A máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo
A Grande Mentira
Richard Barnett, sessenta anos, empreiteiro e entusiasta das armas de fogo em uma cidadezinha do Arkansas, passou o fim de ano entrando fundo na toca de coelho. Obcecado pelo Face book, ele compartilhava frequentemente as conspirações sobre a covid, antivacinas e pró-Trump que já estavam viralizadas e rodopiavam pela plataforma — um típico superpostador do Facebook, não muito diferente de Rolf Wassermann, o artista alemão que amplificava o que quer que a plataforma pusesse na sua frente. Mas Barnett estava absorvendo um ecossistema das redes sociais agora mais virulento do que o da Alemanha. Carregando um AR -15, ele participou de uma manifestação organizada via Facebook no capitólio do seu estado em setembro para reclamar das restrições em razão da covid. Um amigo comentou mais tarde que ele havia passado a acreditar que poderes das sombras queriam tirar proveito da pandemia para inserir microchips na testa
das pessoas, um eco de Plandemic e das crenças do QAnon. [73] Ele organizou um grupo de apoio à organização beneficente Save Our Children, que fora cooptada pelo QAanon para seu trabalho de oposição ao tráfico
infantil. [74] Na foto de um encontro em outubro, ele e uma dúzia de outros brandiam fuzis de estilo militar diante de uma placa que dizia “PEDÓFILOS MORTOS NUNCA SÃO REINCIDENTES ”, uma referência codificada ao Partido Democrata.
Ele era típico da horda de usuários das redes sociais — alguns afiliados a milícias ou grupos do QAnon, alguns, como Barnett, só surfando no algoritmo — que, ao longo de 2020, estavam se armando para as grandes batalhas que suas conspirações lhes diziam estar gloriosamente próximas. Quando postagens virais do Facebook declararam que a vitória de Biden era uma fraude, eles se encontravam a postos para acreditar e até para agir.
“Precisamos brecar este governo corrupto”, postou um usuário, três dias depois da eleição, em um grupo de milícia do Facebook cujas dezenas de milhares de integrantes já estavam se chamando de “prontos e armados”.
[75] Eles passaram a uma página privada, melhor para fazer planos. “Se não os eliminarmos agora, são eles que vão nos eliminar”, escreveu um. Outro respondeu: “É hora de dar cabo deles”.
Os grupos de milícias e Q, apesar de toda a sua influência nas plataformas, eram só uma facção pequena e supercomprometida de usuários pró-Trump. Mas os sistemas da plataforma rapidamente começaram a atrair massas maiores para o extremismo. E o fizeram promovendo conteúdo que forçava a mesma mentira que Trump estava empregando para tentar permanecer no cargo e que tinha avivado o grupo Stop the Steal, aquele que fora fechado de imediato. Trump havia vencido, os democratas tinham instituído a fraude eleitoral e os patriotas precisavam revogar o resultado forjado. É o que ficou conhecido como Grande Mentira. É impossível saber com certeza até que ponto ela chegaria sem as mídias sociais. Mas as plataformas a promoveram numa escala que, de outro modo, seria impossível e, talvez de modo mais potente, adestrou usuários para repeti-la entre eles como verdade premente. Na semana seguinte à eleição, as vinte postagens com mais engajamento no Facebook contendo a palavra eleição
eram todas escritas por Trump. [76] As vinte possuíam um rótulo que classificava a postagem como enganosa, o que aparentemente tinha pouco efeito. Suas postagens representavam 22 das 25 com mais engajamento nos Estados Unidos.
