A máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo

Atrito

irmão. [50] Embora as chances de o processo vingar sejam poucas, ele representa a noção de que a cumplicidade aparente do Vale do Silício na desintegração do país desde 2020 não podia ser ignorada — uma constatação que, em questão de horas após o crime de Carrillo, já havia começado a chegar aos próprios funcionários das empresas.

 

Atrito

Na segunda-feira, 1o de junho, uma semana depois do assassinato de George Floyd e três dias após o ataque de Carrillo, centenas de funcionários do Facebook deixaram mensagens de ausência temporária, proclamando que, por um dia, se recusavam a trabalhar. Alguns assinaram petições exigindo dos chefes mudanças no contingente e nas políticas. A novidade era que muitos condenavam o patrão em público. “A inércia do Face book em derrubar a postagem de Trump que incitou violência me causa vergonha de trabalhar aqui”, tuitou a engenheira Lauren Tan. “Isso não está certo.

Silêncio é cumplicidade.” [51]

A função da paralisação era nominalmente se manifestar contra a recusa do Facebook, alguns dias antes, de derrubar a postagem de Trump que ameaçava mandar a Guarda Nacional atirar nos manifestantes por justiça racial. Mas até isso foi, como muitos disseram, apenas a afronta final. Em uma época de violência crescente e desinformação letal, o Vale do Silício, depois de recrutar os engenheiros mais talentosos do mundo com a promessa de que eles ajudariam a salvar o mundo, parecia estar estimulando, até guiando, males sociais que ameaçavam rasgar os Estados Unidos ao meio, tal como haviam feito em Mianmar e no Sri Lanka. Como se quisesse reforçar o argumento dos funcionários, no dia da paralisação, a pauta dominante no Facebook era a desinformação que atribuía o duplo homicídio de Carrillo ao Black Lives Matter.

A paralisação marcou o início de uma disputa pública e crítica entre os líderes do Vale e uma aliança, em grande parte inédita, que se levantou contra eles: seus próprios funcionários, seus próprios anunciantes, ativistas de destaque nos direitos civis e, mais tarde, lideranças do Partido Democrata. Era uma situação categoricamente diferente de enfrentar analistas externos ou programadores dissidentes que, até então, vinham liderando as críticas ao Vale. Era um desafio significativo aos principais interesses comerciais do Vale, que eram apresentados, segundo seus participantes, em nome de um mundo que cada vez mais via essas empresas como grande ameaça.

Os receios quanto à desinformação nas eleições vinham crescendo fazia meses. Em fins de maio, no dia após o assassinato de Floyd, Trump havia postado uma enxurrada de mentiras em oposição às políticas de voto antecipado na Califórnia, tendo escrito: “Vai ser uma Eleição Armada”. Depois de anos viabilizando Trump, o Twitter afinal agiu. Mais ou menos. A plataforma anexou uma caixinha dizendo “Conheça os fatos”, com link para uma página à parte que delicadamente fazia a checagem das afirmações do presidente. Foi um gesto, acima de tudo, simbólico.

Após a paralisação do Facebook, em um lenitivo aos funcionários, Zuckerberg anunciou que apoiava o BLM . Mas, no mesmo dia, a postagem mais popular da plataforma foi um vídeo de Candace Owens, personalidade de direita, afirmando que “brutalidade policial com motivação racial é

mito” e que George Floyd era “bandido” e “péssimo ser humano”. [52] O vídeo foi assistido 94 milhões de vezes, quase tanto quanto a final do campeonato de futebol americano.

Ao longo de junho, saíram matérias a respeito de Joel Kaplan, o lobista conservador na folha de pagamento do Facebook, ter diluído as políticas da empresa de modo a proteger Trump de regras contra a desinformação, efetivamente estimulando o empenho do presidente em usar a plataforma para pressionar autoridades públicas a reprimir a votação e atrapalhar as

eleições. [53] Para muitos, era prova de que, mesmo com tudo que estava em risco, o Vale do Silício não era digno de confiança para fazer o certo. Grupos de defesa dos direitos civis comandaram uma campanha, Chega de Ódio por Lucro, fazendo pressão em anunciantes para boicotar o Face book.

[54] Várias empresas e agências de publicidade aderiram. Algumas travaram orçamento publicitário da ordem de 100 mil dólares por dia.

