A máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo

Roubando e atirando

Rachel McKibbens, irmã de um deles. [28] “O maldito hospital me deixou muito pior. Meus pulmões não estavam tão ruins quando cheguei lá”, escreveu o irmão de McKibbens. Ele tinha certeza de que a equipe do hospital estava “nessa só pela grana”.

Conforme a condição de saúde dos dois piorou, ambos correram atrás de evidências de que os boatos nas redes estavam certos, tendo um deles atribuído o fluxo menstrual mais intenso da esposa a vacinas, com base em uma mentira propagada no Instagram. Um recomendava ao outro tratamentos fajutos que haviam circulado no YouTube e no Facebook. Acima de tudo, um instigava o outro a recusar conselhos de médicos, autoridades de saúde, até os de McKibbens. O irmão dela foi hospitalizado quando os sintomas pioraram. Porém, certo de que os médicos o estavam envenenando, com base no complô do qual ouvira falar várias vezes na internet, ele recusou tratamento e deixou o hospital, entocando-se em casa. Ali morreu, sozinho, dias depois.

 

Roubando e atirando

Conforme populações inteiras desabavam na desinformação sobre saúde pública no meio daquele ano, uma segunda toca de coelho se abria em paralelo nas redes sociais, atraindo homens brancos deprimidos que buscavam comunidade e propósito. Era um perfil demográfico que, embora menor que aqueles que sucumbiam às conspirações da covid, se provaria quase tão perigoso assim que as plataformas houvessem cumprido sua função. A direita alternativa na internet, antes focada em pouco mais que Gamergate e memes de Pepe the Frog, foi recrutada para um mundo de grupos que se autodenominavam milícias preparadas para o colapso social que, elas tinham certeza, era iminente.

Para Steven Carrillo, primeiro-sargento de 32 anos da Força Aérea, a mudança entre se vangloriar sobre violência em grupos no Facebook e praticar atos violentos de fato começou em março de 2020, quando um colega usuário lhe mandou em mensagem: “Começa a prep dessa op… Vou

dar prossegue nuns porra”. Ele respondeu: “Boa, mano!”. [29]

Carrillo havia chegado aos grupos depois de uma vida tumultuada. Ele cresceu pobre, vivendo entre a casa dos pais, em uma cidadezinha da Califórnia, e a dos avós, na zona rural do México. Em 2015, sofreu traumatismo craniano em um acidente de carro, o que embruteceu sua personalidade, antes vivaz, e em 2018 perdeu a esposa para o suicídio. Depois disso, entregou os filhos aos sogros e foi morar numa van.

“Ele estava totalmente desligado da realidade”, disse sua irmã. [30] Mas a Força Aérea o enviou para o Oriente Médio durante boa parte de 2019. Amigos na base o apresentaram a grupos do Facebook que se diziam milícias. Na verdade, eram páginas de bate-papo dedicadas a fantasias de insurreição ou de guerra civil. Elas ofereciam aos integrantes um sentido no mundo, enquadrando-os dentro da narrativa dos extremistas de que a crise individual tem resposta na solução coletiva, tal como incels do Reddit haviam encontrado comunalidade imaginando um levante contra feministas ou usuários do 8chan exaltavam genocídios até que Brenton Tarrant foi às vias de fato na Nova Zelândia. O grupo de Carrillo havia se nomeado, usando ironia similar, Boogaloo. Era uma coisa que começara como meme do 4chan. Usuários do site convocavam uma insurreição nacional, pensada para derrubar o governo e lançar uma utopia da direita, invocando “Guerra da Secessão 2: Electric Boogaloo”, um jogo com o filme dance dos anos

1980 Breakin' 2: Electric Boogaloo . [16]

No segundo semestre de 2020, conforme as plataformas fizeram nascer comunidades que viam os lockdowns exatamente como a tomada do poder prevista em conspirações virais — como as de Plandemic ou do QAnon —, os algoritmos das redes sociais identificavam páginas de milícia antes obscuras, tais quais Boogaloo, exatamente como o tipo de coisa que atrairia aqueles usuários a entrar ainda mais fundo nos mundos online. As postagens do Boogaloo se espalharam tão rápido por Facebook, Twitter, Instagram e Reddit que um grupo de monitoramento de extremistas alertou

