A máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo
O que impele o Facebook?
A postura do Facebook foi a mesma nas duas reuniões. Não bastava que alguém, mesmo um ministro do governo, marcasse uma postagem como discurso de ódio. Para agir, a empresa precisava averiguar qualquer desrespeito às regras por conta própria. Mas a plataforma terceirizava a maior parte de seu trabalho a empresas de tecnologia da informação, que não empregavam falantes de cingalês em número suficiente. Representantes do Facebook deixaram apenas a duvidosa promessa de que preencheriam essas vagas.
As autoridades do governo perguntaram se havia alguém que pudessem contatar diretamente em caso de um surto de incitação à violência como acontecera em Mianmar. Não, disseram os representantes da empresa. Se percebessem algum perigo, eles deviam usar o formulário do site para informar a violação das regras. A resposta foi um banho de água fria. O formulário, projetado para qualquer usuário, era a mesmíssima ferramenta que Hattotuwa e seus colegas já haviam usado durante meses, preenchido com informes cada vez mais alarmados, e cujo retorno fora o silêncio quase total. Tudo isso enquanto as convocações à violência ficavam cada vez mais específicas, dando nomes a mesquitas e bairros a serem “purificados”.
O que impele o Facebook?
Por toda a Colombo, nos prédios da era colonial que abrigam os ministros do governo cingalês, o diretor de inteligência do país, Sudarshana Gunawardana, nos disse que ele e outros funcionários se sentiam “desamparados”. Antes do Facebook, em tempos de tensão, ele podia se reunir com líderes da comunidade e dirigentes da imprensa para promover mensagens de tranquilidade. Agora, tudo que seus cidadãos viam e ouviam era controlado por engenheiros na distante Califórnia, cujos representantes locais nem mesmo respondiam às suas ligações.
Conforme cresciam os sinais da violência por vir, autoridades do governo emitiram declarações que derrubavam os boatos mais perigosos. Ninguém acreditou. Eles haviam visto a verdade com os próprios olhos no Facebook. Gunawardana marcou uma postagem atrás da outra usando a ferramenta de relatar incidentes da plataforma, para um moderador anônimo notar que o país estava entrando numa espiral de violência. Todos os informes foram ignorados. “Tem que haver algum tipo de compromisso com países como o Sri Lanka”, disse Gunawardana. “Somos uma sociedade, não somos apenas um mercado.”
Conforme a ira com o vídeo de Ampara se espalhava, extremistas do Facebook canalizavam esse sentimento. Um deles, Amith Weerasinghe, cujo culto ao ódio fora recompensado com milhares de seguidores, se agarrou à briga de trânsito na qual jovens muçulmanos haviam espancado um caminhoneiro — o homem cuja família tínhamos conhecido. Weerasinghe fez circular memes, compartilhados milhares de vezes, dizendo que aquele era o primeiro ataque de um levante muçulmano. Como prova, ele divulgou a notícia falsa de que a polícia de Ampara havia apreendido milhares de comprimidos de esterilização em farmácias muçulmanas. Para milhões de cingaleses cozinhando na irrealidade das redes, a suposta confissão de Farsith, o dono do restaurante, era a confirmação de tudo. A guerra racial começara. Alguns dias depois do tumulto em Ampara, o caminhoneiro, ainda hospitalizado, veio a falecer, o que fez a indignação na internet engrossar, como de costume, e se transformar em convocações à ação coletiva: os cingaleses genuínos deviam ir ao funeral para demonstrar solidariedade contra a ameaça muçulmana. Ônibus lotados chegaram a Kandy, a cidade mais próxima do vilarejo do caminhoneiro. Alguns se espalharam pelas cidades em volta.
Para coordenar a movimentação, usuários do Facebook fizeram circular links para grupos privados no WhatsApp. O aplicativo de mensagens de propriedade do Facebook possibilita comunicação veloz, com alguns toques que ajudam na viralização. Os usuários podem encaminhar conteúdo de um grupo a outro, o que permite que as postagens se espalhem de forma exponencial. Um grupo grande no WhatsApp lembra uma mistureba de Facebook, Twitter e YouTube, recheado com conteúdo viral copiado dos três. O WhatsApp se vende sobretudo pela privacidade: mensagens encriptadas de ponta a ponta não deixam ninguém meter o nariz. Não há verificação dos fatos nem moderadores.