É improvável que isso tenha feito algum arranhão nos 80 bilhões de dólares que a empresa fatura por ano com publicidade. Mas a ameaça às contas inspirou algo parecido com uma atitude, e não só no Facebook. Em fins de junho, Facebook e Instagram baniram o Boogaloo de suas

plataformas. [55] O YouTube derrubou vários extremistas brancos, entre os quais Richard Spencer, organizador da Unite the Right — quase três anos

depois do ocorrido em Charlottesville. [56] Talvez o mais significativo seja que o Reddit fechou 2 mil comunidades que declarava terem se envolvido em discursos de ódio, entre elas The_Donald, o ponto de encontro não

oficial da extrema direita na internet. [57] As medidas repressivas foram o ponto de virada, o reconhecimento implícito de que hospedar ódio tinha sido efetivamente uma política de apoio à sua difusão. Nessas plataformas, discursos do bem não iam derrotar naturalmente os do mal. Ainda assim, as remoções aconteceram, como tantas outras, tarde demais. A identidade e o modo de pensar dos insurrecionistas e nacionalistas brancos, junto a dezenas de conspirações e mentiras que lhes davam justificativa, já eram endêmicos, estavam entranhados nas comunidades maiores, do mundo real, nas quais as plataformas os haviam inculcado com tanta eficiência.

Os críticos do Vale continuaram fazendo pressão por mais mudanças. Um programador do Facebook, cujo último dia na empresa por acaso seria 1o de julho, postou uma mensagem de despedida de 24 minutos, na qual alertava: “O Face book está fazendo mal em larga escala”. A empresa estava se “encurralando na nossa ideologia da liberdade de expressão”, disse o programador, ladeado por bonecos de pelúcia e usando uma série de camisetas coloridas do Facebook. “É o nosso fracasso. E o pior é que

sagramos esse fracasso a nossas políticas.” [58]

A ameaça crescente de macular a empresa aos olhos de anunciantes foi o bastante para Zuckerberg e Sandberg se reu nirem, no início de julho, com os grupos de boicote. As lideranças de defesa dos direitos civis saíram irritadas, dizendo aos jornalistas que se sentiram tratadas como crianças, com promessas vazias, e como loucas, com alegações de progresso que pareciam propositadamente desconhecer a tecnologia da própria empresa.

[59] O relato delas soava familiar a qualquer jornalista que já houvesse entrevistado os autores de políticas do Facebook.

Coincidentemente, naquela semana, foi publicada uma auditoria independente das políticas e práticas do Facebook que estava em produção

fazia dois anos. [60] Sob pressão do público devido a seu papel na eleição de 2016 e em polêmicas subsequentes quanto a privacidade, a companhia a encomendara em 2018 de um escritório de advocacia de direitos civis, e vinha exibindo-a desde então como prova de seu compromisso com melhorias. Mas os auditores, a quem se deu o acesso que o Facebook havia sugerido que ia provar que os críticos estavam errados, concluíram que os algoritmos promoviam a polarização e o extremismo, que as políticas de conteúdo deixavam a desinformação eleitoral correr solta e que suas práticas internas não lhes davam sensibilidade perante os males do mundo

real. [61] As acusações estavam longe de ser novidade. Porém, agora levantadas por auditores selecionados a dedo pelo próprio Facebook, baseadas parcialmente em informações internas e feitas não por funcionários dissidentes ou acadêmicos obscuros, mas por uma voz respeitada nos direitos civis, elas tinham peso especial com o público como confirmação oficial que superava tudo que as precedera. O relatório deixou as lideranças do Vale na defensiva: elas podiam tratar Guillaume Chaslot como ressentido ou Jonas Kaiser como equivocado, mas não podiam dar com a porta na cara de advogados de respeito sem correr o risco de promover mais rebelião entre funcionários ou anunciantes.

Por fim, em agosto, Facebook e Twitter fizeram o que até então era impensável: deletaram uma postagem de Trump. Ele havia publicado um vídeo chamando crianças de “quase imunes” à covid. Deixar a saúde de crianças em risco, enfim, fora longe demais. O YouTube fez o mesmo. (As empresas talvez esperassem que isso serviria de tiro de alerta, mas não mudou o comportamento do presidente. Dois meses e muitas mentiras depois, elas viriam a derrubar uma de suas postagens pelo mesmo motivo.) Nesse tempo todo, Trump continuou a se beneficiar da promoção algorítmica, cujo valor excedia em muito o peso de qualquer puxão de orelha. Seus números de engajamento no Facebook superavam os de Joe Biden em quarenta para um em setembro, quando Trump ficava para trás nas pesquisas — mais uma prova de que as plataformas não refletiam a

realidade, mas criavam a sua. [62]

