A máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo

A tubulação

Ao ouvir a respeito do que Amanda e eu estávamos investigando, Luciana Brito, psicóloga clínica de voz suave que havíamos conhecido no centro materno de Maceió, insistiu que conversássemos. Ela se encontrava na cidade, de visita do seu centro de pesquisas em Brasília, para um trabalho de campo com as famílias do zika. Brito passou o dia ocupada — os pais e mães estavam sofrendo —, e já era mais de meia-noite quando nos sentamos. Rolando a tela do seu celular, ela encontrou no WhatsApp uma mensagem enviada pelo pai de uma criança com microcefalia. Tratava-se de um vídeo afirmando que o zika fora disseminado pela Fundação Rockefeller em um complô para legalizar o aborto no Brasil. O pai exigia saber se era verdade.

Isso acontecia o tempo todo, disse Brito. Em muitas regiões do mundo, as pessoas não têm como comprar computadores nem pagar por banda larga, nem mesmo pelas tarifas de dados associadas a vídeo na internet. O WhatsApp contornava esses problemas. Com acordos de zero-rating que muitas vezes cobriam carregamento de dados no aplicativo, pessoas que não tinham como assistir ao YouTube podiam assistir a fragmentos que outros subiam no WhatsApp e encaminhá-los a amigos ou compartilhá-los em grupos de proporções avantajadas no mesmo aplicativo. Em regiões do Brasil onde o analfabetismo é grande, acredita-se que esse é o principal meio que as famílias usam para consumir notícias. Os grupos do WhatsApp são o Google, o Face book e a CNN dessas pessoas, todos em um único aplicativo.

Como quem copiava os vídeos eram usuários comuns, o que quer que ficasse em alta no YouTube (ou no Facebook) tinha mais chance de reaparecer no WhatsApp e viralizar de novo por lá, como uma infecção que pula de um hospedeiro a outro. Vídeos como o que o contato de Brito enviara, disse ela, costumavam se espalhar por grupos de conversa do WhatsApp que haviam sido criados para compartilhar informações sobre como lidar com o zika, voltando o empenho das pessoas em cuidar da saúde da família contra elas mesmas. Brito e seus colegas entravam nos grupos, nos quais tentavam desmentir o que viam de pior, mas as perguntas não paravam de chegar. E conteúdos do YouTube e do Facebook eram postados constantemente, sem qualquer contraposição.

Virgílio Almeida, o cientista da computação da Universidade Federal de

Minas Gerais, vinha estudando exatamente esse fenômeno. [17] Ele e sua equipe acompanharam dezenas de milhares de mensagens em centenas de grupos de WhatsApp brasileiros (todos anônimos, é claro), e depois procuraram tendências. Usuários de WhatsApp, eles descobriram, subiam um vídeo a cada catorze mensagens de texto, uma taxa incrivelmente alta. Usuários de WhatsApp também linkavam ao YouTube mais do que a outros sites — dez vezes a frequência com que linkavam ao Facebook —, reforçando a teoria de uma tubulação entre YouTube e WhatsApp. Eles encontraram tendências similares na Índia e na Indonésia, o que sugeria que o efeito podia ser universal.

Havia mais uma coisa, disse Brito. Conforme as conspirações relacionadas ao zika se espalhavam, youtubers de extrema direita tinham se apoderado delas — com uma diferença. Eles afirmavam que grupos de direitos femininos haviam ajudado a projetar o vírus como desculpa para impor o aborto compulsório. Muitas vezes os vídeos nomeavam o grupo de Brito. Os espectadores, já apavorados com o zika, seguiam a deixa. “Logo depois que eles lançam um vídeo, começamos a receber ameaças”, disse Brito. Ela sabia que as alegações eram um alívio mental para as famílias, pois lhes permitiam direcionar a culpa e o medo para algo externo. Era o construto crise-solução de J. M. Berger: tal como os youtubers dos Estados Unidos haviam transformado as privações do jovem macho em raiva contra as feministas, agora os do Brasil estavam explorando o terror das famílias diante de uma doença implacável.

As ameaças contra Brito e seus colegas tinham se tornado tão frequentes que a polícia preparou um canal especial para eles informarem qualquer uma que parecesse grave. Ela disse que usavam o canal mais ou menos uma vez por semana. Mas ficava mais preocupada com mães que haviam internalizado as conspirações. A maioria passava o tempo todo recusando ajuda de grupos de apoio que, agora suspeitavam, faziam mal a seus filhos. E sem apoio médico ou emocional, elas entravam ainda mais fundo no YouTube. “Essas mulheres são muito vulneráveis”, disse. “É muito fácil elas caírem na armadilha de acreditar nessas teorias. É por isso que há tanto desespero.”