que “insurgências virais” estavam “crescendo à vista de todos”. [31] Conspiracionistas da covid, interligados às causas de milícias pelos algoritmos das plataformas, trouxeram recrutas a essas milícias, além de uma causa nova e urgente, enquanto elas davam aos conspiracionistas a sensação de propósito: o conflito final e iminente com o governo. Crise e solução. Assim como movimentos similares do 4chan ao Facebook, o Boogaloo e outras milícias cujos adeptos postavam sobre provocar uma guerra civil pareciam estar na maior parte sinalizando sua filiação ao endogrupo, não uma intenção sincera. Mas alguns perderam a noção da diferença; proliferavam instruções para explosivos e armas de fogo de improviso, feitos em casa. Um arquivo de “Táticas Boogaloo” compartilhado no Face book e no Instagram os instruía a aguardar para cometer os “assassinatos políticos” contra “os tecnocratas” até que os “crimes” destes fossem “provados em público”, mas, independentemente

disso, de modo mais imediato, “algumas pessoas vão rodar”. [32] Membros do Boogaloo começaram a aparecer em manifestações antilockdown, fortemente armados, esperando o início dos tiros.

Ao longo do início de 2020, Carrillo, agora de volta à Califórnia, onde tinha engatado um namoro, passava cada vez mais tempo nas páginas do grupo e adotou o Boogaloo como identidade. Ele adornava seu perfil do Facebook com memes de milícia e, em março, adquiriu um componente de AR -15 através de um site que fazia publicidade do Boogaloo em grupos do Facebook, e que prometia doar parte de seus lucros à família de um suposto

membro que havia sido morto naquele mês em confronto com a polícia. [33] Semanas depois da sua troca de mensagens sobre o planejamento de uma “op”, Carrillo entrou em grupos fechados no Facebook e no WhatsApp, só acessados por convite a membros do Boogaloo de cada região, onde planejavam encontros para “treinos de tiros” e discutiam planos vagos de

detonar a guerra civil matando policiais. [34] Um arquivo de “integração à equipe” que ele preencheu em abril lhe informava, conforme o faz de conta de videogame comum a esses grupos: “Nossas Áreas de Operação podem nos levar da lama ao centro comercial num piscar de olhos”.

O Boogaloo era só um grupo entre vários. No mesmo mês, ativistas pró-armas de fogo de extrema direita montaram páginas no Facebook de estado em estado, convocando moradores a se manifestarem contra as ordens para ficar em casa. Embora os ativistas tivessem pouco alcance preexistente, seus grupos atraíram 900 mil usuários, um sinal de promoção algorítmica.

[35] Apenas dezenas participaram de cada mobilização, alguns carregando fuzis estilo M15. Mas milhares se mantiveram ativos nas páginas, que, com o tempo, se mesclaram a comunidades maiores de repúdio e conspiração que as plataformas continuaram a mesclar em um todo maior, incentivando

essas identidades e causas a se confundir. [36]

A violência organizada no Facebook ficou mais frequente e mais excessiva. No Arkansas, no mês de maio, membros de uma milícia da plataforma invadiram a propriedade da mansão do governador e o queimaram em efígie. Em Washington, os organizadores sugeriram que uma mobilização poderia culminar em ataques a moradores locais que, como os organizadores ficaram sabendo por boletins policiais, haviam delatado estabelecimentos que se opuseram às ordens de fechamento por conta da covid. Embora os ataques em si nunca tenham se concretizado, 1500 manifestantes compareceram, muitos deles armados.

As milícias, os conspiracionistas da covid e as comunidades pró-Trump solidárias também começaram a ganhar premência de vida ou morte de outra causa com a qual as plataformas as conectavam: o QAnon. Com ajuda do algoritmo, a crença no QAnon agora infundia todas essas causas antes à parte, tal como Renée DiResta havia descoberto o recurso de grupos do Facebook mesclando antivaxxers com o Pizzagate (a conspiração

antecessora do QAnon) ainda em 2016. [37]

Nina Jankowicz, pesquisadora da desinformação, se deparou com uma

trilha típica no meio daquele ano. [38] Ela procurava “medicina alternativa” no Facebook, entrava em um dos grupos de maior destaque, depois seguia a barra de “grupos relacionados”, gerada automaticamente pela plataforma, que levava com frequência a páginas de Q. Era um trajeto breve e brutalmente eficiente que ameaçava atrair qualquer um em busca de tratamentos para a covid numa época em que a ciência ainda não tinha nenhum. O padrão se desenrolava por todas as grandes plataformas, convertendo o medo e o desnorteamento dos norte-americanos primeiro em uma crença mais suave em conspiração, depois em QAnonismo escancarado, um grande impulsionador de engajamento nas plataformas. Canais sobre bem-estar no YouTube e influenciadores de preparo físico no Instagram vagavam de astrologia e conspirações com coronavírus ao QAnon. A maior conjunção antivacina do Facebook se encheu de alertas de

Q. [39] O TikTok foi inundado por conspirações do Pizzagate. [40] Uma tiktoker de vinte anos, que ajudara a desencadear o renascimento do Pizzagate, disse que havia ficado sabendo por um vídeo do YouTube. Quando os produtores de Plandemic lançaram uma continuação, o vídeo foi impulsionado predominantemente por páginas de Q.