No mesmo mês, os Estados Unidos estavam cambaleando em direção a uma eleição na qual a própria democracia parecia em risco. Trump e alguns de seus aliados insinuaram que iriam intervir contra a votação por correio, a qual se esperava fosse favorecer o Partido Democrata. Também sugeriram que a maioria conservadora na Suprema Corte fosse revogar a perda nas urnas. E que talvez eles se recusassem a entregar o poder. Espalharam-se temores de repressão a eleitores durante a eleição e de violência vigilantista logo após. Nancy Pelosi, líder da Câmara, lamentando a penetração da desinformação do QAnon no Facebook, disse: “Não sei como o comitê de diretores do Facebook ou seus funcionários de escalão mais alto conseguem se olhar no espelho. Está evidente que eles já optaram. Seu plano de

negócios é lucrar com veneno, e é esse o caminho que escolheram”. [63]

Sob pressão, o Facebook anunciou naquele mês que iria barrar candidatos de declarar vitória falsamente e que derrubaria quaisquer postagens que citassem a covid para desincentivar a votação presencial. Também impôs uma penalidade visivelmente mais leve para uma das táticas prediletas de Trump: “Ao conteúdo que tentar deslegitimar o resultado da eleição” ou “a legitimidade de métodos de votação” seria apenas fixado um

“rótulo informativo”. [64] Facebook e Instagram também não aceitariam novos anúncios políticos na semana anterior à eleição, inviabilizando qualquer tentativa de encaixar conteúdo que manipulasse eleitores nas plataformas no último minuto. O Instagram foi mais longe. Até a eleição acabar, usuários nos Estados Unidos que seguissem uma hashtag, independentemente do assunto, não conseguiriam mais organizar as postagens pelas mais recentes. “É o que estamos fazendo para reduzir a disseminação em tempo real de conteúdo potencialmente prejudicial que

pode surgir perto da eleição”, afirmou uma declaração à imprensa. [65] As duas mudanças, embora pequenas, cruzavam um limiar importante: frear os recursos básicos dos produtos para a melhoria da sociedade.

A um mês da eleição, o Twitter anunciou as mudanças mais substanciais

de qualquer plataforma. [66] Contas de muitos seguidores, entre os quais políticos, teriam regras mais rígidas que outras — o oposto das dispensas especiais do Facebook. Postagens que desafiassem as regras seriam apagadas ou ocultadas por um rótulo de alerta. Trump já tinha catorze desses rótulos, que serviam como checagem e como redutores de velocidade, diminuindo a facilidade com que usuários podiam ler ou compartilhar as postagens. O Twitter mais tarde barrou em definitivo usuários que retuitaram ou curtiram as postagens injuriosas de Trump. Com esses elementos de socialização excluídos, parece que o impacto dos seus tuítes teve uma queda considerável.

O Twitter também acrescentou um elemento em que peritos externos insistiam fazia tempo: atrito. Normalmente, usuários podiam compartilhar uma postagem apertando “retuíte” e promovendo-a instantaneamente nos seus feeds. Agora, apertar “retuíte” levantaria um aviso instigando o usuário a acrescentar uma mensagem pessoal. Forçava uma pausa, reduzindo o efeito de compartilhar. A escala da intervenção foi leve, mas seu efeito foi significativo: os retuítes caíram 20% no geral, afirmou a empresa, e a disseminação de desinformação foi junto. O Twitter havia diminuído o engajamento de propósito, contra seu próprio interesse financeiro junto a décadas de dogma do Vale do Silício insistindo que mais atividade online só poderia ser benéfica. O resultado, aparentemente, seria deixar o mundo menos mal informado e, portanto, mais rico.

O mais surpreendente foi que o Twitter desativou temporariamente o algoritmo que impulsionava sobretudo tuítes virais ao feed de notícias dos usuários mesmo que eles não seguissem o autor do tuíte. A empresa chamou a iniciativa de “brecar” a viralização, um “sacrifício válido para

incentivar a amplificação mais pensada e explícita”. [67] Foi, até onde pude ver, a primeira e única vez que uma grande plataforma desligou seu algoritmo voluntariamente. Era a confissão tácita do tipo que as empresas haviam evitado por muito tempo: que seus produtos poderiam ser um perigo, que as sociedades ficariam mais seguras se aspectos desses produtos fossem desativados e que estava a seu alcance fazer uma coisa desse tipo.