Havia um nome que eu ouvia repetidamente em Maceió, seja de médicos e de trabalhadores da saúde, seja das mães que entraram pelas tocas de coelho. Fazia meses que ninguém via Débora Diniz, mas todos insistiam que eu conversasse com ela. Diniz, mulher esbelta com cabelo grisalho curto que trabalhou por muito tempo como advogada de direitos humanos, se tornara documentarista anos antes. Seu filme sobre o surto de zika a tinha levado a Maceió. Comovida com as mães, os médicos e as equipes humanitárias que se uniram contra o vírus, ela ficou no local, como ativista em nome da comunidade.

Um dia, ameaças começaram a inundar seu celular e e-mail. De início, Diniz as ignorou. Veterana das guerras culturais no Brasil, principalmente em torno do aborto, estava acostumada. Mas as ameaças chegaram a um número anormal. As acusações eram grotescas: de que ela trabalhava para George Soros, que ela tivera parte na criação do zika. Muitos citavam a mesma fonte: Bernardo Küster.

Ele era uma criação do YouTube de cabo a rabo. O ultraconservador de trinta anos havia, da sua casa na cidadezinha de Londrina, produzido anos de injúrias contra os progressistas ímpios, o papa, jornalistas, “ideologia de gênero” (código para direitos LGBT ) e especialmente contra feministas. Recompensado repetidamente pelos sistemas do YouTube, tinha acumulado 750 mil inscritos. Bolsonaro já recomendou seu canal. E, desde fins de 2017, Küster havia nomeado Diniz como peça central de um complô para impor abortos involuntários. Como os vídeos tinham bom desempenho, ele fez mais e mais, inventando novas alegações que mandaram milhares de seguidores atrás daquela mulher, furiosos com os pecados que ela cometera.

As ameaças que enchiam o celular de Diniz ficaram mais frequentes e mais violentas, com longas descrições dos planos de estuprá-la e torturá-la. Geralmente ecoavam o que quer que Küster houvesse dito no último vídeo. Algumas mencionavam detalhes da rotina da documentarista. “Eles descrevem de que maneira vão me matar”, contou Diniz quando nos encontramos em Nova York, onde ela foi morar depois de fugir do Brasil. Enquanto a equipe de filmagem gravava, ela pegou o celular e leu para mim: “Vou te matar porque é a vontade de Deus. Depois vou cometer suicídio”. Küster mencionara as ameaças de forma velada em seus vídeos, embora nunca as houvesse endossado explicitamente. O YouTube se recusava a derrubar os vídeos, apesar de Diniz argumentar que eles punham sua vida em risco.

Após meses nessa toada, a universidade em que ela lecionava recebeu um alerta. O remetente disse estar a caminho para atirar em Diniz, depois nos alunos, a seguir em si mesmo. A polícia lhe informou que não tinha mais como garantir sua segurança. Ela também ficou preocupada com colegas e com os pais idosos, que passaram a receber ameaças semelhantes. Deixou o Brasil sem saber quando ou se ia voltar.

“Eu a expus”, declarou Küster em um vídeo muito assistido e que festejava o exílio da documentarista. “Aqui você não é bem-vinda”, berrou ele, com dedo em riste para a câmera. Mas Küster era, em certo sentido, um produto de forças maiores do que ele, acreditava Diniz. Tanto ele quanto as ameaças que inspirava, defendia ela, vinham de um “ecossistema do ódio” cultivado no YouTube. “O sistema do YouTube de recomendar o vídeo seguinte e o seguinte e o seguinte alimenta o ecossistema”, disse ela, falando devagar enquanto escolhia cada palavra do inglês, seu terceiro idioma. “‘Eu ouvi aqui que ela é uma inimiga do Brasil. No seguinte ouço que as feministas estão mexendo com os valores da família. E no seguinte, que elas recebem dinheiro do exterior.' É essa repetição que leva a pessoa a dizer: ‘Eu vou fazer o que tem que ser feito'.” O efeito era persuasivo, segundo ela, porque “parece que a conexão é feita pelo espectador, mas quem faz a conexão é o sistema”.

