A máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo
O grande despertar
Vídeos de terraplanistas com thumbnails e títulos provocativos apareciam havia muito tempo nas recomendações da plataforma: “200 provas de que a Terra não é uma bola que gira”, “Pistas da Terra plana”, “A Estação espacial internacional não existe!”. As pessoas clicavam por curiosidade. O algoritmo não queria saber por que elas assistiam, só que tinham assistido. Se assistiam, o algoritmo recomendava mais e mais dos vídeos.
O YouTube, ao mostrar aos usuários muitos vídeos em fila, com todos ecoando a mesma coisa, martela com força especial dois dos nossos pontos
fracos na cognição — que a exposição repetitiva a uma afirmação, [52]
assim como a impressão de que a afirmação é aceita de forma ampla, [53] a faz parecer mais verdadeira do que julgamos ser. A maioria dos espectadores, é claro, provavelmente rejeita vídeos de conspiração. Mas, em uma escala de bilhões, esses métodos superam tantas defesas entre os impressionáveis que ganham milhares de convertidos até para a causa mais ridícula. Ou a mais perigosa.
O grande despertar
Em outubro de 2017, dois meses depois da manifestação Unite the Right em Charlottesville, uma postagem curta apareceu no fórum de política do 4chan sob o nome de usuário Q Clearance Patriot [Patriota Acesso Q]. O usuário sugeria ser um oficial da inteligência militar que participava de uma operação para prender os participantes do Pizzagate, a conspiração que alegava que líderes do Partido Democrata comandavam uma rede global de tráfico de crianças. O usuário, que dizia ter acesso de nível Q na segurança do governo, declarou que a extradição de Hillary Clinton já estava “em andamento” e que a Guarda Nacional havia sido mobilizada para se opor a “imensas manifestações de resistência que se organizariam”. Mas foi a segunda postagem que definiu o estilo com que Q seria conhecido:
Mockingbird
HRC detido, não preso (ainda).
Onde está Huma? Siga Huma.
Não tem nada a ver c/ Rússia (ainda).
A postagem seguia com mais vinte frases. Referências apenas enigmáticas o suficiente para os usuários sentirem que estavam resolvendo um código secreto e suficientemente óbvias a ponto de garantir que iam. Como a página de abertura de um livro de espionagem, ele dava o básico de uma trama que ia seguir consistente em milhares de “Q drops” [lances do Q], como os fãs chamavam as postagens. Trump e seus generais estavam se preparando para prender milhares de conspiradores democratas e instituir o regime militar num dia de acerto de contas sangrento e triunfal.
Ao longo dos meses seguintes, a história escalou. Dezenas ou centenas de milhares seriam presos: as elites culturais, financistas, burocratas do “Estado profundo” e espiões. Fazia gerações que esse conluio vinha controlando em segredo a vida norte-americana e ele era responsável por iniciativas que iam do Pizzagate à injustiça da ordem econômica. Agora
eles seriam executados e o National Mall [15] seria convertido em campo de extermínio. Alguns já haviam sido substituídos por sósias, depois de um ataque na surdina dentro do plano de Trump.
Os seguidores conseguiram mais do que uma história. O QAnon, tal como o próprio movimento se denominava, se tornou uma série de comunidades online em que os adeptos se reuniam para analisar cada letra das postagens de Q. Eles buscavam pistas e significados ocultos nos drops e, conforme a exortação de Q, em questões efêmeras da política cotidiana. Seria o comentário improvisado de Trump sobre o Congresso uma referência em código ao expurgo futuro? Seria o fato de ele ter deixado a mão naquela posição esquisita uma sinalização para a 101a Divisão Aérea? Era um jogo infindável, uma atividade de entrosamento coletivo que se projetava no dia a dia.
