A máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo

Envenenamento por ironia

Talvez esse padrão, de ameaça ao status desenfreada na internet, ajudasse a explicar por que, em 2016, apoiadores de Trump haviam entrado tão mais fundo na toca de coelho digital do que outros norte-americanos. Se as mídias sociais foram construídas para ativar o pânico identitário da maioria, então a maioria branca minguante dos Estados Unidos — e especialmente brancos sem formação universitária ou brancos de classe operária que tendem a ser mais apegados à identidade racial e que se tornaram o grosso da coalizão Trump — estaria suscetível ao mesmo padrão perigoso que eu tinha visto no Sri Lanka. A ameaça ao status e a desindividuação digital em escala nacional. Em 2018, salvo meia dúzia de exceções, como a manifestação em Charlottesville, essa tribo ainda não havia se mobilizado a ponto da violência de turba, não de forma escancarada. Mas fiquei pensando se esse tipo de influência das redes podia estar surgindo de outras formas, incitando as pessoas à violência racial de outras maneiras, menos óbvias, mas ainda importantes.

Logo obtive a resposta. No momento em que o Sri Lanka entrava em combustão, em março de 2018, dois cientistas sociais alemães estavam encerrando um longo projeto de análise dos efeitos subterrâneos das mídias sociais no seu país. O estudo indicava uma revelação chocante, uma sugestão de que fatos como os de Mianmar e do Sri Lanka, longe de ser singulares, estavam se desenrolando também em democracias ocidentais, mas de modo mais sutil. Para entender esse fenômeno, viajei a uma cidadezinha próxima a Düsseldorf, onde minha colega Amanda Taub iria ao meu encontro dias depois.

 

Envenenamento por ironia

Durante dois dias de junho de 2018, alguns meses depois de nossa apuração no Sri Lanka, vaguei pelas ruas pavimentadas de Altena, fazendo uma pergunta que rendia olhares sóbrios, carregados de astúcia. O que aconteceu com Dirk Denkhaus?

Altena, como muitas outras cidades no noroeste industrial da Alemanha, estava em declínio, segundo me explicavam os moradores. Uma situação que deixava os mais jovens entediados, desiludidos. Recentemente a Alemanha recebera quase 1 milhão de refugiados de zonas de guerra distantes, o que a maior parte de Altena havia apoiado. Mas algumas pessoas tinham considerado aquele influxo um problema. Esse era o contexto, diziam eles, que possibilitava entender por que Denkhaus, um jovem aprendiz de bombeiro que não era considerado nem perigoso nem político, tentara botar fogo em uma casa em que dormiam várias famílias de

refugiados. [9]

Mas as pessoas que eu parava, fossem elas jovens ou velhas, citavam com frequência outro fator, que me diziam ser tão importante quanto os demais: o Facebook. Todo mundo ali tinha visto boatos nas mídias sociais que retratavam os refugiados como ameaça. Eles haviam se deparado com a peçonha que enchia os grupos locais da plataforma, um contraste chocante com os espaços físicos de Altena, onde as pessoas cumprimentavam as famílias refugiadas com simpatia. Muitos ali suspeitavam — e os promotores viriam a concordar — que Denkhaus se isolara em um mundo de paranoia racista da internet que o transformou aos poucos.

Altena exemplificou um fenômeno de que havia muito se suspeitava, mas que, em 2018, raramente era estudado: que as plataformas sociais tornam comunidades mais propensas à violência racial. A cidade era um de mais de 3 mil pontos de referência em um estudo que dizia provar a afirmação. Karsten Müller e Carlo Schwarz, pesquisadores da Universidade de Warwick, no Reino Unido, haviam recolhido dados de cada ataque a refugiados na Alemanha em um período de dois anos, no total de 3335

agressões. [10] Tinha sido um período volátil, conforme a crise de refugiados na Europa era acompanhada pelo crescimento das políticas de extrema direita. Só a escala já rendia uma oportunidade de isolar a influência das mídias sociais. Em cada incidente no estudo, os pesquisadores analisaram a comunidade local respectiva, usando meia dúzia de variáveis principais. Bens. Perfil demográfico. Vinculação política. Número de refugiados. Histórico de crimes de ódio.

Havia um ponto que se destacava. Ocorriam mais ataques a refugiados em cidades onde o uso do Facebook era maior que a média. Isso valia em praticamente qualquer tipo de comunidade: grande ou pequena, rica ou carente, progressista ou conservadora. O incremento não tinha correlação com o uso da internet em geral; era específico do Facebook. Os dados resumiram uma estatística assombrosa: onde quer que o uso da plataforma por pessoa subisse um desvio padrão acima da média nacional, os ataques a refugiados cresciam 35%. Em termos nacionais, estimavam eles, esse efeito guiava até 10% de toda a violência contra os refugiados.

Os especialistas a quem pedi que revisassem as conclusões da pesquisa disseram que os dados tinham credibilidade e rigor. Ainda assim, mais tarde o estudo atraiu críticas por exageros na metodologia. Para medir o uso do Facebook de cidade a cidade, por exemplo, os pesquisadores acompanharam uma leva de indicadores, um dos quais a quantidade de usuários que curtiram a página de fãs de Nutella. O raciocínio deles foi que Nutella era um produto de popularidade universal e culturalmente neutro, o que seria proveitoso como ponto de referência. Os críticos consideraram que a escolha não havia sido nem séria nem sensata. Os pesquisadores resolveram a questão em uma nova redação. Meu interesse, contudo, estava não em fazer a prova dos nove no fim do artigo, mas em usá-lo como mapa da influência do Facebook. Era por isso que eu tinha ido a Altena, onde os pesquisadores haviam descoberto que o uso da plataforma e a postura contra refugiados eram, ambos, anormalmente altos e em taxas alinhadas com as projeções do artigo. Talvez Denkhaus representasse uma mudança mais profunda.