Os pesquisadores digitais se inscreveram em alguns desses grupos. Não foi difícil; os nomes dos grupos estavam postados nas páginas de ódio do Facebook, que operavam de forma tão aberta quanto um jornal. Em um vídeo viralizado no Whats-
App, um homem vestido de monge berrava: “A faca da cozinha não é mais feita para cortar a jaca. Favor amolar essa faca e sair de casa”. Em outro grupo, um usuário compartilhou a foto de uma dúzia de armas improvisadas e uma lista de alvos. Ele marcou duas mesquitas com a expressão “hoje à noite” e outras duas com a palavra “amanhã”. Os grupos se encheram principalmente com conteúdo produzido por Weerasinghe. Muitos compartilharam um vídeo que ele havia postado no Facebook e no YouTube que o mostrava caminhando pelas lojas de uma cidade chamada Digana. Muitas delas eram de propriedade de muçulmanos, disse ele, instigando cingaleses a retomar a cidade. Os pesquisadores enviaram tudo ao Facebook. Não houve resposta.
Eles ficaram assistindo, impotentes, enquanto centenas de cingaleses postavam ao vivo de aldeias e cidades com ruas lotadas. Moradores penduravam bandeiras com imagens de leões na janela. Era uma mensagem: aqui moram cingaleses. Todos sabiam o que estava por vir. Os primeiros coquetéis molotov voaram naquela noite. Durante três dias, turbas dominaram as ruas. Indo de casa em casa, onde quer que morassem muçulmanos, eles derrubavam portas, saqueavam do chão ao teto, depois botavam fogo na residência. Queimaram mesquitas e lojas de gerência muçulmana. Espancaram gente nas ruas.
Em Digana, a cidade onde Weerasinghe aparecera no vídeo, uma dessas casas era da família Basith. Eles vendiam sandálias no primeiro andar e moravam no segundo. A maioria da família fugiu. Mas um filho mais velho, Abdul, havia ficado e estava preso no andar de cima. “Eles derrubaram todas as portas da nossa casa”, disse Abdul numa mensagem de áudio que enviou a seu tio pelo WhatsApp. “As chamas estão entrando.” Depois de alguns instantes, ele implorou, com a voz mais alta: “A casa está pegando fogo”. Sua família não conseguiu voltar lá. A polícia só veio a controlar Digana na manhã seguinte. Encontraram Abdul morto no andar de cima.
Os líderes do país, ansiosos para controlar a violência, bloquearam todo acesso a mídias sociais. Era uma alavanca que eles tinham resistência em puxar, relutantes em bloquear as mesmas plataformas a que alguns creditavam a transição recente do país para a democracia e temendo passar a impressão de que iam retomar os abusos autoritários de décadas anteriores. Duas coisas aconteceram quase de imediato. A violência cessou; sem Facebook ou WhatsApp servindo de guia, as turbas simplesmente voltaram para casa. E representantes do Facebook, depois de meses ignorando ministros do governo, finalmente responderam às ligações. Mas não para perguntar sobre a violência. Eles queriam saber por que o tráfego havia zerado.
Dias depois, Amanda e eu chegamos a Digana, onde as cinzas ainda sopravam pelas ruas. A cidade, no interior cingalês de morros ondulantes cor de esmeralda e reservas naturais, ficava a apenas trinta minutos dos resorts mais luxuosos do país. Os vizinhos nos observavam de banquinhas de chá enquanto um homem chamado Fazal nos recebia em sua casa, a poucos metros das ruínas do prédio onde seu irmão, Abdul, havia morrido durante o incêndio. Fazal, que trabalha como imã, usava o Facebook para tudo — tal como todo o país, conforme disse. Perguntei-lhe sobre desinformação e ódio na internet, mas ele aparentemente não entendeu. O Facebook simplesmente existia. Foi como se eu houvesse perguntado se a culpa dos incêndios era do vento. Eu não quis pressionar um homem de luto. Ele nos serviu sorvete e saiu para trabalhar.