Boatos que validavam a mentira foram viralizados repetidamente. Biden admitia que a fraude da eleição tinha sido disseminada, segundo se dizia aos usuários. Cédulas democratas na Pensilvânia traziam nomes de pessoas mortas. Um canal de direita do YouTube informou que mesários de Detroit
haviam sido vistos carregando uma maleta de cédulas fraudulentas. [77] Outro dizia a 1,8 milhão de inscritos que os pesquisadores de opinião tinham revogado as declarações de que Biden vencera. (Quando um jornalista perguntou ao operador do canal por que o YouTube não lhe havia imposto as regras de desinformação eleitoral, ele respondeu: “O YouTube
tem sido muito bom”.) [78] Uma personalidade do Twitter inventou
reportagens sobre cédulas pró-Trump sendo “desovadas” em Michigan. [79] Uma conta de destaque na desinformação, a @Breaking911, anunciou que um funcionário rebelde dos correios fugira para o Canadá com cédulas
roubadas. [80]
Em meados de novembro, pesquisadores do Facebook fizeram uma descoberta assustadora: 10% das visualizações de conteúdo político com base nos Estados Unidos, ou 2% das visualizações no geral, eram postagens
afirmando que a eleição havia sido fraudada. [81] Em uma plataforma tão vasta, que consistia em bilhões de postagens diárias englobando todas as notícias de todos os veículos de todas as cidades, bilhões de grupos de discussão sobre todo assunto que se possa imaginar, mais conversa fiada, fotos de família, classificados, a soma total da experiência humana, era chocante que uma única declaração — especialmente uma declaração falsa e perigosa — fosse superar tanto da cacofonia normal.
O YouTube não era nada melhor. As visualizações da Newsmax TV , um canal que promovia pesadamente conspirações de fraude eleitoral democrata, saltaram de 3 milhões em outubro para o número assustador de 133 milhões em novembro. Chaslot, mais uma vez monitorando as recomendações do YouTube, descobriu que a plataforma estava impulsionando o Newsmax ao público depois que eles assistiam a veículos de notícias tradicionais como BBC , canais de esquerda e até The Ellen DeGeneres Show . De repente o Newsmax estava no 1% de canais mais
recomendados do YouTube. [82] Chaslot viu o mesmo padrão com a New Tang Dynasty TV , um atoleiro de desinformação eleitoral pró-Trump coordenado pelo movimento religioso Falun Gong, cujo público se multiplicou por dez. Vídeos do YouTube que propagavam a Grande Mentira
foram vistos 138 milhões de vezes na semana após a eleição. [83] Em comparação, 7,5 milhões de pessoas haviam assistido à cobertura da eleição em todas as grandes redes de TV . No início de dezembro, poucos dias depois de Chaslot publicar suas conclusões, o YouTube finalmente anunciou que ia derrubar declarações falsas de fraude eleitoral — mas, o que era bizarro, não ia derrubar vídeos falsos que já estivessem no ar e só puniria o descumprimento das regras após 20 de janeiro.
A plataforma continuou saturada de mentiras eleitorais. [84] Qualquer um que recebesse notícias pelas mídias sociais tinha motivos para concluir, como fez Richard Barnett, o superusuário do Arkansas, que havia “montanhas de provas”, como escreveu ele na sua página no Facebook, que
mostravam que Trump tinha ganhado de fato. [85] Barnett amplificou a conspiração para seus amigos, cativando a indignação deles tal como a mentira cativara a sua, uma engrenagem obediente do maquinário da rede social.
Em 19 de dezembro, um mês e meio depois da eleição, Trump tuitou: “Grande protesto em Washington dia 6 de janeiro. Esteja lá, vai ser feroz!”. O Congresso ia confirmar a vitória de Biden naquele dia. Trump estava pressionando legisladores para dispensar os votos de Biden, revogando a vitória do oponente de um modo que, na prática, era um golpe de Estado. Alguns legisladores republicanos já haviam sinalizado que concordariam, e dezenas efetivamente acataram. Talvez uma manifestação na Casa Branca, raciocinaram Trump e seus aliados, pudesse pressionar os indecisos.
