A máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo

The Ramble

pessoa esperava que a crueldade fizesse a plateia gostar mais dela. [41]

O efeito cresce em escala; as pessoas expressam mais indignação e demonstram maior disposição para punir os que não merecem quando acham que seu público é maior. E não há público maior na terra do que no Twitter e no Facebook.

 

The Ramble

Se havia alguma dúvida quanto à influência da humilhação via Twitter na vida dos Estados Unidos, ela terminou na última segunda-feira de maio de 2020 em um trecho tranquilo e arborizado do Central Park de Nova York,

conhecido como The Ramble. [42] Ali, toda manhã, acontece um ritual. Alguém solta seu cachorro para uma folga do apartamento apertado ou da calçada lotada. E um observador de pássaros, para quem aquele é um espaço riquíssimo, repreende o dono do cão e lhe diz para botar a coleira no animal, como exigem as regras do parque.

Naquela manhã, a dona do cão era uma mulher branca, Amy Cooper. Quem observava os pássaros era um homem negro, Christian Cooper, que havia passado tantas vezes por aquele ritual que andava com petiscos para atrair os bichos sem coleira e pressionar os donos a encoleirá-los. Quando o cão de Amy chegou perto de Christian, ele pediu a ela que pusesse a coleira. Ela se recusou.

Ele abanou um petisco e disse à mulher: “Olha aqui: se você vai fazer o que bem entende, eu vou fazer o que bem entendo, só que você não vai gostar”.

“Você não toque no meu cachorro”, retrucou ela.

Ao ver o conflito se intensificar, ele puxou o celular, apontou a câmera para ela e começou a gravar. A mulher caminhou na sua direção e lhe pediu que parasse de filmar, ao mesmo tempo que ele lhe pedia que parasse de se aproximar, cada um se esforçando para firmar o controle. Dois urbanitas de classe média de meia-idade, as vozes trêmulas devido ao afluxo incomum de adrenalina.

“Então vou tirar uma foto e chamar a polícia”, disse ela.

“Por favor, chame a polícia”, disse ele. “Por favor, chame a polícia.”

“Eu vou dizer que tem um homem afrodescendente ameaçando a minha vida”, disse ela. Era uma ameaça que podia ser letal. Homens e mulheres negros mortos por policiais enchiam o noticiário naquela estação. Amy ligou para o 911 e disse à telefonista várias vezes que um “homem afrodescendente” estava fazendo ameaças contra ela. “Por favor, mandem a polícia imediatamente”, disse, a voz ficando mais alta com o que parecia terror fajuto. No meio da chamada, ela pôs a coleira no cachorro, e Christian, retomando a compostura, agradeceu com a voz áspera antes de encerrar o vídeo.

Em um mundo sem mídias sociais, o incidente provavelmente teria acabado ali. Quando a polícia chegou, os dois já tinham ido embora do parque. Christian poderia ter usado o vídeo do celular para denunciar Amy por falsa comunicação de crime. Mas a maior transgressão dela — brandir a truculência policial para intimidar Christian e pôr a vida dele em risco — não seria castigada. Assim como não aconteceria nada quanto à tentativa que ela havia feito de sublinhar que espaços públicos como o parque pertencem primeiro a gente branca e em segundo a gente negra, que merecia o castigo da morte. No mundo em que vivemos, contudo, a irmã de Christian pôde postar o vídeo no Twitter. “Eu queria que o público soubesse para garantir que ela nunca mais faça isso”, disse a seu modesto número de seguidores.

Foi exatamente o tipo de transgressão para a qual existe a indignação moral: deter uma infração às convenções comunitárias (não minta, não ponha os outros em risco, não promova o racismo) e um ataque ao contrato social que nos une. Também foi a demonstração de um racismo particularmente maligno, a que os usuários podiam chamar a atenção compartilhando o vídeo. Uma pessoa repostou o vídeo, depois mais uma, depois mais uma, até que mais de 200 mil haviam compartilhado a postagem, cada uma sinalizando sua concordância com a convocação a responsabilizar Amy Cooper. Logo o vídeo atraiu 40 milhões de visualizações, vinte vezes a audiência do noticiário noturno.

Dezenas de milhares de usuários, falando com uma só voz em fúria, pressionaram os patrões de Amy Cooper — que prontamente a demitiram — e distribuíram os nomes e contas dos amigos dela nas redes sociais, uma convocação implícita para seu isolamento social. O repúdio chegou até o abrigo de animais onde ela havia adotado seu cão, o que a levou a devolvê-lo (o abrigo lhe restituiu o animalzinho uma semana depois). Detalhes sórdidos e desvinculados da vida da mulher foram abertos a milhões. Ela fora conduzida à maior praça pública na história humana e acabou condenada. Era a justiça, tanto por Christian Cooper quanto para firmar que um comportamento daqueles seria castigado — e rápido. E focou a atenção necessária no poder que a violência policial dá a qualquer pessoa branca com um celular na mão quando quer ameaçar a vida de uma pessoa negra.