Com o princípio da pandemia, a causa QAnon, em meio a seu folclore e esoterismo quase impenetrável de tão denso, havia se fiado em uma crença central: o presidente Trump e generais leais a ele estavam prestes a promover um golpe militar glorioso que iria derrubar o conluio que orquestrara o Pizzagate e que dominava secretamente a vida dos Estados Unidos. No expurgo subsequente, os militares iriam executar dezenas de milhares de democratas traidores, financistas judeus, burocratas federais e progressistas culturais no National Mall. Os adeptos de Q, a maioria dos quais se reunia no Facebook ou YouTube e nunca se aventurava em fóruns extremos onde os “drops” de Q começaram, ficaram sabendo que tinham um papel crucial, nem que fosse para seguir regras e ajudar a espalhar a palavra.

Naquele meio de ano, 97 ditos adeptos do QAnon iam concorrer no

escrutínio partidário para o Congresso; 27 deles viriam a ganhar. [41] Dois concorreram como independentes. Os outros 25 estavam entre os indicados republicanos com boas chances de chegar à Câmara dos Representantes. Memes e referências do QAnon dominavam páginas de milícias, intensificando a ideia de que a violência seria tão virtuosa quanto inevitável.

Em fins de maio, Ivan Hunter, o integrante do Boogaloo com o qual Carrillo havia trocado mensagens sobre uma “op”, entrou num carro com vários outros e foi até Minneapolis, onde manifestações pelo assassinato de George Floyd, um homem negro desarmado morto por policiais, estavam pegando fogo. Os homens se reuniram em frente a uma delegacia que fora tomada por centenas de manifestantes. Hunter gritou: “Justiça para Floyd”, ergueu um fuzil estilo Kalashnikov e disparou treze vezes contra o prédio.

[42] Ninguém ficou ferido. Ele provavelmente esperava, tal como os Boogaloos costumavam escrever na rede, desencadear violência entre manifestantes e polícia até a coisa virar guerra.

Dias depois, em 28 de maio, Carrillo postou um vídeo de manifestações do Black Lives Matter em um grupo do Boogaloo no Facebook que ele frequentava: “Agora está na nossa costa, isso tem que ser no país inteiro… é uma grande oportunidade de mirar os rapazes da sopa”, escreveu, uma referência à “sopa de letrinhas” das agências com siglas, como o FBI , cujos agentes os Boogaloos falavam em matar para incitar o conflito geral que desejavam. E complementou: “Temos multidões de gente furiosa do nosso

lado”. [43] Outro usuário da região, Robert Justus, respondeu: “Vamos pro boogie ”. Naquela noite, Carrillo pediu a namorada em casamento com um anel de plástico de 25 dólares, que ele prometeu trocar por um de diamante,

e fez as malas para partir pela manhã. [44]

As páginas do Boogaloo como a dele não geravam essa noção de conflito civil iminente por conta própria. Elas a absorviam das plataformas sociais, que eram permeadas por esse tipo de coisa. Naquela mesma noite, 28 de maio, Trump, tanto guiando quanto servindo-se de tal postura, postou no Twitter e no Facebook que, se as autoridades de Minneapolis não reprimissem as manifestações do Black Lives Matter, ele ia “mandar a

Guarda Nacional & fazer como tem que ser”. [45] E completou: “Qualquer empecilho e nós assumimos o controle, mas, quando começarem os saques, começam os tiros”. Sua última frase, que ecoava a jura infame de um chefe de polícia em 1967 de fechar o cerco contra os bairros negros, aparentemente incentivava violência letal num momento em que as tensões estavam no ápice, conflitos de rua estavam crescendo e tanto a polícia quanto milícias de extrema direita estavam em condição de acatar.

O Twitter colou uma mensagem de alerta à postagem de Trump, dizendo que ela ia contra as regras de “exaltar violência”, e limitou sua circulação. Mas Zuckerberg declarou que, embora a considerasse “incendiária e

semeadora de discórdia”, o Facebook ia deixá-la no ar. [46] “Achamos que as pessoas precisam saber se o governo planeja usar a força”, explicou. Era uma forma estranha de justificar — amplificar a incitação à violência em prol da conscientização do público. Zuckerberg ligou pessoalmente para Trump para reiterar as políticas do Facebook. Depois fez uma reunião com toda a empresa para defender sua decisão, que funcionários haviam condenado internamente.