Na internet, muitos dos apoiadores de Trump entenderam sua mensagem como validação de tudo que diziam uns aos outros havia meses. O conluio democrata abusador de crianças estava prestes a ser exposto, provavelmente executado. Trump ia convocar as Forças Armadas e seria bom que as milícias tementes a Deus estivessem lá para dar apoio. “#Patriotas precisam ser violentos como os BLM /Antifa! Esse é nosso sinal verde!”, escreveu um integrante do Proud Boys, um grupo de nacionalistas brancos, no Parler, um clone do Twitter que havia crescido como preferência da extrema direita depois dos boicotes das plataformas tradicionais. No TheDonald, um site de bate-papo baseado na subseção que foi banida do Reddit, mais de 80% das discussões que se referiam ao evento de 6 de janeiro incluíam convocações explícitas à violência. Algumas postavam mapas do prédio do Capitólio,
marcando túneis e entradas. [86]
Em fins de dezembro, muitos usuários estavam convergindo em um plano. Alguns levariam armas e explosivos a Washington. Outros instigariam uma multidão grande o bastante para vencer a polícia da capital. Eles iam invadir o prédio, impedindo a certificação do voto à força. E então, como escreveu um usuário do Parler, “Vamos matar o Congresso”.
[87] Todo um universo de grupos do Facebook, unidos como um só, promoveu a manifestação de Trump como a grande batalha pela qual vinham se preparando. Memes que pareciam panfletos, onipresentes na plataforma, insistiam na participação, muitas vezes com slogans de milícias sugerindo o início da revolta armada. Muitos incluíam slogans do QAnon chamando a manifestação de “a tempestade”, o expurgo sangrento previsto por Q. E traziam uma hashtag que lembrava os planos de fóruns de extrema direita para o qual muitos dos grupos linkavam: #OccupyCongress [ocupar o Congresso].
“Este é o NOSSO PAÍS !!!”, escreveu Barnett na sua página do Facebook alguns dias antes do Natal, incitando usuários a se unirem a ele na
manifestação. [88] No mesmo dia, ele postou uma foto de si mesmo carregando um fuzil, junto a uma legenda que dizia que ele havia chegado ao mundo aos berros e pontapés, coberto de sangue, e que se dispunha a partir do mesmo jeito. Alguns dias depois, em 2 de janeiro, ele carregou uma placa de “República das Bananas EUA ” para uma manifestação do “Stop the Steal” em sua cidadezinha do Arkansas, onde contou a um jornalista suas ambições de restaurar a suposta vitória de Trump. “Se você
não gosta, pode mandar me pegar, mas não vão me derrubar fácil.” [89]
Assim como em muitos casos anteriores, fosse com incels ou Boogaloos, o que havia começado como uma fanfarronice de internet a fim de encontrar comunidade em meio ao desnorteamento — em plataformas que recompensavam intensificação e criavam a falsa noção de consenso em torno das visões mais extremadas — se tornou a vontade sincera de tomar uma atitude. “Hoje tive uma conversa difícil com meus filhos, disse que talvez papai não volte de Washington”, escreveu um usuário do TheDonald
um dia antes da mobilização. [90] Sua mensagem, com upvotes de 3800 usuários, informava que ele planejava cumprir sua jura militar de “defender meu país de todos os inimigos, tanto Estrangeiros quanto Domésticos”.
O fórum se encheu de histórias como a dele. Eram mensagens de martírio, reverberações quase ipsis litteris daquelas feitas em vídeos e postagens por homens-bomba jihadistas um dia antes do feito. “Hoje eu
disse adeus a minha mãe. Falei que tive uma vida boa”, escreveu outra. [91] “Se nossos ‘líderes' fizerem o que é errado e tivermos que invadir o Capitólio, eu vou. Vejo vocês lá, pedes ”, escreveu ela, encerrando com uma referência ao apelido inspirado no YouTube e no Reddit que havia unido a
comunidade durante anos. [92] “Será a maior honra da minha vida lutar
junto a vocês.” [93] Usuários postaram dezenas de respostas de apoio: “Aqueles prédios nos pertencem… Se tiver que ser, é as câmaras do Congresso que temos que derrubar, não a CB… Tragam as tábuas, tragam o cadafalso para o Congresso, estejam preparados na mente para arrancá-los de lá e atar os nós… Eu estarei de porte à mostra, assim como meus amigos. Não há policial que chegue em Washington para impedir o que vai vir ”.