Então começou a repressão ao QAnon. Boicotes parciais no início daquele ano, derrubando contas ou grupos selecionados, haviam se mostrado ineficientes. Por fim, Facebook e Instagram impuseram boicote total ao movimento em outubro, tendo o Twitter abatido aos poucos contas

vinculadas a Q. [68] A CEO do YouTube, Susan Wojcicki, disse apenas que a plataforma iria tirar vídeos que acusavam pessoas de envolvimento em

conspirações ligadas a Q com fins de intimidação ou ameaça. [69] A pequena modificação na regra foi a única mudança significativa de políticas do YouTube na corrida para a eleição. Mas, tal como tinha acontecido com o Boogaloo e tantas outras tendências sombrias, era tarde demais. Depois de anos de comunidades extremistas como essas se incubarem nas plataformas e se cultivarem até virar movimentos de massa, os embargos apenas as realocaram a plataformas mais privadas, onde tinham liberdade para cair ainda mais no extremismo. Mesmo nas plataformas tradicionais, muitos continuaram à espreita de algum modo. Também em outubro, agentes do FBI prenderam vários membros do Boogaloo que estavam estocando armas e explosivos em um complô para raptar e talvez matar o governador de Michigan. Eles haviam se organizado em parte em um grupo privado do Facebook.

A natureza mais ampla das plataformas continuou sem mudança. Nas semanas que antecederam a eleição, o Facebook se encheu de convocações à violência com mira nos inimigos de Trump. Pesquisadores digitais identificaram pelo menos 60 mil postagens convocando atos de violência

política: [70] “Os democratas terroristas são o inimigo e todos têm que morrer”, “Da próxima vez que virmos o SChiff, que seja pendurado na corda #morteaoschiff”. (Adam Schiff é o deputado democrata que comandou a primeira iniciativa de impeachment contra Trump.) Outros 10 mil convocavam uma insurreição armada se Biden vencesse. Dois milhões e setecentas mil postagens em grupos políticos, um número assustador, instigavam violência em termos mais gerais, tais como “matem” ou “atirem”.

Era exatamente o que eu tinha visto no Sri Lanka e em Mianmar — um grito de torcida crescente por sangue, explícito e em uníssono —, que em seguida fez essas sociedades desabarem nos atos de violência que haviam ameaçado praticar, e em grande número. Lembrei-me de Sudarshana Gunawardana, o ministro do governo cingalês que, assistindo à incitação propagada pelo Facebook tomar conta de seu país, tinha disparado alertas inúteis aos representantes da empresa, que não o ouviram. Depois que os distúrbios diminuíram, ele lamentou: “Somos uma sociedade, não somos apenas um mercado”. Agora era a vez de os norte-americanos implorarem ao Vale do Silício, que pouco ouvia, que lembrasse que não somos apenas um mercado a ser explorado, antes que fosse tarde demais.

No dia da eleição, dois candidatos Q conseguiram vaga no Congresso: Lauren Boebert, do Colorado, e Marjorie Taylor Greene, da Geórgia. Greene também fazia eco às afirmações de Alex Jones de que tiroteios em escolas eram armação e, lembrando que a violência política era central à causa, certa vez havia curtido uma postagem do Facebook pedindo que Barack Obama fosse enforcado e outra que instigava “um tiro na cabeça” de

Nancy Pelosi, líder do Congresso. [71]

A ascensão do QAnon, contudo, foi ofuscada devido a outro acontecimento: Trump perdeu. Dois dias depois da eleição, quando a maior parte da imprensa ainda não comunicara o resultado formalmente, o Facebook anunciou que havia removido um grupo por motivos de desinformação eleitoral. Com o nome “Stop the Steal” [Chega de roubalheira], o grupo afirmava que a suposta derrota de Trump na verdade era um golpe de forças sombrias. A página angariou 338 mil membros em menos de um dia, um dos maiores crescimentos na história do Facebook.

[72] Ela se encheu de conspirações, convocações à violência e especialmente invocações do QAnon.

Ainda assim, com Trump descido do salto e prestes a terminar o mandato, talvez o extremismo online que ele tanto incentivara se dissipasse. Afinal de contas, o Vale do Silício sempre havia dito que suas plataformas apenas refletiam opiniões e fatos do mundo real. Talvez o pior tivesse passado.