A máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo
Mestres do universo
das regras do Facebook. [3] Mas a empresa depende da capacidade delas de contratar e ganhar escala com velocidade para dar conta da expansão global que lhe rende seus bilhões. Mesmo que as firmas desafiem e engambelem o Facebook, seus contratos tendem a crescer. Afinal de contas, quem sofre são apenas os usuários.
Mestres do universo
Há muita coisa que torna a tecnogestão das mídias sociais peculiar. A arrogância, tanto na escala quanto no sigilo. A crença de que a política e as relações sociais são problemas de engenharia. A confiança de que os engenheiros vão resolvê-los. A ingenuidade em pensar que conseguiram, ou que conseguiram o suficiente para seguir com a expansão. Assim como muitas das características que definiam as plataformas, tudo remontava aos imperativos do capitalismo do Vale do Silício. No caso, a uma mudança drástica e recente naquele modelo.
Em fins dos anos 2000, a relação de poder entre duas das classes mais importantes do Vale — investidores e fundadores de startups — virou de uma hora para a outra. Desde as primeiras oficinas de transistores, quem detinha o poder eram os investidores. Os fundadores precisavam de muito dinheiro para fazer o primeiro projeto, mais um tanto para conseguir o primeiro cliente e mais ainda para dar lucro. Para cobrir esses custos e para garantir que sua aposta rendesse, os investidores ganhavam prerrogativa de sobra para supervisionar o processo.
“Antes, o entendimento era que você trazia o investidor de risco para ser… o termo que se usava era ‘um adulto presente'”, explicou Leslie Berlin, historiadora da Universidade Stanford. Os investidores empossavam gerentes sêniores, o conselho corporativo e até um CEO tarimbado para supervisionar o fundador na sua própria empresa. Quando John Doerr investiu 12,5 milhões de dólares no Google, fundado e gerenciado por dois alunos de pós-graduação, ele escolheu Eric Schmidt, um executivo veterano com vinte anos a mais que os dois, para ser o chefe.
A era da computação nas nuvens mudou tudo. Agora que qualquer fundador podia lançar um negócio na internet e conseguir seus primeiros mil clientes sozinho, e agora que investidores estavam procurando startups de alto risco, fogo rápido, growth-hacking , eles precisavam fazer mais apostas na mesma medida em que o fundador precisava menos deles. De repente, investidores passaram a competir para se apresentar aos fundadores, e não o contrário.
“Quando você tem investidores de risco competindo para financiar uma pessoa, contra empreendedores de joelhos implorando por dinheiro, a dinâmica de poder é totalmente diferente” daquela em que os fundadores de startups cada vez mais definem os termos, explicou Berlin. Um jeito garantido de o investidor tornar a proposta mais atraente: Chega de adulto presente. Chega de CEO empossado acima da cabeça dos fundadores. No caso do Facebook, nada de conselho independente. “É uma mudança fundamental em todo o entendimento do que o investidor de risco devia fazer”, explicou Berlin.
Foi o que lançou a era do CEO -hacker-fundador de 22 anos vestindo moletom. E da equipe executiva com amigos do fundador. Da cultura corporativa da ousadia, cheia de si, desafiando os adultos de terno. “Por que a maioria dos mestres do xadrez tem menos de trinta anos?”, perguntou Zuckerberg uma vez a um salão de 650 aspirantes a fundadores, na incubadora de startups de Paul Graham. “Os jovens são mais inteligentes.”
[4] Ele insistiu com a plateia de aspirantes a executivos a contratar conforme havia dito.
O próprio Graham insistiu com os colegas investidores a se inclinar para os jovens, tendo dito em uma palestra: “Em software, você prefere investir
no aluno, não no professor”. [5] Experiência comercial, experiência de vida e diplomas eram desvantagens, não vantagens. Investir no jovem, complementou ele, também tendia a ser mais barato. No ano anterior, a média de idade dos fundadores em seu programa de startups era 23 anos. O resultado, disse Berlin, era “muito poder nas mãos de gente muito jovem que acha que quem está ao redor não tem nada a oferecer”.
