A máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo

8. Os sinos da igreja

 

Ameaça ao status

Foi durante uma entrevista com Gema Santamaría, pesquisadora de vigilantismo e violência que investigara incidentes estranhos no seu país, o México, que percebi que passaria anos tentando entender como esse padrão se desenrolava, mesmo que de modo menos óbvio ou com efeitos menos óbvios, mundo afora, talvez até nos Estados Unidos, onde os paralelos com a ascensão do trumpismo ganhavam visibilidade. No México, ela vinha descobrindo surtos similares aos que pesquisadores de outros países

estavam documentando. [1] Uma região suburbana de Cancún que irrompera

em violência devido à desinformação. [2] Um vilarejo familiar tranquilo que, depois de criar uma página no Facebook com notícias da comunidade, tinha se tornado um viveiro de paranoia e boataria, onde haviam amarrado uma dupla de pesquisadores de opinião que estavam de passagem — acusados de fazerem parte de um complô para roubar órgãos de crianças —

e ateado fogo nos dois. [3] Então, em outro vilarejo, o mesmo padrão se repetira, desde detalhes do boato até o método de assassinato, dessa vez tomando a vida de dois homens que se encontravam na cidade para comprar

mourões. [4]

“As mídias sociais desempenham o papel que os sinos da igreja já tiveram”, disse Santamaría. “É assim que as pessoas sabem que vai acontecer um linchamento.” As plataformas, ela explicou, reproduzem mecanismos muito antigos que levam uma comunidade a embarcar na violência coletiva. O linchamento, quando um grupo segue a indignação moral até o ponto de ferir ou matar uma pessoa — a tirania dos primos em

ação —, é um impulso comunal. [5] Uma demonstração pública do que acontece com aqueles que transgridem a tribo.

“A meta é a comunicação”, disse Santamaría a respeito do linchamento. Os boatos falsos que se espalhavam com frequência antes da violência coletiva, acreditava, eram a dica de que as mídias sociais haviam aprendido a reproduzir o vetusto processo. Mais do que apenas provocar posturas preexistentes, as redes sociais criavam essas posturas. Os boatos não surgiam ao acaso. “Eles têm lógica”, disse ela. “Não miram qualquer um.” Os boatos, isso sim, avivavam uma ideia de perigo coletivo em grupos dominantes, que sentiam que seu status estava em risco — as maiorias furiosas e temerosas quanto a mudanças que ameaçavam erodir sua posição na hierarquia. Como as forças impessoais da transformação social são, para a maioria das pessoas, tão combatíveis quanto chuvas e trovoadas, as redes sociais entraram em cena para providenciar um vilão mais corpóreo e vencível: “Finalmente uma coisa da qual você tem controle”, disse Santamaría. “Você pode fazer algo a respeito.”

Em Mianmar, as plataformas sociais privilegiaram os temores da maioria budista dominante de longa data, os que sentiam, após a chegada da democracia, uma mudança no status quo que os privilegiava fazia muito tempo. Na Índia, era a maioria hindu, com fundamentos parecidos. Em 2018, jornalistas da BBC no norte da Nigéria encontraram o mesmo padrão:

a maioria fulâni contra a minoria berom, tudo no Facebook. [6] Nos Estados Unidos, as redes haviam encontrado o repúdio branco contra a imigração, o Black Lives Matter, a visibilidade crescente de muçulmanos, a recalibragem cultural com vistas a maior tolerância e diversidade. Os boatos mais compartilhados, ressaltou Santamaría, geralmente tinham a ver com reprodução ou população. O Sri Lanka e os comprimidos que esterilizavam. Os Estados Unidos e o complô progressista para substituir brancos por refugiados.

O elemento de definição que perpassava todos os boatos era uma coisa mais específica e perigosa do que a indignação generalizada: um fenômeno chamado ameaça ao status. Quando os membros de um grupo social dominante se sentem em risco de perder sua posição social, pode-se ter uma

reação feroz. [7] Eles começam a ter nostalgia de um passado, real ou imaginado, em que se sentiam seguros na dominância (como no slogan “Make America Great Again” da campanha de Donald Trump). Ficam altamente sintonizados com qualquer mudança que tenha alguma ligação com sua situação: o perfil demográfico mutante, as normas sociais que evoluem, os direitos das minorias que se alargam. E ficam obcecados em pintar as minorias como gente perigosa, invocando notícias e boatos para confirmar sua crença. É uma espécie de mecanismo de defesa coletivo para preservar o domínio. Em linhas gerais, é algo inconsciente, quase animalista, e por isso facilmente manipulado por líderes oportunistas ou por algoritmos em busca de lucro.

O problema não é só que as mídias sociais aprenderam a provocar indignação, medo ou conflitos tribais, todas posturas que se alinham com ameaça ao status. Na internet, conforme postamos uma atualização que fica visível para centenas ou milhares, carregada com as emoções grupais que as plataformas incentivam, “nossas identidades de grupo ficam mais salientes” do que nossas identidades individuais, como William Brady e Molly

Crockett escreveram em seu artigo sobre os efeitos das mídias sociais. [8] Não nos tornamos apenas mais tribais, nós perdemos nossa noção do eu. É um ambiente, afirmam eles, “propício para o estado psicológico de desindividuação”.

A definição resumida de “desindividuação” é “comportamento de manada”, embora seja algo mais comum do que participar de uma manada ou turba. Você pode desindividuar quando está na arquibancada de uma competição esportiva ou cantando em coro na igreja, entregando parte da sua vontade à do grupo. O perigo surge quando essas duas forças se misturam: a desindividuação, com seu poder de neutralizar o discernimento individual, e a ameaça ao status, que pode provocar agressão coletiva em escala assustadora.

Lembrei de uma conversa com Sanjana Hattotuwa, o fervoroso pesquisador digital que havia acompanhado o ódio digital no Sri Lanka. “O câncer cresceu a tal ponto que você vê gente comum”, disse. “É perturbador. A radicalização acontece desde muito cedo.” Até crianças com famílias tranquilas, se estiverem ativas em redes sociais, são sugadas e seus mundos e visões passam a ser definidos pela ameaça ao status com que se depararam na internet. “É a iniciação que elas têm nas relações da comunidade”, disse. “E é de ódio. É muito, muito ruim.”