A máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo

Niilismo digital

assédio”. [68] Um engenheiro que trabalhara no recurso alertou um jornalista

do portal The Verge de que era “onde a geração bolha começa”. [69] A prática de impulsionar usuários a grupos escolhidos para ganhar atenção, complementou o engenheiro, havia ficado “muito perigosa”.

 

Niilismo digital

Em seu ano de calouro na faculdade, Adam, o usuário do 4chan de longa data em Dallas, passou a jurar fidelidade ao 8chan. Era 2014 quando QAnon e muito mais ainda estava por vir, mas o compromisso do 8chan de receber gamergaters, banidos até do 4chan, o firmara como último lar genuíno da liberdade de expressão. Suas discussões sem regras e o conteúdo extremado haviam lhe valido a reputação de “bar dos piratas das redes sociais”, cheio de conteúdo que não se encontrava em outros lugares. “Vi muita merda”, contou Adam. “Cartel decapitando, pornografia tão horrenda que nem devia existir, nem quero entrar em detalhes. Mas vemos isso cem vezes e aí o que é da vida real começa a ter menos impacto.”

Era testar os limites ao estilo do 4chan, sem as normas e regras do 4chan. Os usuários do 8chan chegaram a novos extremos como defesa coletiva contra a anomia que, sendo os mais desajustados dos desajustados, o refugo do refugo, eles centravam na identidade em comum. “A teoria deles a respeito do que estavam fazendo ali, do que tiravam dali, era que estavam aprendendo a não se deixar provocar por gente que te pressiona pelo emocional ou pelo ideológico”, escreveu Dominic Fox, engenheiro de software, falando dos chans . “O mundo real era um lugar áspero e indiferente, e qualquer pessoa que finge se importar, ou que finge precisar de carinho, por definição estava envolvida na fraude, numa espécie de

trapaça.” [70] Portanto, segundo Fox, no raciocínio deles, “o único jeito de se livrar de um controle desses era ficar olhando memes racistas, fotos de acidentes de carro, pornografia horrível e assim por diante, até que você conseguia fazer tudo isso com serenidade total”. Era, escreveu, uma cultura da “autodessensibilização proposital”.

Com o tempo, tal como boa parte da transgressão do 4chan se tornou pedra de toque do endogrupo, a mesma coisa passou a valer para a dessensibilização no 8chan. Aguentar o que é muito chocante ou insuportável para os de fora era um jeito de provar que você fazia parte. Você também tinha sido anestesiado, solapado, seus olhos tinham se aberto, você era um soldado na irmandade do vazio. Em seções mais pesadas, usuários que encontravam acolhimento e comunidade nessa prática buscavam quebrar tabus ainda mais fortes até que chegassem, talvez de modo inevitável, no mais extremo de todos: matança.

Os usuários criaram memes complexos e piadinhas internas em torno de elogios e do compartilhamento de imagens explícitas do Holocausto, de tiroteios e, em especial, dada sua tangibilidade com o passado recente, do genocídio de muçulmanos da Bósnia em 1995. O atrativo em festejar um genocídio ou um múltiplo homicida era que, de certo modo, outros não fariam a mesma coisa. Era a prova de que você era um 8shooter genuíno: based [transgressor] e red-pilled [“da pílula vermelha”], comprometidos uns com os outros, independentemente do custo à reputação, tendo superado as demandas mesquinhas de um mundo desconectado que, na real, deixava você apavorado. A cultura predominante não era exatamente de extrema direita, embora a linguagem do nazismo e do genocídio racial permeasse tudo. Em vez disso, o ápice de anos cruzando limites e se provocando, de ódio irônico que se tornou sincero, era uma espécie de niilismo violento. Os usuários se instigavam entre si, de piada, só que não, a fazer o mundo pagar, a fazer mal a Eles em prol de Nós. A matar de forma indiscriminada.

Era fácil deixar de perceber, a não ser que você estivesse atento. Em uma rede social atrás de outra, comunidades de anomia e crise — incels do Reddit, Grupos Q do Facebook, extrema direita do YouTube — tinham escalado até o ponto da ação. Se apenas uma minoria minúscula cumprisse as ameaças, seria o normal, a situação de sempre no extremismo violento. Não havia motivo para crer que o 8chan não faria a mesma coisa.