Assim que o anfitrião foi embora, um vizinho jovem que nos encontrara na casa de Fazal, Jainulabdeen, nos disse: “Já esperávamos isso”. Talvez por não querer que Fazal passasse vergonha, ele tinha esperado para falar. Assim como a família Basith, Jainulabdeen era muçulmano. Mas os vizinhos cingaleses o haviam alertado dias antes. “A maioria já sabia”, disse. “Sabiam pelo Facebook.” Quando perguntei a respeito do vídeo de Weerasinghe, o extremista da plataforma, caminhando em Digana para pedir que os muçulmanos fossem expulsos, Jainulabdeen bufou e fez que não com a cabeça. “Conhecemos ele”, disse. “É da região.” No Facebook, Weerasinghe tinha o poder de moldar a realidade de centenas de milhares. Mas ali, na sua cidade, ele era apenas, insistiu Jainulabdeen, “uma pessoa normal”. Seu pai era carpinteiro. As famílias se conheciam. Os parentes de Jainulabdeen chegaram a pedir que a família de Weerasinghe interviesse. A família, aparentemente compartilhando dos receios, prometeu conversar com ele, mas sem resultado. Ele amava demais ficar na internet.
Assim que as turbas se dispersaram, a polícia prendeu Weerasinghe por incitação. O Facebook finalmente fechou sua página. Mas o vídeo de Ampara que havia inspirado tanta violência, o de Farsith Atham-Lebbe, funcionário de restaurante, muçulmano e inocente, sendo pressionado a confirmar uma guerra racial que não existia, permanecia disponível. Os pesquisadores continuavam enviando apelos para o Facebook tirá-lo do ar e a empresa continuava se recusando, seja ignorando seus informes, seja respondendo que o conteúdo não desrespeitava regra alguma.
Farsith, como viemos a descobrir, estava escondido em outra ponta do país. Enquanto eu tentava arrumar uma carona para encontrá-lo, Amanda voltava à capital em busca de detalhes de uma reunião que uma fonte havia lhe contado. No início daquele dia, o diretor de políticas do Facebook para o Sul da Ásia, Shivnath Thukral, chegara para um encontro com ministros do governo, segundo a fonte. Agora que o Sri Lanka tinha desligado a plataforma da tomada, o Facebook fazia de conta que estava ouvindo.
Thukral foi conciliador, como disse a Amanda uma pessoa presente. Ele reconheceu que a empresa não havia conseguido dar conta da incitação e do discurso de ódio dos quais tinha sido alertada várias vezes. Ele prometeu mais cooperação. No dia seguinte, Thukral fez uma reunião por telefone com representantes civis, que não ficou registrada. Ele admitiu que o Facebook não tinha moderadores falantes do cingalês em número suficiente para controlar a desinformação e o ódio. E novamente prometeu que a empresa ia contratar mais pessoal.
Passadas algumas semanas, perguntamos ao Facebook quantos moderadores falantes de cingalês haviam sido contratados. A empresa disse que havia tido avanços. Cética, Amanda vasculhou sites de anúncios de emprego em países próximos. Ela encontrou um anúncio, na Índia, para trabalho de moderador em uma plataforma não identificada, em cingalês. Telefonou à empresa terceirizada através de um tradutor, perguntando se o emprego era para o Facebook. O recrutador disse que sim. Eles tinham 25 vagas em cingalês, todas abertas desde junho de 2017 — havia nove longos meses. O “avanço” do Face book era mentira.
“Somos um governo que chegou ao poder com a prerrogativa da liberdade de expressão”, disse Harindra Dissanayake, um conselheiro presidencial no Sri Lanka, a Amanda. Ele mesmo usava as mídias sociais. Não fora fácil para ele desligar o acesso, ainda que por poucos dias. No máximo, afirmou, as plataformas de redes sociais “deixavam as coisas mais transparentes, davam voz a pessoas que não tinham voz”. Mas, nos meses anteriores, prosseguiu, elas tinham arrasado sua fé na tecnologia a que ele dera o crédito por conduzir seu país à democracia. “Essa ideia das mídias sociais como plataformas abertas e igualitárias é mentira total”, era no que ele acreditava agora. “Não há editor, só algoritmo.”