Mas o Twitter também levou essa justiça exatamente até o ponto em que os usuários mais furiosos do site queriam levar sua ira sob incentivo do algoritmo. Mesmo que o coletivo conectado tivesse chegado ao veredicto correto, alguns expressaram incômodo com os métodos com os quais haviam determinado e executado a sentença. Entre os que articulavam certo nível de ambivalência estavam o próprio Christian Cooper, que, embora tivesse poupado poucas críticas a Amy Cooper por tentar mobilizar “impulsos sociais sinistros” contra ele, complementou: “Não desculpo o

racismo, mas não sei se precisavam acabar com a vida dela”. [43]

O fato de a mulher ter sido pressionada a devolver seu cachorro, no ápice da fúria online, mas consegui-lo de volta quando a poeira baixou, sugeriu que a dinâmica das redes sociais havia, pelo menos por um tempo, impingido um castigo que tinha passado do ponto do que os justiceiros achavam apropriado. Todo sistema judicial tem seus vieses, pontos cegos, seus excessos. O caso Cooper demonstrou que havíamos chegado a um novo sistema, uma camada acima dos antigos, sem que houvesse sido conscientemente projetado por alguém, ou que alguém houvesse entrado

nele por vontade própria, ou mesmo o entendesse. [44]

Há momentos em que esse sistema provoca transformações positivas. Os ativistas do Black Lives Matter (BLM ) o potencializaram para chamar a atenção para a violência que os veículos tradicionais tendem a ignorar. O vídeo de Christian Cooper reverberou com tanta potência, em parte, porque esses ativistas haviam munido milhões de pessoas a perceber o quanto isso era significativo. Naquele mesmo dia, um policial de Minneapolis pôs o joelho no pescoço de um homem negro chamado George Floyd durante quase nove minutos, o que o matou. Milhões se congregaram em manifestações que duraram semanas, cidade a cidade, no ápice da organização in loco, mas também de um manancial nacional de indignação moral que se desenrolara em um grau significativo através das mídias sociais. As alegações de assédio sexual contra o produtor de cinema Harvey Weinstein também tinham ativado um ciclo de indignação crescente na internet — primeiro contra ele, depois contra Hollywood, depois contra os homens abusadores cujos nomes foram citados em incontáveis histórias íntimas compartilhadas via Twitter —, que se tornou o movimento MeToo. A promessa de revolução do Vale do Silício havia sido interesseira, mal pensada e apenas um componente de uma desestabilização maior que muitas vezes era prejudicial. Mas ela tinha algo de verdade.

Incidentes de injustiça também ficaram frequentes. Alvos errados, enganos, a indignação empregada para fins nefastos ou sem motivo algum. Assim como casos que caem em áreas cinzentas da moral: mais dentistas de 55 anos que têm que se esconder ou marqueteiros de trinta e poucos que perdem seu ganha-pão. A mudança não aconteceu porque de repente a sociedade ficou mais justa ou por causa da ascensão da dita cultura do cancelamento; foi a chegada de uma tecnologia tão disseminada, tão entranhada na nossa cognição, que havia mudado o jeito como funcionam a moralidade e a justiça. Os Cooper, os Walter Palmer e os gamergaters são todos parte da mesma nova ordem, nossa tirania digital dos primos.

Esse sistema automatizado e avassalador dos sentidos pode ser facilmente explorado. Tal como James Williams, o ex-engenheiro do Google, havia alertado, Trump cresceu com tuítes e postagens ultravirais do Facebook que atiçaram a raiva contra o Partido Democrata, contra os jornalistas e as minorias, muitas vezes por conta de pecados inventados, mas que inspiraram convocações bem reais à prisão ou morte dos seus alvos. Se passar uma hora navegando por uma parte das redes que não compartilha da sua visão política, você vai se perguntar se a indignação generalizada está na escala certa, se os castigos que se reclamam são devidos.

Algumas semanas depois do encontro no Central Park, um homem de Seattle chamado Karlos Dillard postou no Twitter um vídeo de dois minutos que apresentou como uma espécie de continuação. Ele disse que uma “Karen” (gíria que se refere a uma mulher branca mimada, termo que a irmã de Christian Cooper também usara) lhe dera uma fechada no trânsito berrando ofensas racistas. Tinha até o mesmo enquadramento que o vídeo da Ramble, embora houvesse se passado na frente do prédio da mulher, até onde Dillard, homem negro, disse que a seguira para exigir respostas.