Quando os refugiados começaram a chegar, poucos anos antes, em 2015, eram tantos os moradores que tinham se voluntariado para ajudar que Anette Wesemann — que assumira a direção do centro de integração de refugiados da cidade, depois de largar sua casa na agitada Hannover para ter uma vida tranquila no vilarejo — não conseguiu gerenciar a situação. Ela viu famílias sírias e afegãs atendidas por comitivas inteiras de autointitulados coaches e tutores de alemão. “Foi comovente”, disse. Mas quando criou uma página no Face book para organizar eventos de voluntários, esta se encheu de reações cáusticas contra os refugiados, de um tipo que ela nunca tinha visto fora da internet. Algumas postagens eram ameaçadoras, citando refugiados locais pelo nome. Com o tempo, a raiva dirigida a eles se provou contagiosa e dominou a página. Quando citei a pesquisa que ligava o Face book à violência contra refugiados, Wesemann reagiu: “Eu acreditaria nisso de imediato”.

A postura contra refugiados está entre as expressões mais puras de ameaça ao status, que combina o medo de transformação demográfica com o tribalismo racial. Mesmo que poucos moradores odiassem os refugiados de fato, suas postagens cresciam cada vez mais e eram recompensadas pela sua aptidão a incitar, tal como o conteúdo antivacina que Renée DiResta havia encontrado inundando grupos de pais. Conforme o ódio infestava páginas locais — criando, sempre, uma falsa impressão de consenso —, era como se mais gente se inscrevesse nelas.

Dirk Denkhaus, como se descobriu, havia passado por um microcosmo desse processo. Quando me encontrei com Gerhard Pauli, o promotor-chefe da região, responsável pela investigação de Denkhaus, ele pegou um fichário contendo centenas de páginas impressas com telas de postagens do Face book e do WhatsApp que a polícia tinha recolhido do celular de Denkhaus. Segundo Pauli, aquele homem tinha embarcado nas ideias extremistas de brincadeira. Ele e um amigo trocavam memes racistas, geralmente tirados de grupos públicos do Facebook, para provocar e chocar um ao outro.

“Eles começaram de brincadeira, um chamando o outro de ‘mein Führer ' e coisas do tipo”, contou o promotor, fazendo gestos de desaprovação com a cabeça. Com o tempo, aquilo ficou sério. “Há uma distância muito pequena”, disse Pauli, “entre brincadeiras e a realidade.” Denkhaus cruzou essa distância em questão de seis meses. “Um dia ele disse ao colega: ‘Agora temos que fazer alguma coisa'”, contou Pauli. Naquela noite, ele e o amigo invadiram o sótão de uma casa de refugiados e provocaram um incêndio, aparentemente para matar todos ali dentro. Por sorte, o fogo não se alastrou. A polícia prendeu os dois no dia seguinte.

Há um termo para o processo pelo qual Pauli passou, de piadas na internet que aos poucos se internalizam até se tornarem sinceras. Chama-se

irony poisoning . [12] Os usuários de mídias sociais costumam chamar de irony poisoned , ou envenenado por ironia, o entorpecimento que vem de uma vida centrada em subculturas das redes, nas quais predominam o distanciamento irônico, a estimulação algorítmica exagerada e o humor

ofensivo. [11] Em suas formas mais extremas, a exposição frequente a conteúdo censurável, que ocorre caindo em tocas de coelho do Facebook ou do YouTube, pode diminuir as defesas da pessoa contra o processo. A dessensibilização faz as ideias parecerem menos proibidas ou menos exageradas, o que, por sua vez, torna sua adoção mais fácil.

No julgamento, o advogado de Denkhaus enfatizou que seu cliente, na vida desconectada, não havia demonstrado nenhum rancor em relação aos

refugiados antes daquela noite. [12] Embora pensada para minimizar a relevância das mídias sociais, essa observação acabou sublinhando seu poder. Na Altena real, as normas sociais que predominavam eram esmagadoramente de tolerância. No Facebook, porém, um ambiente fechado e com suas próprias regras quanto à moralidade, Denkhaus tinha inclinações, sem qualquer restrição, para o extremismo.

Pauli acredita que Denkhaus representa uma tendência. O promotor disse ter “quase certeza” de que as mídias sociais haviam exacerbado a ascensão de Altena à violência. Meses depois, o prefeito foi esfaqueado por um homem que se disse indignado com as políticas pró-refugiados adotadas pela cidade. A polícia, disse Pauli, suspeitou de uma conexão com as redes. Páginas locais do Facebook haviam ficado lotadas de manifestações de ira contra o prefeito pouco antes do ataque. A polícia, porém, não se dera ao trabalho de reunir provas de influência da internet, dado que o agressor já tinha confessado o crime. E mesmo que considerasse a gigante do Vale do Silício uma espécie de cúmplice involuntária, Pauli sabia que a empresa estava além de qualquer justiça que ele podia aplicar.