A máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo
12. Infodemia
Não abrace um vacinado
Dois anos antes de um novo e estranho vírus surgir na China, um funcionário da Organização Mundial de Saúde (OMS ) chamado Andy Pattison, que é suíço, apresentou a seu chefe um plano para uma
eventualidade exatamente como aquela. [1] As mídias sociais haviam se tornado um vetor para desinformação de saúde, disse Pattison a Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS . Relatórios de trabalhadores da saúde em desespero no Brasil e em outros lugares tinham deixado claro que as plataformas seriam um front importante em qualquer emergência de saúde pública. Era necessário iniciar os preparativos.
Tedros concordou e montou um gabinete na sede da agência em Genebra. Como a OMS , tal qual outras agências da ONU , faz grande parte do seu trabalho orientando — e, se o dia for bom, convencendo — governos, a meia dúzia de funcionários do gabinete focou em cultivar laços com as grandes empresas de tecnologia dos Estados Unidos que Pattison considerava seus próprios centros de poder. O avanço foi lento. Eles ajudaram o Pinterest a melhorar seus resultados de busca em pesquisas relacionadas a vacinas. Prestaram consultoria ao Google em um aplicativo de saúde e bem-estar. “Consegui interesse mínimo. Consegui que funcionários do baixo escalão se reunissem comigo, em reuniões curtas”, disse Pattison, acrescentando que havia pouco resultado depois das
conversas. [2]
Então, em 21 de janeiro de 2020, cientistas chineses anunciaram que o vírus, que matara quatro pessoas, estava se espalhando de uma pessoa para outra. Em questão de dois dias, a contagem de mortos subiu para dezessete. Uma semana depois, a OMS declarou emergência global. O gabinete de Pattison ativou seus contatos no Vale do Silício. “Apresentei minha argumentação no nível humano: ‘Voltem às suas empresas, se preparem,
comecem a montar equipes'”, lembra-se de ter dito. [3] Ele organizou conversas entre Tedros e diretores do Face book, do Google e de outras plataformas. Mark Zuckerberg e Sheryl Sandberg sugeriram que a OMS montasse páginas no WhatsApp e no Facebook para postar atualizações e responder a dúvidas dos usuários.
Em 13 de fevereiro, duas semanas depois de a disseminação do vírus da Covid-19 ser declarada emergência global, Pattison chegou à Califórnia para uma reunião com as maiores empresas do Vale do Silício, que aconteceu no Facebook. A vida seguia normal nos Estados Unidos e na Europa, mas a noção de crise já tinha mudado. Havia, contou ele à CNBC no
dia da reu nião, uma “infodemia”. [4] As grandes plataformas sociais, entre as quais Twitter e YouTube, estavam “inundadas de desinformação”, disse.
Postagens no Facebook já vinham ganhando centenas de milhares de interações ao insistir, um mês e meio antes de Trump propagar a mesma alegação do púlpito da sala de imprensa da Casa Branca, que o vírus tinha
cura se você bebesse alvejante diluído. [5] Influenciadores do Instagram explicavam que Bill Gates inventara o vírus para justificar a vacinação
obrigatória. [6] Um viral encaminhado pelo WhatsApp dizia que a CIA
estava estocando alimentos. [7] Vídeos do YouTube atribuíam a culpa pela doença às torres de celular 5G, sugerindo que não havia vírus, e de repente
ganharam milhões de visualizações. [8]
Por insistência de Pattison, as empresas se comprometeram a endurecer algumas regras. O YouTube iria eliminar vídeos que fossem contrários à orientação da OMS . O Facebook enviaria notificações a usuários se tentassem compartilhar uma postagem ligada à covid que os moderadores houvessem assinalado como falsa. As plataformas prometeram a Pattison e ao mundo que tinham aprendido com seus erros. Dessa vez, iam fazer tudo certo.
Enquanto o vírus se espalhava por países inteiros naquelas primeiras semanas, o medo e o isolamento se espalharam junto. Comércio e espaços públicos levantaram tapumes. Uma quietude apocalíptica pairava sobre grandes vias públicas e distritos comerciais, rompida apenas pelas sirenes conforme os hospitais entupiam-se de gente — e, em alguns lugares, pelo ruído macabro de caminhões-frigorífico na frente de necrotérios lotados. Famílias se fecharam em casa como se estivessem se preparando para uma invasão, aventurando-se apenas em visitas tensas ao supermercado, durante as quais, na nossa ignorância coletiva, muitos vestiam luvas ou passavam limpa-vidros em hortifrútis cuja superfície, até onde sabíamos, podia representar contágio fatal. As cidades se reanimavam por um único minuto a cada noite, quando os moradores entocados em apartamentos abriam as janelas para dar vivas aos trabalhadores na linha de frente, mas também, quem sabe, como uma maneira de aproveitar algum senso de comunidade, de proteção entre os números.