Em março de 2019, quando começou o culto vespertino de uma pequena mesquita em um subúrbio arborizado de Christchurch, Nova Zelândia, um homem chegou em marcha pela via de acesso ao local. Ele trazia uma escopeta e tinha um celular grudado ao peito. Aproximou-se de quatro homens que conversavam na entrada. Um deles o cumprimentou: “Olá, irmão”. Ele ergueu a escopeta e fez vários disparos, matando os quatro.

O desconhecido entrou pelo corredor estreito e de teto baixo da mesquita, onde quase duzentos crentes haviam se reu nido, e de imediato começou a atirar. Disparou contra um fiel atrás do outro, encurralando-os contra uma parede dos fundos. Largou a escopeta quando a munição acabou. Sacou um fuzil AR -15 com uma luz estroboscópica a pulsar do cano, atirando metodicamente conforme famílias se abaixavam ou tentavam fugir. Naeem Rashid, professor de cinquenta anos e pai de três filhos, correu até o estranho, que o alvejou até matá-lo. O pistoleiro passou o tempo todo mudo. Uma caixa de som portátil presa a seu peito trombeteava hinos nacionalistas. Ele circulou pela mesquita, atirando em todos que encontrava, depois voltou ao saguão principal de oração, onde disparou de novo contra os corpos de vítimas que já estavam mortas ou moribundas. Quando voltou até a porta de entrada, apenas cinco minutos depois de chegar, ele havia assassinado 43 pessoas. A mais velha tinha 77 anos; a mais nova, três. No caminho até o carro, ele se deteve perto de uma mulher caída no chão, sangrando muito, mas ainda viva. Curvou-se. Naquele momento, duzentas pessoas assistiam a tudo pelo Face book, com transmissão ao vivo a partir do celular no peito do atirador, enquanto ele ouvia a mulher implorar por sua vida. Ele a matou.

O homem saiu dirigindo, costurando pelas faixas de trânsito a mais de 140 quilômetros por hora, disparando da janela do carro, até chegar a uma mesquita de subúrbio, onde assassinou outras sete pessoas. Abdul Aziz Wahabzada, imigrante do Afeganistão de 48 anos, interrompeu seu ataque, lançando uma máquina de cartão de crédito contra o homem e escondendo-se atrás de um veículo. Enquanto o atirador se rearmava, Wahabzada tomou a frente da situação, pegou uma escopeta descarregada que o outro soltara no chão e apontou para ele. Assoberbado, o atirador arrancou com o carro enquanto Wahabzada batia com a escopeta contra a janela traseira, estilhaçando-a. No caminho do atirador para uma terceira mesquita, uma dupla de policiais rurais, em visita à cidade para treinamento, abalroou seu carro contra o meio-fio e o prendeu.

Em questão de horas, ficou evidente que o assassino, um australiano de 28 anos chamado Brenton Tarrant, representava um novo tipo de extremismo, as trevas nas entranhas das redes sociais vindo à tona. “Bom, rapazes, hora de parar de postar merda e de postar na vida real”, escreveu ele no fórum de política do 8chan horas antes do ataque. Ele conectou seu Face book Live, incentivando os usuários a assistirem a seu “ataque aos invasores”. E anexou um arquivo de texto de setenta páginas explicando quem ele era, o qual também tuitou. “Vocês são os mó parceiro e o melhor bando de parça que o cara tem”, escreveu. “Por favor, façam sua parte espalhando minha mensagem, fazendo memes e postando merda como sempre.”

Os usuários que o acompanhavam na live, os 4 mil que assistiram a seu vídeo antes de o Facebook derrubá-lo e outros incontáveis que viram milhões de re-uploads internet afora teriam ouvido o homem dizer, momentos antes de começar a matança: “Lembrem-se, rapazes, se

inscrevam em PewDiePie”. [71] Era uma dica das motivações perturbadas de Tarrant, uma piada interna nas redes sociais. Fãs de PewDiePie, o gamer mais famoso do YouTube, com mais de 100 milhões de inscritos no canal, recentemente haviam emplastrado a internet — e, em uma trollagem,

entupido máquinas de fax [72] — com essa mesma frase. O youtuber também sofrera acusações (em grande parte equivocadas) de flerte com o nacionalismo branco. A referência de Tarrant era para ser uma trollagem da imprensa, provocando-a para atribuir a violência a PewDiePie, e uma piscadela aos trolls de internet que iam sacar a zoação.