Há muito tempo grupos extremistas fazem recrutamento prometendo suprir as necessidades de propósito e pertencimento dos adeptos. O ódio às vezes é apenas a cola entre as pessoas. “A camaradagem”, escreveu a socióloga Kathleen Bee, “pode coexistir, até fazer as vezes de ódio, como
motivo para participação em atividades racistas organizadas.” [54] Conspirações, por outro lado, prometem a solução para o sentimento de
impotência em meio a um mundo caótico e incompreensível. [55] Talvez as forças do mercado houvessem roubado seu emprego. Uma doença ou um desastre repentino desestabilizara sua vida. A mudança da sociedade tinha solapado sua noção de como devia ser a ordem social. (Muitos QAnons eram bem de vida, mas haviam entrado em pânico e desnorteamento por causa, digamos, da eleição de um presidente negro ou de um leve
incremento na diversidade.) [56] Teorias da conspiração insistem que os acontecimentos, em vez de serem incontroláveis ou impessoais, são todos parte de um complô oculto cujos segredos você tem como desvendar. Reenquadrar o caos como ordem, dizer aos adeptos que só eles detêm a
verdade, restaura sua sensação de autonomia e de controle. [57] É por isso que adeptos do QAnon costumam repetir entre si o mantra que os alivia: “Confie no plano”.
Pesquisadores do extremismo viriam a especular por muito tempo que muitas ou todas as postagens de Q — 4 mil no total, desenroladas ao longo de três anos — na verdade eram obra de Ron Watkins, um programador de 31 anos que recentemente começara a coordenar o 8chan, o fórum que derivara do 4chan. Watkins inclusive parecia ter se sugerido como autor em um documentário de 2021, ao dizer em uma entrevista: “Foram basicamente três anos de treinamento de inteligência, ensinando aos normies como fazer espionagem”, embora ele tenha complementado: “Mas nunca como Q”. A maioria dos seguidores ignorou provas da identidade banal de Q, embora, ou talvez em certo aspecto, não quisessem saber. A atração estava no que a pauta oferecia, não na sua autoria ou verdade objetiva. Mesmo pesquisadores que acompanharam o QAnon consideravam a identidade de Q quase uma nota de rodapé. Apesar de todo o titerear de Q, eram os usuários, as plataformas e as tendências interconectadas de ambos que orientavam o movimento.
O QAnon, assim como boa parte da tecnocultura que o precedeu, fluiu rápido da marginalidade para plataformas main stream . Sistemas do Facebook e do YouTube o encaixaram no turbilhão das recomendações
extremistas e de conspiração. [58] De início, era apenas mais um nó. Mas suas declarações que escalavam cada vez mais e sua história totalizadora lhe permitiram absorver outras conspirações, tornando-o ponto focal — tal como Alex Jones já havia sido — de comunidades discrepantes, de antivaxxers a sobrevivencialistas preparados para a guerra racial a paranoicos antigoverno. Sua postura política veementemente pró-Trump e convocações abertas à violência o tornavam parceiro natural e, ao fim, presença constante na direita conectada. Acima de tudo, era uma coisa que consumia um tempo infinito, a característica primária que as plataformas maximizavam.
Quando os norte-americanos se deram conta de que aquilo era perigoso, grupos de Facebook do QAnon já tinham milhões de membros, vídeos de QAnon no YouTube tinham milhões de visualizações, e contas de Twitter do QAnon organizavam campanhas de assédio coletivo mirando celebridades que acusavam de complôs bizarros e canibalísticos. Um aplicativo que agregava os Q drops se tornou um dos mais baixados na App
Store. [59] Um livro, QAnon: An Invitation to a Great Awakening [QAnon: Convite a um grande despertar], escrito por um coletivo de seguidores anônimos, alcançou o segundo lugar na lista de mais vendidos da Amazon.
[60] Os integrantes passavam a vida imersos na comunidade, contando horas por dia nos chats em vídeo e nas threads de comentários que haviam se tornado seu mundo.
Em maio de 2018, um youtuber do QAnon invadiu uma fábrica de cimento do Arizona que ele dizia ser a central de uma quadrilha de tráfico infantil e transmitiu seu embate a centenas de milhares de espectadores no Facebook. No mês seguinte, outro adepto, carregando um fuzil AR -15, travou as duas faixas de trânsito que cruzam a represa Hoover com um caminhão blindado de fabricação caseira, exigindo que o governo liberasse um relatório citado por Q na mensagem do dia anterior. Outro foi preso em Illinois com material para confecção de uma bomba que pretendia detonar na sede do Legislativo estadual, mirando os satanistas que abusavam de crianças e que, acreditava ele, tinham tomado conta do local. Outro foi até a casa de um chefão da máfia em Staten Island, que ele acreditava ter sido marcado por Q como conspirador do Estado profundo, e atirou até matá-lo. O FBI , em um memorando interno, identificou o QAnon como ameaça potencial de terror doméstico. Mas Facebook, YouTube e Twitter, assim como aconteceu com Alex Jones, no geral se recusaram a tomar providências, permitindo que o movimento, impulsionado pelos vieses de suas plataformas, continuasse a crescer.
