A máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo

Indignação moral

O estouro dividiu observadores da área de tecnologia. Alguns viram mais um Gamergate, agora mais próximo do centro da vida norte-americana, viabilizado por plataformas que promoviam histeria coletiva e intimidação contra as quais praticamente não havia restrições nem salvaguardas. Outros viram um drama de internet bobo sem grande significado, e muito menos motivo para culpar as redes sociais, ainda consideradas por muitos como as libertadoras do planeta.

James Williams, engenheiro do Google desde 2005, aparentemente teria se encaixado no perfil do lado mais otimista. Porém, ao deixar a empresa, ele escreveu um texto para o site Quillette dizendo que Cecil e episódios parecidos prenunciavam uma mudança radical em nosso mundo

digitalizado. [13] Ele acreditava que os vingadores de Cecil, não importava quais fossem suas motivações, haviam sido manipulados, sem saber, para se comportar daquele modo, “pressionados pelos arranjos persuasivos do design digital”. Seu diagnóstico: “Gostamos que nos deixem indignados. Reagimos a isso como uma gratificação”.

As plataformas haviam aprendido a aproveitar a indignação que trazia a seus usuários “um ímpeto — de propósito, de clareza moral, de solidariedade”. O ritmo crescente desses ataques de fúria exaustivos, talvez um por semana, sugeria que as mídias sociais não estavam apenas influenciando a cultura como um todo, mas, em certo nível, derrubando-a. No fim das contas, tudo seria em favor de Donald Trump — uma discussão esdrúxula naquele momento. Seria tão maluco pensar, sugeriu Williams, que as novas mídias dominantes da nossa época podiam lançar porta-estandartes como Trump ao auge do poder? Já não estava acontecendo? “A

verdade”, escreveu ele, “é que esses efeitos políticos já estão entre nós.” [14]

 

Indignação moral Billy Brady era calouro na Universidade da Carolina do Norte quando se deu conta de que gostava de ficar indignado no Face book. Ele passou o ano de 2005 transformando as visitas à rede social em hábito, brigava nos comentários e, hoje admite entre risadas, “postava coisas só para provocar”.

Vegano de voz mansa que tem a fala arrastada de surfista californiano — apesar de não ser da Califórnia —, Brady não estava acostumado a se sentir atraído para raiva e conflitos. E ele havia entrado no Facebook para mudar mentes, não para brigar. Estava começando no ativismo pelos direitos dos animais, disse, e achou “que parecia uma plataforma interessante para espalhar mensagens e convencer pessoas”. Mas muitas vezes acabava expressando sua indignação contra elas. Ele estava se portando de uma maneira que, como veio a perceber, tinha pouca chance de promover a causa e, por mais que fosse divertido no momento, o fazia se sentir um babaca logo em seguida.

A sorte foi que o campo de estudos de Brady tinha algum discernimento. A filosofia moral, antes domínio de intelectuais reflexivos, estava ficando mais empírica, alavancando as ciências exatas para encontrar a natureza efetiva da moralidade. As descobertas sugeriam uma explicação para o comportamento de Brady. Passar raiva na sua mesa ou disparar um xingamento eram coisas que o faziam se sentir mais mal do que bem. Mas, quando suas expressões de indignação atraíram atenção na internet, principalmente o incentivo de outros com ideias afins, aquela sensação tornou-se viciante. “Notei, sem dúvida, que você chama a atenção dos outros postando coisas mais incendiárias e sentindo algumas emoções”, contou.

Mas por que as pessoas se sentiriam atraídas por emoções tão prejudiciais, tão desagradáveis? Fascinado, ele incluiu aulas de psicologia na sua agenda. Desde então, tem estudado a influência das mídias sociais no comportamento humano. Em certo sentido, disse, todos os usuários estão, ao mesmo tempo, tanto conduzindo quanto sendo participantes de um experimento psicológico sem fim. As pessoas, em geral, são intimamente atentas ao feedback social e se adaptam ao que ouvem, um impulso que as curtidas e os compartilhamentos na internet conseguem acessar. Mesmo quando era um universitário que se envolvia em briguinhas no Facebook, “por tentativa e erro descobri como as pessoas reagem a diferentes enquadramentos e diferentes atrativos”.

Quanto mais ele e usuários de ideias afins provocavam a raiva uns dos outros, mais seu comportamento se tornava antagônico. Carnívoros e agnósticos quanto aos direitos dos animais não eram gente bem-intencionada que só precisava de persuasão; eram broncos e malfeitores que tinham que se sentir culpados. A chave, concluiu ele, era a indignação moral. A indignação é um coquetel emocional simples: raiva mais nojo. Indignação moral é um instinto social.

Lembremos aqueles primeiros povos que tinham até 150 pessoas. Para sobreviver, o grupo tinha que garantir que todos agiriam em prol do coletivo, sendo parte disso se darem bem uns com os outros. Para tal, era preciso um código de comportamento em comum. Mas o que você faz para todo mundo internalizar e seguir esse código? A indignação moral é a adaptação que a nossa espécie fez para atender a esse desafio. Quando você vê alguém desrespeitando uma norma importante, você se irrita. Quer que essa pessoa sofra um castigo. E se sente impelido a transmitir essa raiva para que outros também vejam essa violação e queiram participar da

humilhação — e talvez do castigo — do transgressor. [15]

A vontade de castigar transgressores é tão profunda que aparece nas crianças. Em experimentos, foram mostrados dois fantoches a crianças com menos de um ano. Um deles compartilhava, o outro se recusava a isso. As crianças, sem exceção, tiravam balas do fantoche mau e recompensavam o bom. Os participantes com um ou dois anos a mais chegavam a recompensar os fantoches que eram cruéis com o fantoche mau e castigar os

que eram legais com o fantoche mau. [16] Foi a confirmação de que a indignação moral não é só raiva contra um transgressor. É uma vontade de ver a comunidade inteira se alinhar contra eles.

Brady, tentando entender a indignação que havia sentido na internet, primeiro em um mestrado em filosofia e depois em outro em psicologia, fez circular uma teoria que os dois campos denominam sentimentalismo. “É a ideia de que nossa noção de moralidade está entrelaçada a nossas reações emotivas e talvez seja até guiada por elas”, disse. “O que vai contra a ideia mais antiga de que humanos são muito racionais quando se trata de moralidade.”