A máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo
6. A casa de espelhos
Só o começo
Uma semana antes do fechamento das urnas em 2016, Renée DiResta, grávida de nove meses, e depois de ter trocado o trabalho com investimentos por uma função executiva em uma startup de logística, viu uma coisa no Facebook que, mesmo após anos monitorando a plataforma, a deixou chocada. Ela estava recebendo a recomendação de entrar em grupos voltados para uma alegação de revirar o estômago: que democratas de renome vinham sigilosamente fazendo tráfico de crianças para rituais satânicos. Ela podia ter tratado os grupos como uma curiosidade digital, o último elo em uma longa cadeia de recomendações conspiratórias que, afinal de contas, tinha procurado durante sua pesquisa. Mas os grupos eram gigantescos: dezenas, centenas de milhares de integrantes. Havia postagens compartilhadas mais de 100 mil vezes. Embora não tivesse como saber, ela estava testemunhando o nascimento de um movimento de origem digital que, em quatro anos, se tornaria uma ala do Partido Republicano, um culto conspiratório que congrega milhões e a vanguarda de uma campanha para derrubar a democracia nos Estados Unidos. De início, ele se organizava sob um nome difícil de levar a sério: Pizzagate.
DiResta, alerta ao perigo de causas esquisitas no Facebook, googlou “Pizzagate”. O mecanismo de busca privilegiou resultados do YouTube, sua galinha dos ovos de ouro, e respondeu com uma série de vídeos da plataforma que, na maior parte, afirmava a conspiração. Eles declaravam que a investigação policial em torno de Anthony Weiner — ex-deputado democrata que fora pego trocando mensagens de conteúdo sexual com uma garota de quinze anos — havia descoberto provas de que ele, sua esposa Huma Abedin e a chefe dela, Hillary Clinton, estavam envolvidos em uma rede de abuso sexual infantil. Como prova, citaram os e-mails de John Podesta, coordenador da campanha de Clinton, que hackers russos tinham roubado e publicado via WikiLeaks. Uma pizzaria de Washington mencionada por Podesta nos e-mails, a Comet Ping Pong, insistiam os conspiradores, era a sede de uma vasta conspiração da elite que realizava o canibalismo ritualístico de crianças.
“Cerca de metade ou mais das pessoas que encontrei na internet acreditam totalmente nessa teoria”, disse Adam, o usuário de longa data do 4chan. Um dia a conspiração estava “por toda parte”, contou, sobretudo no Facebook, onde, depois de anos sem atividade, algumas páginas ressurgiram simplesmente para repetir a frase “O Pizzagate existe”. Mas foi no fórum de política do 4chan, a placa de Petri da internet no que diz respeito a conspirações patogênicas, que ele havia assistido à sua gênese.
A crença em conspirações está altamente associada à “anomia”, o
sentimento de estar desconectado da sociedade. [1] A base de usuários do 4chan se definiu em torno da anomia — a recusa mútua do mundo desconectado, a certeza e o ressentimento de que o sistema era armado contra eles. E eles idolatravam o líder do WikiLeaks, Julian Assange, um hacker anarquista cujo perfil político, tal como o 4chan, havia pendido para a alt-right . Assim, quando Assange publicou os e-mails de Podesta, em outubro, um mês antes da eleição, eles entenderam não como uma operação apoiada pelos russos, mas como o início de uma campanha sensacional para expor a odiada elite. Seguindo o grande passatempo do 4chan de mergulhos coletivos, os usuários vasculharam dezenas de milhares de páginas em busca de revelações. Em ecossistemas digitais fechados, onde os usuários controlam o fluxo das informações, é como se as provas que confirmam os vieses da comunidade se autoinvocassem, tal como uma brincadeira do copo na qual se apontam as letras da palavra que está na mente de todo mundo.
Quando os usuários do 4chan descobriram que Podesta, um chef amador, costumava mencionar comidas, eles concluíram que isso era um código. “Cheese pizza ” [pizza de queijo], sugeriu um deles, seria referência a pornografia infantil, que no 4chan costuma ser abreviada como “c. p. ” [de
child pornography ]. [2] Os usuários encontraram mais referências a pizza, algumas ligadas a menções a crianças. Embora os e-mails datassem de mais de uma década, quando reunidos era possível olhá-los de um jeito que os fazia parecerem suspeitos. Teorias vagas se espalharam até o fórum pró-Trump do Reddit, de alto tráfego. Uma postagem convocava os usuários a espalhar a palavra da ‘“Rede-Pedo' mundial ligada à FUNDAÇÃO CLINTON , que por acaso também vai tomar os Estados Unidos de vez”.
O salto para o Facebook começou nos grupos. Mesmo em páginas apolíticas, os usuários postaram imagens de threads do 4chan detalhando a conspiração e perguntando: “Isso é verdade?”. Varrendo tudo atrás de informações sobre a pizzaria Comet Ping Pong, os usuários encontraram a conta de Instagram do proprietário. Eles recontextualizaram imagens positivas — crianças brincando no restaurante, cartuns com fatias de pizza cobrindo a genitália das pessoas, o logotipo da Comet com uma estrela e uma lua — como provas de uma rede secreta de pedófilos. Em questão de dias, gamergaters e nacionalistas brancos de destaque no Twitter transmitiram as acusações, anexando telas do Facebook ou threads do 4chan. Usuários curiosos que buscassem mais informações no Google, como DiResta, eram levados a vídeos do YouTube que afirmavam a conspiração ou, se procurassem no Facebook, a grupos de discussão do Pizzagate. Sites de fake news como o YourNewsWire recondicionavam as postagens em artigos, que depois eram repostados no Facebook. O algoritmo do site as tratava como notícias com credibilidade sobre um tópico de alto interesse e as difundia mais. Na semana anterior à eleição, as redes sociais estavam dominadas por pesquisas, matérias sobre a campanha presidencial e pelo Pizzagate.