Barnett chegou cedo aos arredores da Casa Branca em 6 de janeiro. Esperando Trump aparecer, ele pegou seu celular e postou um vídeo no Facebook. “Vamos chegar juntos”, disse. “Preparem-se para a festa.” Por volta do meio-dia, ao sul da Casa Branca, Trump começou a discursar. Conforme foi encerrando o discurso, ele disse à multidão: “Vamos caminhando até o Capitólio”, sugerindo que seria o próximo passo na empreitada, que agora já tinha semanas, de impedir o Congresso de certificar os votos eleitorais, como estava fazendo naquele momento. “Porque vocês nunca vão tomar nosso país de volta sendo fracos. Vocês têm que demonstrar força e têm que ser fortes”, disse Trump, saudado com um rugido de aprovação. Milhares passaram ao Capitólio, embora sem Trump, que, apesar de assegurar à multidão que “estarei lá com vocês”, havia voltado à Casa Branca para assistir a tudo pela TV .
As outras líderes da insurreição, afinal de contas, talvez suas líderes reais, já estavam em solo, no bolso de cada participante que tinha um smartphone. O 6 de janeiro foi o ápice do trumpismo, sim, mas também um movimento construído nas e pelas redes sociais. Foi um ato planejado com dias de antecedência, sem planejadores. Uma coordenação de milhares sem coordenadores. E que agora seria executado pela vontade coletiva guiada pelo digital. Conforme pessoas chegavam ao Capitólio, encontravam mobilizados que haviam chegado antes provocando os poucos policiais de guarda. Um cadafalso de madeira, exibindo uma forca vazia, tinha sido montado no local. A duas quadras dali, a polícia descobriu uma bomba caseira na sede do Comitê Nacional Republicano. Depois, outra no Comitê Nacional Democrata.
A presença policial continuaria escassa durante a maior parte do dia. Autoridades federais e do distrito, apesar de alertadas quanto à natureza das discussões na internet, simplesmente não viam a manifestação de Trump como a ameaça que era. Mesmo quando a violência começou, sua reação foi retardada por horas de impotência burocrática, como descobriu um
relatório do inspetor-geral. [94] Vários oficiais de alta patente se demitiram em desonra logo a seguir.
Conforme as multidões mobilizadas fizeram pressão contra as cercas, a matemática simplista da situação deve ter entrado em ação. Eles eram milhares: furiosos, aos gritos, muitos de capacete e parafernália militar. Seu único percalço, em algumas entradas, eram as barricadas de metal de dez quilos operadas por três ou quatro policiais com bonés, atrás dos quais a trilha estava aberta até o Capitólio. Uma hora após a exortação de Trump, a multidão subjugou o perímetro externo. Uma hora depois, invadiu o prédio. Os legisladores lá dentro, seguindo seu trabalho de certificação dos votos, não tinham ideia do que estava se passando até a polícia entrar com tudo e barricar as portas.
“Entramos! Entramos! Derrick Evans no Capitólio!”, [95] berrou Evans, deputado do estado da Virgínia Ocidental, em seu celular, transmitindo ao vivo para o Facebook, onde ele vinha postando fazia dias a respeito da
manifestação. [96] Em praticamente todas as fotos do cerco ao Capitólio, você vai ver desordeiros brandindo celulares. Eles estão tuitando, instagramando, fazendo lives no Facebook e no YouTube. Era, tal como os tiros em Christchurch no ano anterior ou os assassinatos dos incels dois anos antes, uma performance, realizada para e nas mídias sociais. Tanto era produto das redes que muitos dos participantes não viam distinção entre suas vidas online e a insurreição no mundo real que estavam cometendo como extensão das identidades moldadas por aquelas plataformas.