“Não entendo o que está acontecendo”, berrou ela nos segundos de abertura do vídeo, as mãos tremendo enquanto tentava cobrir o rosto.

“Você me cortou no trânsito e agora está se fazendo de vítima”, disse Dillard enquanto fazia uma panorâmica do prédio da mulher. “Pessoal, essa é a placa do carro. Ela mora aqui. O endereço é esse.”

Ela se colocou na frente da placa do veículo, implorando que ele parasse de gravar. Dillard fez uma pausa como se parasse para pensar e, berrando para toda a rua ouvir, exigiu que ela pedisse desculpas por tê-lo chamado de nigger. Ela berrava, mal se dando conta do que queria dizer: “Você vai acabar com a minha vida e nem me conhece”. Enquanto ela chorava na calçada, ele disse que queria um pedido de desculpas. Em meio às negativas, a mulher soltou: “Meu marido é negro”.

O vídeo de Dillard viralizou instantaneamente, compartilhado por mais de 100 mil e assistido mais de 10 milhões de vezes. Os usuários censuraram a mulher, exigiram que ela perdesse o emprego, fizeram circular informações particulares a seu respeito. Muitos expressaram euforia. “LMAOOOOOOO como ela é dramática”, escreveu uma pessoa, usando uma

sigla típica da internet para gargalhadas. [5] “Mostrem tudo dessa aí.” Outros localizaram seu marido e espalharam seu nome e foto em resposta ao que alegaram ser problema de homens negros que apoiam mulheres brancas e racistas. Muitos dos comentários mais furiosos vieram de usuários brancos — talvez sinceros, talvez exibicionistas, talvez as duas coisas.

Dillard se agarrou à fama e montou um site que vendia camisetas e moletons com falas do vídeo. Depois, alguém descobriu que ele já postara vídeos nos quais confrontava mulheres com acusações de racismo que rendiam negativas confusas, causadas pelo medo. Ao menos uma delas havia entrado com uma medida cautelar contra ele. Em outro vídeo antigo, Dillard se gabava de ter inventado acusações de racismo. “Foi mentira, inventei na hora”, disse. “O nome disso é ‘armando a arapuca'.” Em um terceiro vídeo, ele dizia ter votado em Trump. Alguns jornalistas entrevistaram Dillard, que aparecia confuso e incoerente, não um mestre da manipulação ou um gênio cínico. Ele havia simplesmente aprendido, depois de algumas tentativas, qual era a combinação de palavras e imagens que lhe rendiam validação e visibilidade na maior máquina de indignação da história. As redes fizeram o resto.

Foi apenas uma digressão no meio de um ano no qual, fora isso, ativistas sérios dirigiram a máquina da indignação da internet para fins mais dignos. Mas a máquina não era deles. Embora parecesse gerida pela vontade coletiva dos participantes, na verdade era gerida pelo Vale do Silício, cujos sistemas foram projetados não para promover o progresso da sociedade ou para a distribuição igualitária da justiça, mas para maximizar nosso tempo no site e fazer dinheiro.

Na política, os resultados raramente privilegiaram o progresso. Quando dois pesquisadores analisaram 300 milhões de tuítes disparados durante a campanha presidencial de 2012, descobriram que tuítes falsos sempre

ultrapassavam os verídicos. [45] Segundo o alerta dos pesquisadores, os boatos e as mentiras favoreceram ou incentivaram a raiva do outro lado, ampliando a polarização que já era um dos males mais graves que a democracia norte-americana encarava. A discórdia resultante estava abrindo espaço para oportunistas. Um dos piores condutos da desinformação no Twitter durante a eleição, descobriram eles, era uma personalidade da TV que até então era uma figura desimportante: Donald Trump. Ainda assim, a provocação viral, não importava a amplitude com que proliferasse, exercia, por conta própria, uma influência que ia só até ali. Trump havia dominado o Twitter, mas pouco além dele. Se as plataformas não tivessem passado por mudanças, essas ondas de indignação e conflito, com toda a sua potência de distorção, às vezes de destruição, podiam ter marcado o ápice do impacto das mídias sociais. Mas um conjunto de avanços tecnológicos aumentaria o poder da plataforma a tais extremos, e em ritmo tão acelerado que, nas eleições seguintes, o mundo inteiro seria refeito à sua imagem.

OceanofPDF.com