Durante as outras 23 horas e 59 minutos do dia, os temerosos ou os solitários podiam recorrer àquela outra janela para o mundo externo: seu computador. Anos de inclusão digital aconteceram da noite para o dia. O
Facebook informou que, em alguns países, o uso aumentou 70%. [9] No Twitter, 23%. Uma empresa de serviços para internet estimou que a parcela do tráfego mundial no YouTube em relação a toda a internet saltou de 9%
para 16%. [10] O uso geral de internet cresceu 40%, disse a mesma empresa, o que indica que, na realidade, o tráfego do YouTube quase triplicou.
Apesar do empenho de Pattison para preparar as empresas, poucas insígnias de informação checada não tinham como resolver o problema central. As mídias sociais ainda eram uma máquina projetada para distorcer a realidade pela lente do conflito tribal e conduzir usuários a extremos. E a pandemia — o espectro de uma ameaça invisível, onipresente, incontrolável — ativou as mesmas emoções que alimentavam a máquina, em uma escala maior do que qualquer outra desde a criação das próprias plataformas.
Foi como se o mundo inteiro houvesse se tornado um vilarejo afligido pelo zika, cujas mães desesperadas se voltavam a boatos de internet. Ou virado um coletivo de homens jovens e solitários, incitando a desilusão e a anomia uns dos outros até chegarem a uma luta em comum contra um inimigo inventado. As conspirações do coronavírus, ao prometer acesso a verdades ocultas que outros não tinham, levavam os adeptos à sensação de certeza e autonomia em meio a uma crise que havia tomado as duas coisas. Ao pôr a culpa de tudo em um vilão ou complô, elas davam algum sentido, por mais que sinistro, a uma tragédia que não tinha sentido algum. E ofereciam aos usuários uma maneira de tomar uma atitude, primeiro ao compartilhar seu conhecimento secreto com os demais, depois ao contar uns aos outros que iriam se unir contra qualquer culpado que a conspiração apontasse.
A narrativa englobante — o coronavírus é um complô Deles para Nos
controlar — estava por todos os lados em abril. [11] Muitas vezes, as conspirações se originam de usuários comuns com poucos seguidores. Uma postagem no Facebook do missionário de uma cidadezinha acusando Bill
Gates e a China de espalharem o coronavírus para minar Trump. [12] O tuíte de uma esteticista de Houston que listava epidemias do passado lado a lado com os anos de eleição para presidente (as datas estavam erradas) junto à
mensagem “O coronavírus é uma doença inventada pelo homem”. [13] Um vídeo, no YouTube, de dois médicos apresentando afirmações fajutas de que a covid era praticamente inofensiva e que se podia abrir mão das máscaras.
[14] Cada uma dessas postagens alcançou públicos que somavam milhões, tudo graças aos sistemas de promoção das plataformas.
Estavam longe de ser pontos fora da curva. Vídeos de desin formação quanto às vacinas brotaram pelo YouTube, instruindo dezenas de milhões de espectadores a não acreditar na “máfia médica” que queria embutir
microchips nos filhos. [15] O Face book também passou por “um
crescimento explosivo em visualizações antivacina”, [16] segundo um estudo na Nature , conforme o sistema de recomendação da plataforma dirigia grandes números de usuários de páginas de saúde tradicionais a grupos antivacina.
Ao longo de 2020, três forças cresceram em paralelo nas plataformas sociais, das quais as conspirações do coronavírus foram só a primeira. As outras duas se provariam igualmente decisivas: variantes do extremismo online em longa gestação, atendendo por nomes que muitos norte-americanos consideravam ridículos no início daquele ano e que os apavoravam no final; e, à parte, entre norte-americanos de modo mais geral, a indignação ultrapartidária e a desinformação exageradas a ponto de tornar a rebeldia armada não apenas aceitável, mas, para muitos, necessária. Essas três forças se valiam de causas que existiam à parte das redes sociais — a pandemia, a revolta branca contra uma onda de manifestações por justiça social durante o meio do ano e, principalmente, o presidente Donald Trump. Mas as redes sociais impeliram e moldaram essas causas até que, em 6 de janeiro de 2021, elas convergiram em um ato de violência coletivo, organizado via internet, que mudaria a trajetória da democracia norte-americana, talvez para sempre.
Durante todo o segundo trimestre, conforme as mentiras e os boatos sobre a covid se espalhavam, as gigantes das mídias sociais insistiram que estavam tomando todas as medidas que tinham à sua disposição. Mas documentos internos sugerem que, em abril, executivos do Facebook perceberam que seus algoritmos estavam impulsionando desinformação perigosa, que tinham como refrear o problema drasticamente se apertassem um só botão e que se recusavam a apertá-lo por medo de prejudicar o
tráfego. [17] Pesquisadores da empresa haviam descoberto que “compartilhamentos em série” — postagens compartilhadas repetidamente de usuário a usuário — tinham mais chance de ser desinformação. O algoritmo, ao ver essas postagens como bom estímulo viral, impulsionava seu alcance artificialmente. Desligar esse impulsionamento, descobriram os pesquisadores do Facebook, iria frear a desinformação quanto à covid em
até 38%. Mas Zuckerberg cortou o barato. [18] “Mark acha que não podemos abrir mais”, escreveu em um memorando uma funcionária que havia informado o executivo sobre a situação. “Não iríamos lançar se houvesse uma troca material com MSI ”, complementou, usando a sigla para engajamento no Facebook, meaningful social interactions [interações sociais significativas].