Muitos dos que abriram caminho até entrar usavam camisetas e bonés com a marca QAnon. Jake Angeli, um obcecado por redes sociais de trinta anos, havia pintado a bandeira dos Estados Unidos no rosto, vestido um chapéu com chifres e um traje de pele de animal, e se autodenominado “Q-Xamã”. Outros usavam camuflagem em estilo militar com insígnias de milícias do Facebook. Outro ainda se escondia atrás de uma máscara gigante de Pepe the Frog. “Ficamos empurrando, empurrando, empurrando e berramos ‘vai' e berramos ‘atacar'”, narrou ao vivo no Facebook uma floricultora do oeste do Texas, Jenny Cudd, de 36 anos, enquanto adentrava os corredores. “Chegamos no alto do Capitólio, tinha uma porta aberta e entramos”, prosseguiu ela. “A gente arrombou a porta da sala da Nancy Pelosi e alguém roubou o martelinho e tirou uma foto na poltrona dela com
o dedo médio erguido pra câmera.” [97]
O homem que ela havia visto era Richard Barnett, o conspiracionista do Facebook vindo do Arkansas. E a foto que ele tirou — com os pés sobre a mesa de Pelosi, vestindo camisa de flanela e calças jeans, com os braços estendidos em suposto júbilo e um celular ligado nas mãos — se tornou, antes de o cerco terminar, um símbolo da irrealidade e humilhação daquele dia. Barnett, sorrindo para todos nós, se tornou o rosto de algo grotesco na vida norte-americana, algo cuja força muitos não haviam entendido até aquele momento, quando entrou marchando pelos corredores do poder e pôs os pés em cima da mesa.
Alguns tinham ido fazer mais do que lives. Um grupo de oito homens e uma mulher, usando parafernália militar sobre camisetas dos Oath Keepers, abriu caminho pela multidão até entrar no Capitólio. Eles mantinham contato via Zello, um aplicativo de apertar e falar, e Facebook, a plataforma na qual sua milícia havia surgido e recrutado. “Vocês estão executando uma prisão cidadã. Prendam esta assembleia, temos justa causa para atos de
traição, fraude eleitoral”, disse um deles. [98] “Entrei”, escreveu um no Facebook. “Todos os legisladores estão nos Túneis 3andares pra baixo”, respondeu outro. Um terceiro deu a ordem: “Todos os integrantes estão nos túneis sob a capital tranquem lá. Liguem o gás”.
Outros compartilharam a intenção dos Oath Keepers. Peter Stager, 41 anos, do Arkansas, disse em um vídeo do Twitter: “Todo mundo lá é pérfido traidor” e “A morte é o único remédio para quem está dentro do prédio”.
[99] Ele carregava uma bandeira dos Estados Unidos enquanto subia os degraus do Capitólio, encontrou um policial que fora derrubado pela multidão e o espancou com o mastro. Angeli, o “Q-Xamã”, deixou um bilhete para Pence na sua mesa na câmara do Senado: “É só questão de tempo, a justiça vai chegar”. Pence escapara dos invasores por poucos metros. Mais tarde os legisladores apareceram dizendo que haviam se amontoado nas salas do fundo ou atrás de portas trancadas, temendo pela própria vida enquanto multidões em fúria andavam pelos corredores. Dominic Pezzola, membro dos Proud Boys depois acusado de entrar por uma janela do Capitólio, a qual quebrou com um escudo da polícia, “afirmou que, se botasse a mão em qualquer um, ia matar, incluindo Nancy
Pelosi”, como relatou um informante do FBI . [100] Segundo esse informante, Pezzola e amigos planejavam ir a Washington para a posse e “matar cada ‘fdp' que pudesse”. Ex-amigos disseram ao Vice News que Pezzola havia ficado hiperativo no Facebook e que, de acordo com um deles, caíra numa
“toca de coelho” das mídias sociais. [101]
Cinco pessoas morreram durante a insurreição. Nenhuma tinha sido alvo; foi a violência animal da turba descontrolada que as matou. Brian Sicknick, policial de quarenta anos atropelado pela multidão e atingido por spray de pimenta duas vezes, voltou à base, desabou no chão e faleceu no dia seguinte. Um legista atribuiu o AVC que o matou a causas naturais exacerbadas pela violência.