Exílios como o de Diniz estavam ficando comuns. Afinal, você não tem como se proteger contra uma ameaça que vem de todos os lados. Alguns meses antes, Marcia Tiburi, ativista de esquerda que havia concorrido ao governo do estado do Rio de Janeiro, fugiu do Brasil para escapar de ameaças de morte fomentadas em grande parte nas redes sociais. Jean Wyllys, único deputado abertamente homossexual do país, tinha feito a mesma coisa.

Na noite anterior à nossa entrevista, afirmou Diniz, ela havia jantado com Wyllys, que estava na cidade. Alguém devia ter reconhecido os dois, pois um grupo de brasileiros se juntou em frente ao restaurante, começou a tirar fotos e apontar para eles. A multidão os ameaçou na saída e os seguiu pela rua, gritando ofensas e acusações que ecoavam as conspirações no YouTube. Era por isso que Diniz raramente saía de casa, mesmo em outro país.

“Temos uma milícia que é mobilizada pelos algoritmos”, disse ela. “Os algoritmos estão construindo a milícia.”

Perguntei-lhe se ainda recebia mensagens de ameaça.

“Todos os dias”, disse. “Você nunca, nunca se sente tranquila com uma situação dessas.”

Estávamos conversando fazia uma hora, as câmeras e as luzes a aumentar a tensão enquanto eu lhe pedia que me guiasse naquela conversa gravada e em uma língua estrangeira sobre seu próprio trauma. Eu lhe disse que não conseguia imaginar como ela era capaz de continuar a se pronunciar, sabendo dos perigos que a rondavam até mesmo ali.

Ela deitou os braços sobre a mesa que nos separava e olhou para baixo. Estava chorando. “Tem momentos na vida em que você se vê de frente com um dilema”, disse ela. “Você só tem duas opções. Uma é deixar que eles vençam. A outra é revidar. Não quero essa linguagem para minha vida. Mas vou dedicar minha vida a mudar essa situação. E eles não vão me matar. Eles não vão me matar.”

Propus encerrar a entrevista, mas ela fez que não. Contou que havia acompanhado as histórias dos médicos e ativistas que os vídeos do YouTube miravam, dos professores que tinham se escondido, das vidas arruinadas e de cada comunidade desestabilizada. “Precisamos que as empresas encarem seu papel”, afirmou. Ela insistiu que os executivos do YouTube refletissem quanto a sua parte no que acontece. “A minha esperança é que eles entendam que fazem parte dessa comunidade do ódio. Eticamente, eles são os responsáveis.”

Mas o YouTube seguia recusando essa responsabilidade. Os representantes da empresa repetiam o roteiro. A empresa levava segurança e bem-estar a sério. Mas negava os estudos de Harvard e da Universidade Federal de Minas Gerais, dizendo não considerar a metodologia confiável. Em se tratando daquelas questões, a empresa disse que realizara sua própria pesquisa interna, que havia provado que a plataforma promovia conteúdo esmagadoramente preciso e benéfico. Os representantes, que exigiam analisar as centenas de páginas de comprovação por trás dos estudos que Amanda e eu citamos, não forneciam nenhum dado ou metodologia para apoiar o que afirmavam.

Depois de reconhecer que parte dos vídeos de desinformação sobre saúde que Kaiser identificara desrespeitavam as regras do site, a empresa os derrubou. Os detalhes da pesquisa de Kaiser, que eu tinha transmitido ao YouTube, sugeriam a existência de centenas, talvez milhares, de vídeos instigando mães a negar cuidados que podiam salvar a vida dos filhos. Havíamos enviado apenas alguns links de exemplo. A empresa nunca pediu os demais. E tampouco solicitou detalhes quanto aos vídeos que tinham inspirado ameaças de morte verossímeis contra Diniz e outros, muitos dos quais ainda estão na rede.

No final daquele ano, o YouTube anunciou que havia feito mudanças no seu algoritmo com a meta de reduzir “a disseminação de conteúdo limítrofe

e desinformação prejudicial”. [18] Mas parte dessas mudanças já estava em vigor quando fizemos nossa apuração, levantando perguntas sobre sua efetividade. A empresa apresentou uma métrica um tanto quanto evasiva para o sucesso: “Uma queda de 70%, nos Estados Unidos, no tempo assistido desse conteúdo provindo de recomendações a canais em que o usuário não está inscrito”.