Naquele mesmo mês, pesquisadores do Facebook investigaram páginas de “viralidade fabricada”, que repostavam conteúdo que já era viral para atrair seguidores, uma ferramenta benquista entre golpistas, caça-cliques e
traficantes de influência russos. [19] Os trambiqueiros virais, eles descobriram, guiavam 64% da desinformação e 19% do tráfego entre todas as páginas do Facebook — números chocantes, apesar de relativamente fáceis de derrubar. Mas quando os pesquisadores levaram suas conclusões a Zuckerberg, ele “despriorizou” o trabalho. O Facebook manteve as duas conclusões em segredo.
Com as plataformas maquiando tudo como sempre e 6 mil pessoas morrendo de covid por dia, um terço delas norte-americanas, até maio o mundo já estava a postos para Plandemic [Planodemia]. O vídeo, um falso documentário com 26 minutos de duração, foi publicado em 4 de maio no Facebook e no YouTube. Apresentava um cientista pioneiro do HIV (na verdade, um ex-pesquisador desacreditado) conforme revelava, segundo o narrador, “a epidemia de corrupção que põe todas as vidas humanas em risco”. O vídeo afirmava que o vírus havia sido projetado para criar uma justificativa para vacinas perigosas, visando o lucro, que máscaras provocavam doenças, que a hidroxicloroquina, um remédio usado contra malária, era um preventivo contra a covid, e muitas outras alegações.
A rota que o vídeo percorreu até viralizar revelou, e talvez entalhou, as
trilhas das redes sociais pelas quais boa parte do caos de 2020 iria fluir. [20] Começando por grupos de antivaxxers , conspiracionistas no geral e o QAnon, sua história afirmava as visões de mundo de cada um. Ampliava sua noção de que estavam lutando em um grande conflito. E os mobilizava em torno de uma causa: a oposição às forças sombrias por trás da covid. Dentro de uma semana, Plandemic se espalhou entre comunidades de medicina alternativa, a seguir entre influenciadores da área de bem-estar,
depois entre páginas genéricas de estilo de vida e ioga. [21] Circulou de maneira independente por páginas e grupos que se opunham a quarentenas, depois entre páginas pró-Trump, depois entre páginas de qualquer causa social ou cultural que tinham o mínimo alinhamento conservador. Cada ambiente assumiu aquilo como um chamamento às armas, entrelaçado a sua identidade coletiva. Muitos levaram o vídeo ao Twitter e ao Instagram, recomeçando o processo. Em um roteiro que já estava ficando monótono, as empresas de mídias sociais só reagiram depois que agências de notícias
começaram a ligar pedindo que dessem declarações a respeito. [22] Aí já era tarde. Embora tivessem apagado o vídeo em si, suas alegações e convocações já haviam entrado fundo na corrente sanguínea digital e têm ressurgido em conspirações nas redes sociais desde então.
Em agosto, Andy Pattison, o oficial da OMS , concluiu que teria que mudar de tática com o Vale do Silício, e por completo. “Os desafios que tenho com eles são colocar sustentabilidade e maturidade acima do lucro absoluto”, disse a uma publicação sobre desenvolvimento, falando de modo
mais áspero do que faria com veículos de imprensa. [23] “E essa é uma conversa difícil, porque todas querem resultado financeiro.”
Ele se reuniu regularmente com contatos das empresas durante a pandemia. Mas as provas de prejuízo ao mundo real continuavam crescendo. Norte-americanos que usavam Facebook, Twitter ou YouTube, segundo um estudo, tinham mais chance de acreditar que a vitamina C poderia tratar a covid com eficácia ou que o governo havia fabricado o
vírus. [24] Milhões estavam se opondo às máscaras e ao distanciamento social e viriam a recusar vacinas. Médicos informavam que cada vez mais pacientes não aceitavam tratamentos que podiam salvar sua vida com base em algo que tinham lido na internet, tal como as famílias brasileiras assoladas pelo zika haviam feito um ano antes, geralmente citando
conspirações do mesmo tipo. [25] Trump, tanto guiando a ira da internet quanto guiado pela mesma ira que impregnava sua base de apoio na internet, deu estímulo a cada etapa, impulsionando curas fajutas para a doença e prometendo “libertar” estados com medidas de lockdown.>
“Mais provas de uma Planodemia” foi a mensagem que um homem da Califórnia enviou a seu primo em outubro, com um link para um vídeo do TikTok, o tipo de intercâmbio que havia se tornado rotina na vida norte-
americana. [26] “Não abrace nenhum vacinado, sintomas estão diretamente relacionados a excreção de vacina”, respondeu o primeiro, referindo-se a
uma conspiração propagada pelo Facebook. [27] Os dois estavam com covid. Eles passaram dias trocando mensagens entre si, atribuindo seus sintomas a médicos calculistas ou a vacinas, com base em boatos que tinham visto na internet, segundo mensagens que depois foram recuperadas pela escritora