As tendências das plataformas estavam afetando todo mundo, não só quem era da direita pró-Trump. No mesmo dia da postagem de “saques e tiros” do presidente, um jornalista de Minneapolis publicou fotos de manifestações do Black Lives Matter na sua cidade. Usuários de esquerda do Twitter perguntaram se as fotos podiam levar à prisão dos manifestantes. Outros usuários ganharam mais atenção dizendo que as fotos, mais do que risco de prisão, garantiam o assassinato dos manifestantes. Eles citavam uma conspiração — desbaratada fazia bastante tempo — que afirmava que manifestantes fotografados em outras manifestações do BLM tendiam a

morrer sob circunstâncias misteriosas. [47] A indignação virou uma bola de neve, com dezenas de milhares de usuários acusando o fotógrafo de pôr vidas negras em risco, e de propósito. Muitos expressaram a vontade de vê-lo ferido ou morto; outros juraram cumprir a vontade. Alguns divulgaram

seu número de telefone e endereço. [48] Naquela noite, uma personalidade de esquerda do Twitter postou fotos das placas do carro de um jornalista da CNN , dizendo serem de “provocateurs mentirosos” que haviam se infiltrado

no BLM para ajudar a polícia. [49] A postagem ganhou 62 mil interações, provavelmente chegando a milhões. Naquele fim de semana, manifestantes atacaram um cameraman da Fox News em Washington enquanto outros invadiram a sede da CNN em Atlanta. Incidentes de manifestantes atacando jornalistas, embora menos frequentes do que ataques a jornalistas por parte da polícia, prosseguiram por todo o terceiro trimestre.

Na noite seguinte, 29 de maio, Carrillo e Justus pegaram uma van até os arredores de uma manifestação do BLM em Oakland. Depois de circular, Carrillo foi para os fundos, abriu a porta do veículo e apontou um fuzil de alta potência contra dois guardas da Homeland Security em frente a um prédio federal. Atirou em ambos e matou um. Ele e Justus abandonaram a van, que depois foi encontrada cheia de armas e material para a confecção de bombas.

Até o ponto em que se pode considerar as motivações de Carrillo convincentes, ele aparentemente esperava que seu ataque fosse atribuído ao Black Lives Matter e desencadeasse mais violência. Graças às tendências de afirmação partidária das redes, ele conseguiu atingir pelo menos seu primeiro objetivo. A polícia não havia nem identificado Carrillo publicamente quando páginas do Facebook pró-Trump ganharam centenas de milhares de interações atribuindo a culpa da morte do policial de Oakland aos “tumultos” do BLM , a “terroristas domésticos de esquerda” e a “mais uma cidade democrata mal administrada”. Descreveram o acontecimento como o último em uma onda de violência atiçada por “democratas, a imprensa conglomerada & a campanha do Biden”, uma extensão da tirania dos “lockdowns dos democratas” e das minorias sem controle.

Ao longo dos dias seguintes, Carrillo trocou mensagens pelo WhatsApp com outros membros do grupo, entre os quais Hunt — que estava escondido depois dos disparos contra a delegacia de Minneapolis —, para planejar mais atos de violência. Porém, uma semana após o ataque, a polícia rastreou o paradeiro de Carrillo até sua casa em uma cidadezinha rural chamada Ben Lomond. Quando chegaram, ele estava em um morro próximo, aguardando para fazer uma emboscada. Disparou várias vezes com um AR -15 artesanal e jogou explosivos improvisados, matando um policial e ferindo vários. Havia mandado mensagens aos amigos, pedindo reforços, mas depois de meses de tagarelice encorajadora, eles o ignoraram. Ferido pelo revide da polícia, Carrillo fugiu em um carro roubado, mas logo foi capturado. A polícia descobriu que ele escrevera “boog ” com o próprio sangue no capô. A troca de tiros se desenrolara a menos de setenta quilômetros da sede do Facebook.

Carrillo, que continua sem se desculpar, casou-se posteriormente em uma cerimônia na penitenciária com a namorada a quem havia pedido a mão na véspera das mortes. Seu amigo Robert Justus, que também foi preso, disse aos promotores que Carrillo o obrigara a acompanhá-lo. Em janeiro de 2022, a irmã de um dos agentes que ele assassinou processou o Facebook, alegando que a empresa deixou conscientemente seus algoritmos promoverem e facilitarem o extremismo violento que levou à morte do