A máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo
4. A tirania dos primos
A justiça da internet
Em setembro de 2015, menos de dois meses depois de Ellen Pao ser demitida do Reddit, Walter Palmer, um dentista de 55 anos que vivia no subúrbio de Minneapolis, se reuniu com dois jornalistas para insistir que não estava se escondendo. “Tenho estado com outras pessoas, com a família, com amigos. O local não importa”, disse Palmer, ladeado por um advogado e uma assessora de imprensa. “No início havia questões de
segurança com relação à minha filha e minha esposa.” [1] Naquela que, segundo ele, seria sua única entrevista, Palmer lamentou o movimento global — o primeiro de um novo tipo de ira coletiva que arrasa vidas alheias e que logo se tornaria lugar-comum — que rondava sua família e funcionários, os quais, sublinhou, eram inocentes. “Não entendo esse nível de desumanidade, de vir atrás de gente que não tem envolvimento nenhum”,
disse. [2]
Seis semanas antes, a BBC publicara um pequeno texto informando que
um caçador não identificado tinha matado um leão no Zimbábue. [3] Não era, em si, algo incomum nem ilegal. Mas os guias do caçador haviam atraído o leão de uma reserva nas redondezas, onde matar o animal teria sido ilegal. E o bicho tinha uma crina negra peculiar, que o tornara conhecido entre os visitantes do parque, que o chamaram de Cecil.
Uma das subseções mais famosas do Reddit na época era a de notícias internacionais, um repositório de informes do planeta e boatos de agências de notícias. Com usuários a postar mais de mil links por dia, subir às primeiras colocações da página geralmente exigia uma descrição pensada para provocar emoções fortes. Um usuário de nome Fuckaduck22, que postou a matéria de Cecil, anexou apenas este título: “O leão Cecil foi esfolado e decapitado. Hwange — o leão, muito famoso e fotografado, chamado afetuosamente de Cecil, foi morto por esporte, por caçadores próximos a Hwange, Zimbábue, na semana passada”.
Milhares de usuários deram upvotes no artigo até ele chegar no topo da página principal do site, o que significava um público de milhões. Nem todos se mostravam bravos. Cecil estava perto do fim da expectativa de vida do leão macho, como ressaltou um deles, enquanto outros observaram que as caçadas por esporte financiam iniciativas de conservação. Mas as seções de comentários do Reddit são classificadas pela popularidade de cada comentário. E o que subiu ao topo foram as manifestações de indignação:
daqui a pouco os leões estarão extintos da natureza, porque você precisa
MUITO inflar sua ideia debilitada do que é ser macho.
quero a cabeça daquele caçador de troféu. Covarde filho da puta.
Seguindo inconscientemente os estímulos da plataforma, os usuários a encheram de postagens sobre Cecil, intensificando, a cada rodada, o lado emocional. A morte do leão foi uma perda. Depois, um golpe devastador para quem ama os animais. Depois, um crime de deixar qualquer um furioso. O caçador era um gordo covarde. Depois, um assassino manchado de sangue. E, depois, foi dito que ele era assolado por uma “doença mental ou algum tipo de psicopatia”.
No terceiro trimestre de 2015, jornalistas e editores estavam aprendendo a buscar a viralização nas mídias sociais, o que podia multiplicar seu público várias vezes. Isso significava que, quando os usuários do Reddit levaram Cecil ao topo das listas de mais lidos em vários veículos, eles foram fundo em um incidente que, de outro modo, teriam ignorado. Revelou-se que o caçador até então anônimo era Palmer, o dentista. Ainda assim, a matéria parecia inofensiva — até que ela caiu no Twitter.