A maioria dos restantes era de membros da turba — como tantos outros atraídos por causas extremistas, simultaneamente participantes e vítimas. Kevin Greeson, usuário do Parler de 55 anos e apoiador dos Proud Boys no Arkansas — que havia postado: “Carreguem as armas e tomem as ruas!”
—, morreu de ataque cardíaco no meio da multidão. [102] Benjamin Philips, de cinquenta anos, da Pensilvânia, que lançara uma rede social alternativa chamada Trumparoo, morreu de AVC . Roseanne Boyland, de 34 anos, da Geórgia, obcecada por Face book, desfaleceu ao ser esmagada em um túnel do Capitólio. A família de Boyland disse que ela havia descoberto a extrema direita da internet, depois o QAnon, enquanto procurava sentido na
sequência de longos embates com o vício em drogas. [103]
Ainda havia Ashli Babbitt, californiana de 35 anos, veterana da Força Aérea, dona de uma empresa de produtos para piscina que reordenara sua vida em torno do QAnon e tuitava cinquenta vezes ou mais por dia. Usando uma bandeira de Trump como capa, Babbitt se forçou contra uma janela de vidro quebrado em uma porta barricada e, a poucos metros dos legisladores que sua comunidade insistia que deviam morrer, levou um tiro de um policial do Capitólio. Morreu na hora. Assim como muitos na multidão,
John Sullivan, usuário pesado das redes, filmou a morte de Babbitt. [104] “Aquilo me comoveu, aquilo me aqueceu!”, disse Sullivan na gravação.
[105] Enquanto Babbitt caía em meio à multidão, com sangue escorrendo da boca, ele exclamou, maravilhado: “Cara, essa porra vai viralizar”.
No gramado do Capitólio, Matthew Rosenberg, jornalista do New York Times que correra para fazer a cobertura do caos, esbarrou em Barnett, já identificado pela foto tirada na sala de Pelosi minutos antes. Barnett fora para o gramado com a camiseta rasgada depois de alguma escaramuça dentro do Capitólio, segurando uma carta que pegara da mesa de Pelosi. Conversando tranquilamente com Rosenberg, mostrava a carta com orgulho, dizendo ao jornalista: “Deixei um bilhetinho indecente pra ela, botei os pés em cima da mesa e cocei as bolas”. Ele saiu andando rumo à multidão que agora zanzava à vontade na frente do Capitólio saqueado, bebendo cerveja e brandindo bandeiras, ostentando vitória.
Depois de centenas de prisões (entre elas a de Barnett) e de Trump sofrer o segundo impeachment, as ondas sísmicas viriam a reverberar por meses. Mas antes de o cerco terminar, elas já haviam reverberado até o Vale do Silício. “Será que podemos conseguir alguma coragem e atitude de verdade das lideranças em reação a essa conduta?”, escreveu um funcionário do Facebook no fórum interno da empresa enquanto a revolta se desenrolava. “Seu silêncio é no mínimo uma decepção e, na pior das hipóteses, crime.”
[106]
Em um fluxo de postagens internas, funcionários se enfureceram com a decisão do YouTube de deixar no ar uma postagem de Trump, escrita durante o cerco, que fazia uma incitação velada para que seguissem em frente: “São essas as coisas e os fatos que acontecem”, escreveu ele, quando uma vitória “esmagadora e sagrada” é “arrancada de grandes patriotas”. A relação da empresa com seus 50 mil e tantos funcionários já estava em baixa devido aos conflitos do ano anterior. Agora, conforme o Facebook permitia a Trump usar a plataforma para instigar uma insurreição enquanto ela se desenrolava, a frustração ferveu até transbordar. “Precisamos derrubar esta conta agora mesmo. Não é momento para meio-termo”,
escreveu outro funcionário. [107] Mas, em vez de agir contra Trump, a empresa congelou os comentários na discussão interna.