O terrorismo é uma violência pensada para ameaçar uma comunidade maior em prol de fins políticos ou mera maldade. Mas também é, em geral, uma performance e um ato de solidariedade que serve a um endogrupo. Era por isso que recrutas do Estado Islâmico, especialmente “lobos solitários” radicalizados na internet, que nunca viram outro integrante cara a cara, enchiam fóruns jihadistas de manifestos e gravavam mensagens de martírio que só fariam sentido para os adeptos.

Era por isso também que as últimas palavras escritas de Tarrant expressavam sobretudo afeto pela comunidade em favor da qual, como deixou claro, ele havia feito o que fez. Em seu documento, Tarrant escreveu que aprendera o que é “etnonacionalismo” em Spyro: Year of the Dragon, um videogame para crianças. Ele agradeceu a Candace Owens, uma famosa youtuber da direita alternativa, por lhe ensinar a acolher a violência. E se gabou em um parágrafo: “Sou treinado em táticas de gorila e sou o maior sniper das Forças Armadas dos Estados Unidos da América”. Tudo era piada interna das redes.

Mas para cada piada ou trollagem havia páginas de menções, aparentemente sinceras, a conspirações de extrema direita, slogans nazistas e convocações a uma guerra racial global para expulsar e extinguir quem não era nem cristão nem branco. Acima de tudo, Tarrant cercou sua violência com piadas internas que, para sua comunidade, haviam ganhado sinceridade mortal, encarnações de seu deslocamento entre o extremismo irônico e o extremismo que era apenas revestido de ironia.

Durante sua live, enquanto dirigia, ele colocou para tocar a música de um vídeo chuviscado de 1992 no qual um ultranacionalista sérvio cantava em homenagem a Radovan Karadžić, criminoso de guerra responsável pelo genocídio bósnio. O vídeo era um meme do 4chan fazia muito tempo, no qual era chamado de “Acabe com o kebab”, que, para alguns, passou de piada a sinal genuíno de apoio ao genocídio de muçulmanos. Tarrant também escrevera “Acabe com o kebab” na lateral de um de seus fuzis.

No 8chan, usuários que assistiam à live ficaram arrebatados. [73]

HAHAHA ELE TOCOU ACABA COM O KEBAB NO CAMI NHO ! TÔ MORRENDO !

Pota que pariu. OP mandou bem acabei de ver ele matando uma

caralhada de haji. [OP , de “original poster ”, ou autor da postagem, era

referência a Tarrant.]

PUTA MERDA !!! OS DÍGITOS DE DEUS !

Alguns insistiram uns com os outros para seguir o exemplo e, como disse um, “redimir sua nação”.

Meses depois, Fredrick Brennan, fundador e administrador do 8chan até

2016, informou que o site ia ser desativado. [74] “Não está fazendo bem nenhum ao mundo”, disse ele a Kevin Roose, colunista de tecnologia do New York Times. “É uma coisa totalmente negativa para todo mundo, fora os usuários ali. E sabe o que mais? É negativo para eles também. Eles é que não percebem.”

Em questão de meses, mais duas matanças de supremacistas brancos foram anunciadas no fórum. Um usuário de dezenove anos, depois de postar suas intenções, pegou um AR -15 e cinquenta pentes de munição e foi para uma sinagoga da Califórnia, onde atirou em quatro pessoas e matou uma antes de seu fuzil travar e ele fugir. Depois, um homem de 21 anos em El Paso matou 23 pessoas em um Walmart, a maioria latinos. A polícia informou que, antes do ataque, ele havia postado uma longa mensagem no 8chan detalhando conspirações de extrema direita e guerra racial que, ele acreditava, justificavam sua violência.

Apesar de todos os links com o 8chan, quando os investigadores do governo da Nova Zelândia encerraram um ano de análise de como transcorrera o massacre de Christchurch, o maior culpado, segundo

indicaram, era o YouTube. [75] Tarrant havia aprendido na plataforma a customizar as armas que usara no ataque. Ele tinha doado dinheiro a youtubers da alt- -right . Nos dias anteriores ao ataque, deixara a plataforma em reprodução automática, com os algoritmos rodando de um vídeo ao seguinte. Quando estava em outros pontos da internet, seja em grupos do Facebook, seja em fóruns de gamers, era frequente ele postar links para vídeos de YouTube da extrema direita.

