizações os fez parecerem a maioria esmagadora. E o feed de notícias transformava cada clique à toa no botão “participar” em um grito apaixonado: “Contra o feed de notícias” ou “EU ODEIO O FACEBOOK ”. A aparência de raiva generalizada, portanto, era uma ilusão. Mas o instinto humano para o conformismo corre fundo. Quando as pessoas acham que algo se tornou parte do consenso, segundo conclusões de psicólogos, elas tendem não só a aceitar como a internalizar

essa opinião como se fosse sua. [8]

Logo a indignação se transformou em atitude. Dezenas de milhares mandaram e-mails ao serviço de atendimento do Facebook. Na manhã seguinte, furgões de TV com transmissão via satélite sitiaram a sede do Facebook em Palo Alto, assim como manifestantes em tal número que a polícia perguntou se a empresa não pensava em reverter o que provocara a polêmica. Dentro da companhia, houve quem concordasse. A crise foi apaziguada do lado de fora com um pedido de desculpas público e petulante

de Zuckerberg — “Acalmem-se. Respirem. Ouvimos vocês.” [9] — e, internamente, com uma constatação irônica: a indignação era fomentada exatamente pelo produto do Facebook contra o qual os usuários estavam gritando.

Essa amplificação digital havia enganado os usuários do Face book e mesmo a liderança do site, que começou a pensar, erroneamente, que as vozes mais ruidosas da plataforma representavam todas as demais, transformando uma faísca de ira em incêndio. Mas o crucial é que ela provocara outra coisa: o engajamento cresceu. Cresceu muito. Em um mercado em que o engajamento é a principal métrica de sucesso e numa empresa ansiosa para provar que recusar a proposta bilionária do Yahoo havia sido mais do que arrogância, as distorções do feed de notícias não só foram toleradas como adotadas. Logo o Facebook permitiu que qualquer pessoa se registrasse no site. As taxas de crescimento do número de usuários, que mal tinham se alterado durante a rodada de expansão anterior, explodiram: foram para 600% ou 700%. A média de tempo que cada pessoa passava conectada também cresceu em ritmo veloz. Em treze meses, no fim

de 2007, o valor da empresa estava estimado em 15 bilhões de dólares. [10]

Passei a considerar esse o momento monólito do Vale do Silício, similar à cena no início de 2001: Uma odisseia no espaço , de Stanley Kubrick, em que um pilar negro surge diante de um clã de chimpanzés, que de repente aprendem a empunhar ferramentas. A reviravolta fez o Facebook saltar à frente de concorrentes dos quais, até então, estava muito atrás. Outros foram extintos conforme uma nova geração surgia.

Quando o feed de notícias foi lançado, em 2006, 11% dos norte-

americanos estavam nas redes sociais. [11] Entre 2% e 4% usavam o Facebook. Menos de uma década depois, em 2014, quase dois terços deles usavam redes sociais, e, entre elas, Facebook, YouTube e Twitter eram quase universais. Naquele ano, a meio caminho do segundo mandato de Obama, cruzou-se um limiar significativo na experiência humana. Foi a primeira vez que os 200 milhões de norte-americanos com conta ativa no Facebook passaram, em média, mais tempo na plataforma (quarenta minutos por dia) do que socializando pessoalmente (38 minutos). Dentro de dois anos, no terceiro trimestre de 2016, quase 70% dos norte-americanos usavam plataformas que faziam parte do Facebook, compondo uma média