No dia seguinte, o sindicato dos empregados da Alphabet, que havia se constituído naquela mesma semana, emitiu uma declaração condenando a falta de ação dos seus funcionários. (A Alphabet é a empresa matriz de Google e YouTube.) “As mídias sociais encorajaram o movimento fascista que cresce nos Estados Unidos e estamos particularmente cientes de que o YouTube, um produto da Alphabet, tem papel central na ameaça cada vez
maior”, escreveram. [108] Funcionários da Alphabet, prosseguiram, haviam alertado os executivos várias vezes sobre o papel do YouTube em “ódio, intimidação, discriminação e radicalização”, mas tinham sido “ignorados ou recebido concessões simbólicas”. Eles instavam a empresa, no mínimo, a “fazer Donald Trump seguir as regras da plataforma”.
Isso foi, se não uma mudança radical no Vale, pelo menos um cintilar de acerto de contas. Chris Sacca, um dos primeiros investidores do Twitter,
tuitou: “Vocês, Jack e Zuck têm sangue nas mãos. [109] Por quatro anos passaram pano para esse terror. Incitar violência lesa-pátria não é exercer liberdade de expressão. Se você trabalha nessas empresas, a culpa também é sua. Fechem”. À pergunta de por que também tinha responsabilizado os funcionários, Sacca respondeu: “Sinceramente, as únicas pessoas que eles ouvem são os funcionários que estão em volta. Na tecnologia, se você perde talentos, perde poder”.
Um dia depois da revolta, o Facebook anunciou que ia proibir Trump de usar seus serviços pelo menos até a posse, duas semanas depois. No dia seguinte, como Trump continuou tuitando em apoio aos insurretos, o Twitter também o derrubou. O YouTube, o último reduto, seguiu a deixa quatro dias depois. A maioria dos especialistas e boa parte do público concordaram que banir Trump era uma medida tanto necessária quanto tardia. Ainda assim, havia um desconforto inegável pelo fato de essa decisão estar nas mãos de meia dúzia de executivos do Vale do Silício. E não só porque eram agentes empresariais que não tinham sido eleitos. Para começo de conversa, as decisões desses mesmos executivos haviam ajudado a levar a crise das mídias sociais até esse ponto. Após anos da indústria curvando-se a Trump e aos republicanos, a proibição foi vista por muitos como interesseira. Afinal de contas, ela fora implementada três dias depois de os democratas tomarem o controle do Senado, além do Congresso e da Casa Branca.
Os democratas, cuja ira só crescia, viram a proibição como uma medida superficial tomada apenas quando a saída de Trump do poder já tinha sido decidida. A campanha de Biden havia se comunicado em privado com o Facebook, ao longo da eleição, primeiro expressando preocupação, depois indignação com o que considerava falha da empresa em tomar uma atitude. “Nunca fui fã do Facebook, como vocês devem saber”, dissera Biden ao comitê editorial do New York Times , sugerindo que seu governo poderia revogar certas prerrogativas jurídicas das plataformas sociais. “Nunca fui
um grande fã de Zuckerberg. Acho que ele é o verdadeiro problema.” [110]
Um dia após a posse de Biden, dois democratas do Congresso enviaram cartas aos CEO s de Facebook, Google, YouTube e Twitter. Elas foram escritas por Tom Malinowski, outrora autoridade belicosa na defesa dos direitos humanos no Departamento de Estado, e Anna Eshoo, que representava desde 1993 o distrito da Califórnia que inclui o Vale do Silício. Os líderes do Partido Democrata vinham defendendo o Vale fazia décadas. Naquele momento, a congressista das próprias empresas era coautora de uma carta que lhes dizia: “Talvez não exista uma única entidade que seja mais responsável pela disseminação de teorias da conspiração em larga escala ou por estimular ressentimentos contra o governo do que as que
vocês fundaram e que hoje administram”. [111]
As cartas depositavam boa parte da responsabilidade pela insurreição nas empresas. “O problema fundamental”, escreveram eles ao CEO s de Google e YouTube,
é que o YouTube, assim como outras plataformas sociais, classifica,
apresenta e recomenda informações aos usuários suprindo-os de
conteúdo com mais probabilidade de reforçar seus vieses políticos
preexistentes, especialmente os arraigados a raiva, ansiedade e medo.