Os investigadores, citando entrevistas e reconstituições forenses de seu histórico na internet, concluíram que “o YouTube era, para o atirador, uma

fonte de informação e inspiração muito mais significativa” [76] do que qualquer outra plataforma havia sido. Segundo o relatório, o YouTube era tanto seu lar digital quanto o condutor da sua radicalização. Quando investigadores interrogaram moradores a respeito do ataque, eles também mencionaram o YouTube: seu papel na radicalização da extrema direita, sua promoção de conteúdo extremista. Alguns disseram que seu algoritmo tinha inclusive lhes recomendado o vídeo, supostamente banido, da matança de Tarrant. Jacinda Ardern, primeira-ministra da Nova Zelândia, anunciou que, entre as centenas de páginas de conclusões do relatório, o papel do YouTube em impulsionar ódio e conspirações havia “se destacado em particular”. Ela complementou: “É uma questão que planejo apresentar

diretamente à liderança da plataforma”. [77]

A dezenas de milhares de quilômetros dali, em um quarto escuro próximo a Dallas, Adam, sem querer, havia assistido ao tiroteio no 8chan pouco após o ocorrido. “Foi terrível”, lembrou. “Eu me considero uma pessoa dessensibilizada e aquele vídeo me deixou horrorizado.”

Era um momento em que Adam estava frágil. Havia passado anos entre comunidades incel, acompanhando-as no YouTube e no 8chan conforme elas — e ele — se afogavam na raiva e na desconfiança. Mas ele havia conhecido uma jovem num grupo do Facebook, uma página de compartilhar memes que o algoritmo do Facebook lhe recomendara. Adam postou uma thread oferecendo-se para desenhar qualquer pessoa que lhe enviasse uma foto. A jovem aceitou, mas, quando eles trocaram informações de contas, ela aproveitou o acesso para desenhá-lo. A brincadeira o fez baixar a guarda. Tudo que Adam havia aprendido na internet lhe dizia que mulheres só difamavam e magoavam gente como ele. Mas ali estava a prova de que alguém havia olhado para ele, olhado por querer, com olhos que o tratavam não como um ser repugnante, mas como alguém bobo e gentil. Depois de meses de conversa na internet, a jovem fez uma viagem de três dias para chegar a Dallas. No início, estavam acanhados um com o outro. “Acho que levou uns quatro ou cinco dias até a chaleira esquentar”, disse ele. Mas depois mantiveram contato. Ela começou a arrancá-lo da toca. Aí aconteceu Christchurch e ele se cansou.

Pouco tempo depois, Adam procurou a página no Twitter de Brianna Wu, a programadora de jogos e ativista que, durante o Gamergate, por anos havia sofrido intimidações e ameaças. “ei, sei que parece bobeira”, ele lhe escreveu em mensagem privada, “mas acho que só queria dizer que uns anos atrás eu era uma pessoa bem tensa que entrou no bonde do ódio do 4chan contra você.” Adam foi vago em relação ao que tinha feito. Mas disse que fora guiado por uma “imensa mente coletiva” de ódio antifeminista, contra ela e contra outras, no 4chan e no Facebook. “A coisa mudou e eu estou torcendo por você e pela sua campanha”, escreveu, referindo-se à candidatura de Wu ao Congresso. “Achei que valia a pena te contar para mostrar meu apoio e que essa gente pode mudar e ser melhor.”

Wu vinha recebendo cada vez mais mensagens iguais a essa — de ex-gamergaters que, depois de anos entrando pelo funil do extremismo online, haviam conseguido ajuda. “Parece mesmo que eles estão procurando seu lugar no mundo”, contou ela. “Entendo estar descontente e dirigir esse ódio contra si mesmo para os outros e revidar, especialmente quando você é mais novo. Tento me lembrar de quando tinha vinte e poucos anos. Eu era um caos.”

Wu respondeu a Adam: “Isso vale um mundo inteiro para mim, obrigada!”. Depois de algumas mensagens, ela lhe pediu permissão para tuitar uma imagem da conversa, com o nome dele apagado. Ele disse que sim, que esperava que fosse ajudar “outras pessoas com quem cresci conversando na internet” a mudar. O tuíte de Wu recebeu umas dez respostas, a maioria positivas. Provavelmente tenha sido a quarta ou quinta postagem mais discutida de Wu naquele dia. Mas, para Adam, a sensação de ratificação foi esmagadora.

“Ver todas as respostas desse print que você compartilhou me deixou muito feliz”, respondeu ele. “Não sei se alguma vez já vi tanta gente feliz com uma coisa que eu disse.”

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