Muitos surgiram na explosão pontocom, uma época de sus hi men e massagistas à disposição na firma. As regalias eram pensadas para resolver
uma questão de mão de obra. [6] A Califórnia proíbe cláusulas de não concorrência, de modo que o funcionário pode mudar de emprego a qualquer minuto. As empresas ofereciam sedes com spas de luxo e serviços de mordomo para manter seu pessoal. Mas o estilo de vida pode ser uma distorção. Se todos vivemos como reis e presidentes, então somos tão importantes quanto eles, não?
As culturas empresariais, ao absorver esse meio ambiente, ganharam um forte fermento ideológico: crie projetos para nós e você não vai só faturar uma grana — você vai salvar o mundo. A guerra armamentista das missões empresariais se intensificou até que, no final dos anos 2000, praticamente todo empregador na cidade estava dizendo aos funcionários que projetar aplicativos os deixava, em termos de importância, em algum ponto entre as Nações Unidas e a Liga dos Super-Heróis. Era uma cultura em que tomar as rédeas da governança global não parecia uma coisa tão esdrúxula.
Os egos ganharam um estímulo ainda maior com uma prática de contabilidade da era da internet: remunere seus primeiros funcionários com opções de compra de ações. As startups agressivas, convidadas a transformar um capital de arranque de 100 mil dólares em uma base de um milhão de usuários, ofereciam, no lugar de salários competitivos, o que eram, na prática, promissórias. Se a chama da empresa se apagasse, como aconteceu com a maioria, as opções de compra não valeriam nada. Se a empresa tivesse sucesso, o que podia significar a Oracle comprá-la por 300 milhões de dólares, os primeiros funcionários podiam se aposentar aos 26 anos, milionários. Para quem se dava bem, a grana era como uma afirmação do que os investidores e funcionários sempre lhes haviam dito: você é diferente dos outros. Mais esperto, melhor. Mestre legítimo do universo.
A nova era também promoveu outra classe de investidores. Capitalistas de risco apoiados por instituições, como John Doerr agindo em nome da Kleiner Perkins, “passaram alguns anos em regime de contenção de despesas depois que a bolha pontocom estourou”, escreveu Roger McNamee, um dos primeiros investidores do Facebook, em seu livro de
memórias. [7] “Investidores-anjo aproveitaram o vácuo — figuras independentes, a maioria deles ex-empreendedores e executivos”, escreveu. Eram pessoas que entendiam do esquema, privilegiadas e ricas, que entravam com o próprio dinheiro e não tinham uma firma controlando a carteira nem acionistas para contentar. Tanto investidor quanto fundador estavam mais livres para fazer o que bem quisessem. A era das barreiras de proteção estava chegando ao fim.
Entre os primeiros e mais influentes investidores-anjo estavam os cofundadores do PayPal, entre eles Peter Thiel, o arquiconservador que havia dito que o valor da diversidade era um “mito” e que o hacker reacionário “com inépcia social à Asperger” dava o melhor presidente de startup. “O impacto deles transformou o Vale do Silício”, escreveu McNamee, e o dinheiro deles financiou boa parte da era das mídias sociais.
[8] Mas o “sistema de valores” que eles trouxeram, segundo McNamee, “pode ter contribuído para a cegueira das plataformas de internet diante de males que resultaram do sucesso deles”.
A política dos fundadores do PayPal tendia fortemente para o libertarismo: eram darwinistas sociais, ciosos do governo e certos de que o mercado sabe mais. Thiel levou isso a tal extremo que, em 2009, anunciou:
“Deixei de crer que liberdade é compatível com democracia”. [9] Não se podia mais confiar na sociedade como “demos não pensante que guia a dita democracia social”, escreveu, usando o termo grego para coletividade dos cidadãos. Só “empresas como o Facebook” podiam resguardar a liberdade. E só se fossem desatreladas da “política”, que pelo visto significava regulamentação, responsabilização pública e possivelmente o estado de direito.
Thiel apoiava projetos pensados para viabilizar cidades flutuantes e colonização espacial com gerência corporativa, tudo sem a jurisdição de
nenhum governo. [10] Essas fantasias científicas só acirravam uma ideia que era antiga no Vale. Engenheiros e fundadores de startups são os que sabem das coisas. Era responsabilidade deles derrubar o status quo e instalar uma tecnoutopia, tal como os autores de manifestos dos anos 1990 haviam previsto. Se governos e jornalistas se opusessem, eram apenas as antigas