[112]
As cartas ao Facebook e Twitter foram parecidas. Todas exigiam mudanças de vulto nas políticas das plataformas, terminando com a mesma admoestação: que as empresas “comecem uma reavaliação fundamental da maximização do engajamento de usuários como base para a classificação e recomendação algorítmica”. As palavras incisivas assinalavam que os democratas haviam adotado a visão apregoada bastante tempo antes por pesquisadores, cientistas sociais e pelos silicionados dissidentes: que os perigos das mídias sociais não são apenas uma questão de moderar melhor ou de ajustar as políticas de conteúdo. Eles estão enraizados na natureza das plataformas. E são tão sérios que ameaçam a própria democracia dos Estados Unidos.
Houve outra mudança em janeiro: o QAnon praticamente veio abaixo.
“Demos tudo que tínhamos. [113] Agora precisamos manter a cabeça erguida e voltar à nossa vida, do jeito que for possível”, disse Ron Watkins, administrador do 8chan (agora rebatizado de “8kun”), que muitos suspeitavam ser o autor do material de Q, numa postagem na manhã da posse de Biden. No Telegram — um aplicativo social que havia ganhado popularidade com o QAnon conforme o Twitter aplicou maior atrito — ele instigou os seguidores a respeitar a legitimidade de Biden. Complementou: “Conforme adentramos o próximo governo, favor lembrar de todos os
amigos e memórias felizes que construímos juntos nos últimos anos”. [114] Na prática, Watkins estava dizendo ao movimento — que, suspeitava-se, rondava os milhões, todos preparados para uma batalha final contra as forças malignas responsáveis por todos os males na nossa vida — para baixar armas. Depois disso, as postagens de Q, que já entrara em silêncio misterioso desde 8 de dezembro, cessaram.
A sensação de fim se espalhou. Um moderador do 8kun limpou os arquivos de “QResearch” no site e escreveu: “Estou apenas administrando a
eutanásia a uma coisa que já amei”. [115] Alguns começaram a postar despedidas. Outros tentavam entender: “Mods favor explicar por que Biden
ainda não foi preso”. [116] Um comparou assistir à posse de Biden com “ser criança e ver o presentão debaixo da árvore… aí você abre e descobre que
era um pedaço de carvão”. [117] Sem as plataformas tradicionais para acelerar sua causa ou interligar com as redes em geral, os adeptos restantes tinham poucos lugares para onde canalizar suas energias antes poderosas. Eles maquiavam cada vez mais a realidade, procurando a validação que nunca iam conseguir, ansiosos por uma solução para a crise psicológica que anos de radicalização haviam aberto neles.
“TUDO vai acontecer nos próximos 45 minutos”, escreveu um usuário no
fórum Q durante a posse de Biden. [118] Os democratas no palco, prometeu ele, “serão presos ao vivo diante das câmeras, com dezenas de milhões assistindo atônitos!”. Seria “o maior dia desde o Dia D”, e “os Estados Unidos vão se unir para festejar!”. Quando a posse prosseguiu normalmente, outro usuário lhe perguntou se estava bem. Ele insistiu que a vitória ainda ia chegar e, com ela, a volta à vida que havia lhe sido tirada. “Perdi amigos e namorada durante o último ano porque eles se recusavam a enxergar a verdade, agora finalmente vou me redimir”, escreveu. “Logo eles vão voltar e pedir desculpas, esse é o dia mais feliz da minha vida.”
[119]
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