Praticamente toda a extrema direita conectada parecia atraída por Q. Assim como agentes da lei, atraídos por suas promessas de uma ordem com
pulso firme e retaliação aos progressistas. [61] O diretor do sindicato da polícia de Nova York deu entrevistas na TV com sua xícara do QAnon à mostra. O vice-presidente Mike Pence foi fotografado junto a um oficial da SWAT da Flórida usando um bottom de Q. O movimento migrou para o Instagram, que promoveu o QAnon com força, a ponto de muitas mães da ioga e influenciadoras de moda que dominavam a plataforma serem levadas
a tiracolo. [62]
Mas, apesar dos sentimentos de autonomia, segurança e comunidade que o QAnon oferecia, havia um custo: o isolamento esmagador. “Pra ser honesto, patriotas”, escreveu um QAnoner popular em um tuíte bastante compartilhado dentro do movimento, “quando comecei a participar de Q e dos patriotas e do movimento, eu me sentia muito sozinho porque a maioria das pessoas que conheço, mesmo conservadoras, acha que é tudo teoria da
conspiração. Só aqui, com vocês todos eu me senti em casa e querido!” [63] Dezenas responderam com histórias parecidas. “Estou no mesmo barco. Literalmente sem amigos nem família pra conversar. Agradeço que eu e a minha esposa corremos juntos atrás do coelho, porque um só tem o outro”, escreveu outro, acrescentando: “Até minha família adotiva me dispensou como se eu fosse um nada depois que o meu pai morreu. Por isso sou grato
por todo mundo que tá nesse barco comigo”. [64] Era uma das coisas que fizeram o QAnon ser tão bom na radicalização. Fazer parte costumava intensificar a própria noção de isolamento e de ficar à deriva que havia levado as pessoas a participar. Sem ter a quem recorrer e com necessidade redobrada de confiança, os seguidores se entregavam ainda mais à causa.
Em 2019, um dos pesquisadores do Facebook armou uma série de contas
de teste simulando a experiência média de certos arquétipos de usuários. [65] Uma delas era de “Carol Smith”, uma mãe fictícia da Carolina do Norte. O pesquisador fez Carol participar de páginas sobre criação de filhos, cristianismo e política conservadora, e então esperou para ver aonde o Facebook ia levá-la. Em dois dias a plataforma a conduziu ao QAnon. Cinco dias depois, escreveu o pesquisador em um relatório interno, a havia levado a um “bombardeio de conteúdo extremista, conspiratório e com imagens fortes”.
Um relatório à parte, também interno, descobriu que metade do contingente do QAnon no Facebook, que chegava a pelo menos 2,2 milhões de usuários, havia sido conduzido até lá, tal como no YouTube, através de
“grupos de porta de entrada”. [66] Era a confirmação dos alertas de Renée DiResta, desde sua primeira descoberta sobre o movimento antivacina, anos antes, de que o recurso era um veículo de radicalização. “Não tenho como enfatizar mais como os grupos são um desastre”, tuitou ela em 2018, conforme as provas se acumulavam. “O motor de recomendação de grupos é uma matriz de correlação de conspirações. Ele impulsiona gente dada a conteúdo extremista & polarizante a grupos fechados e depois secretos. O
FB não tem ideia do que construiu.” [67]
Mas o Facebook só intensificou seu compromisso com o recurso que, como sua própria pesquisa tinha demonstrado, guiava boa parte do crescimento do QAnon. Segundo a plataforma, 100 milhões de usuários, que ela esperava inflar até o bilhão, eram ativos em grupos e estes haviam se tornado o lugar onde eles passavam a maior parte do tempo. Até gente de dentro do Facebook, contudo, estava soando os alarmes. Outro relatório interno, que depois vazou para o Wall Street Journal , avisava: “Dos cem Grupos Cidadãos mais ativos dos Estados Unidos, 70% são considerados não recomendáveis por questões como ódio, desinformação, intimidação e