Os fundadores do Twitter haviam lançado o produto em 2006, basicamente como um serviço de mensagens em grupo. O usuário mandava a mensagem, a custo zero, para um telefone, que encaminhava a mensagem
para amigos da pessoa. [4] Se você fosse dar uma saída, talvez postasse o nome do bar; amigos que seguissem suas atualizações podiam ir ao seu encontro. As mensagens eram limitadas pelo tamanho de uma frase. Um site bastante básico também registrava as atualizações. Jack Dorsey, em um esboço dos primórdios do serviço, anotou mensagens de amostra como “na
cama” e “vou ao parque”. [5]
Por regra, as postagens eram públicas; por que esconder atualizações anódinas por trás de um muro de privacidade? Essa abertura ganhou maior significado quando, em 2009, cidadãos do longínquo Irã lotaram as ruas para protestar contra uma eleição que, segundo eles, o governo havia fraudado. Conforme as autoridades reprimiram as manifestações, algumas pessoas nas ruas usaram o Twitter para despachar atualizações da barricada. Quando elas perceberam que o mundo estava de olho — e que o escrutínio internacional podia dissuadir, ou ao menos documentar, abusos do governo —, seus tuítes ganharam maior propósito. No meio do tecno-otimismo da era Obama, os norte-americanos trataram aquilo como uma “Twitter
revolution”. [6] Embora a revolução efetiva dos iranianos tenha sido esmagada na mesma hora, o rótulo pegou.
Conforme outros acontecimentos internacionais se desenrolavam ao vivo no Twitter, quem dava bola para o noticiário ou trabalhava com notícias começou a se inscrever. O serviço mudou de mensagens em grupo para uma plataforma com postagens curtas, sempre em público: um microblog no qual milhões transmitiam, discutiam e debatiam as maquinações políticas do dia ou o episódio de Game of Thrones. Mas tudo era filtrado por algo que opera menos como uma faixinha correndo na tela da CNN e mais como o Reddit. Um usuário valida as postagens de outros apertando o botão de curtir ou de retuíte, com isso também trazendo à tona ou suprimindo o conteúdo que mais atrai a vontade coletiva.
Quando a fúria a respeito de Cecil subiu aos 316 milhões de usuários ativos do Twitter, a escala da movimentação se intensificou ainda mais que os extremos do Gamergate. Em um só dia, usuários postaram 672 mil tuítes
sobre o caso. [7] Cerca de 50 mil destes mencionavam Palmer pelo nome e foram vistos num total de 222 milhões de vezes: infâmia numa escala de que, geralmente, só os livros de história dão conta. “Pago mais de 35 mil
libras para ver #WalterPalmer numa luta justa com o rei da selva”, [8] escreveu um usuário, representando uma onda de postagens que expressavam o desejo de ver Palmer se machucar.
Quando o Reddit dava rotatividade à raiva, ela ficava mais ou menos confinada aos nichos da internet geek. Mas o Twitter, em 2015, estava no foco da imprensa e da cultura popular. Fantasias de vingança permeavam aquele que era o equivalente da TV aberta nas mídias sociais, atraindo jornalistas e celebridades. “Espero que #WalterPalmer perca a casa, a
licença para trabalhar & o dinheiro”, [9] tuitou Sharon Osbourne, então estrela de um reality show; Mia Farrow, a premiada atriz, postou o endereço do consultório de Palmer.
Quando as plataformas se tornam um coro consensual de “Peguem essa pessoa”, geralmente a ação vem a seguir. Centenas postaram resenhas negativas a respeito do consultório odontológico de Palmer em sites como o
Yelp, torcendo para que ele perdesse clientes. [10] Em questão de dias, eram tantos tuítes com ameaças de violência que o consultório fechou de vez. (Quando um usuário do Reddit sugeriu que isso poderia prejudicar injustamente funcionários do dentista, 1500 usuários votaram a favor da resposta “Os funcionários vão estar melhor se trabalharem em outro lugar”.)
[11] Placas ameaçadoras apareceram nas portas do consultório. Uma pessoa pichou a casa de Palmer. Ele e a família, talvez cogitando que uma das pessoas que rondavam sua casa pudesse concretizar as ameaças na internet, foram para o que — todos, fora Palmer — chamaram de esconderijo.
Quando Palmer contratou uma assessora de imprensa e se encontrou com jornalistas, mais de 2 mil textos sobre sua caçada já haviam sido postados no Facebook, onde foram compartilhados 3,6 milhões de vezes.
[12] O New York Times publicou um editorial formal lamentando a perda de Cecil; o governador de Minnesota condenou a caçada; Jimmy Kimmel, apresentador de um programa noturno de TV , se emocionou ao vivo. Tudo guiado pela viralização das mídias sociais. Então, um dia, a febre baixou e todo mundo seguiu com sua vida.