Ele sublinhou que as discórdias do Sri Lanka eram anteriores às redes sociais. Mas essas plataformas, alertava, salientavam o pior da sociedade, amplificando seus extremos de maneira que nunca fora possível até então. “Não culpamos totalmente o Facebook”, disse Dissanayake. “Os micróbios são nossos, mas o Facebook é o vento, sabe?” Seu governo estava pensando em instituir multas, afirmou. Mas ele sabia que o poder do Sri Lanka era modesto. Só os norte-americanos, acreditava, tinham influência suficiente para forçar uma mudança. “Vocês, os Estados Unidos, deveriam lutar contra o algoritmo. O que impele o Facebook, fora isso?”
No dia seguinte, cheguei na outra ponta do país, onde uma professora local que dizia conhecer Farsith me levou a um pequeno assentamento a poucos quilômetros de Ampara, uma fileira de casinhas de concreto com dois quartos. Ela apontou para a antepenúltima.
Farsith, que aguardava lá dentro, havia tirado a barba. Não para esconder sua fé, explicou, mas porque mesmo em um vilarejo distante era difícil para ele andar por uma quadra que fosse sem ser reconhecido. “As pessoas vinham me fazer todo tipo de pergunta”, contou. Ou gritavam com ele: “Você é daquele vídeo!”. Ele relatou o tumulto, seu desnorteamento, seu medo, a fúria da turba. “Achei que ia ser meu dia derradeiro”, disse. Ele fugiu na manhã seguinte.
Envergonhado em um nível quase infantil, ele parecia distante. Enquanto conversávamos, torcia a mão diante da sobrinha de cinco anos, numa brincadeira sem muito entusiasmo. Ela ficava puxando-o, cutucando-o, tentando trazer seu olhar para o chão. O pai da menina, que cuidava do restaurante, nos trouxe bananas e chá. Os irmãos haviam feito tantos empréstimos para construir o estabelecimento, contou ele, que não tinham conseguido pagar o seguro. Tudo se perdera, menos a dívida.
“Não sabemos o que fazer”, disse o irmão de Farsith. Talvez eles voltassem a trabalhar em construção civil na Arábia Saudita, onde tinham ganhado e economizado dinheiro para o restaurante, embora isso implicasse deixar as famílias para trás. “Estamos aguardando a orientação de Deus.”
Farsith deu um suspiro. “Não tenho intenção alguma de ficar aqui”, disse.
Perguntei-lhe várias vezes a respeito de mídias sociais. O Facebook o transformara em vilão nacional. Havia espalhado uma mentira que acabou com sua família, talvez rachando-a. Quase o tinham matado. Ainda agora, ele vivia com medo de outra turba incitada pela plataforma.
Apesar de tudo isso, recusava-se a abandonar as redes. Com os dias longos e livres se escondendo, disse: “Eu tenho mais tempo e acesso mais o Facebook”.
Fiquei chocado. Mesmo que ele não tivesse nenhum ressentimento contra a empresa cuja plataforma havia destruído a vida de seus familiares, eu disse, ele sabia em primeira mão que não podia acreditar no que via nela.
Não que ele acreditasse que as redes sociais eram exatas, explicou. “Mas você tem que gastar tempo e dinheiro para ir ao mercado e comprar um jornal. Eu posso abrir meu celular e já recebo as notícias.” Tirou os olhos do chão e deu de ombros. “Seja certo ou errado, é o que eu leio.”
Mantive contato intermitente com Farsith. Sua família caiu na linha da pobreza. Ele era perseguido com ameaças. Alguém do Facebook entrou em contato — citando o artigo que Amanda e eu havíamos escrito — para lhe perguntar o que acontecera. Farsith disse à pessoa que queria muito comer. Estava disposto a trabalhar. A ligação terminou e ele nunca mais teve notícias da empresa. Passado um ano, havia economizado dinheiro para viajar para o Kuwait, onde arranjou um trabalho intermitente como operário braçal. Ainda está lá.
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