“Foi chocante ver como a coisa se desenrolou”, disse Adam. As pessoas que ele conhecia do mundo real compartilhavam memes do Pizzagate nas páginas do Facebook. Foi como se um muro que separasse a internet mainstream da extremista viesse abaixo. Era difícil resistir à atração. Embora ele soubesse que as postagens eram “absurdos de gente que usa chapéu de alumínio”, alguma coisa na sua onipresença “me fez procurar tudo que eu conseguisse”.
Em questão de um mês, 14% dos apoiadores de Trump acreditavam na afirmação “Hillary Clinton está vinculada a uma rede de abuso sexual
infantil que funciona em uma pizzaria de Washington”. [3] Quando outra pesquisa testou uma versão mais suave — “E-mails vazados da campanha de Clinton falam em pedofilia e tráfico de pessoas” —, a aceitação entre
eleitores de Trump subiu para 46%. [4] Ainda assim, na época, a maioria tratava os pizzagaters como esquisitões da internet que usavam um nome bobo. Mesmo quem os levava a sério perdeu o foco quando, na noite da eleição, Trump venceu em vários estados onde se projetava que ele perderia e acabou ficando com a Presidência.
Nos meses seguintes, fiscais da internet, jornalistas, comitês do Congresso e o presidente em fim de mandato viriam a acusar as plataformas sociais de impulsionar a desinformação e a ira sectária que abriu o caminho para a vitória de Trump. Quase todas as empresas, depois de um período de contrição por pecados mais específicos, como hospedar propagandistas russos e fake news, mudaram de assunto. Nas horas que se seguiram à eleição, porém, os primeiros a suspeitar da culpa do Vale do Silício foram muitos de seus próprios soldados rasos. No YouTube, quando a CEO Susan Wojcicki convocou sua equipe em choque, boa parte da conversa se centrou na preocupação de que os vídeos mais assistidos do YouTube ligados à eleição eram de oficinas de desinformação da extrema direita, como o
Breitbart e o conspiracionista Alex Jones. [5] Funcionários do Facebook expressaram receios similares. “Os resultados da eleição de 2016 mostram que a empresa fracassou na sua missão”, postou um funcionário no fórum
interno da companhia. [6] Outro: “Infelizmente, o feed de notícias otimiza o engajamento. Como descobrimos nas eleições, falar merda é o que mais engaja”. Outro: “O Facebook ficou podre”.
Executivos da empresa chegaram a ponto de perguntar entre si, em um
chat privado online, se tinham culpa. [7] No início daquele ano, afinal de contas, um pesquisador do Facebook apresentara um relatório preocupante
que depois vazou para o Wall Street Journal . [8] Na Alemanha, segundo o relatório, mais de um terço dos grupos políticos do Facebook eram considerados extremistas. O algoritmo em si parecia responsável: 64% das pessoas nos grupos tinham se afiliado por sugestão do sistema. Mas a empresa pouco fez para deixar o site menos desagregador, tanto em âmbito nacional como estrangeiro. Também havia um mal-estar interno quanto ao tratamento gentil da empresa para com Trump. Em 2015, o então candidato postara um vídeo no Facebook promovendo o banimento à imigração de muçulmanos. Quando o vídeo viralizou e ganhou curtidas de 105 mil usuários, além de 14 mil compartilhamentos, Mark Zuckerberg indeferiu os pedidos feitos por seus próprios funcionários para tirar o material do ar, por
violar as regras da plataforma contra o discurso de ódio. [9]
Mas, independentemente do que diziam em privado, em público o Facebook e outras empresas desprezavam os receios expostos por seus executivos e funcionários. “Da minha parte, acho que essa ideia de que as fake news no Facebook, em número muito pequeno dentro de todo o conteúdo, tenham influenciado a eleição de algum modo… acho que essa é uma ideia insana”, disse Zuckerberg dois dias depois das votações. Ele repreendeu os críticos por, afirmou, “uma profunda falta de empatia ao sustentar que o único motivo que teria levado alguém a votar como votou
foi ter visto fake news”. [10]
Da noite para o dia, a “empresa da revolução”, como Zuck erberg já descrevera o Facebook — a plataforma que atribuía a si o crédito de ter ajudado a Primavera Árabe e que, em seu experimento de 2010,
demonstrara empiricamente a capacidade de mobilizar 340 mil eleitores, [11] a líder de uma indústria que se via como o ápice da promessa do Vale do Silício de transformar a consciência humana —, se dizia apenas um site.
Dois dias depois, Zuckerberg publicou uma longa postagem no Facebook que suavizava, mas ainda mantinha, a defesa de que não tinha responsabilidade. Apenas 1% de visualizações dos usuários era de postagens que a empresa considerava “fraudes”, escreveu ele, o que tornava “extremamente improvável que fraudes tenham mudado o resultado desta eleição para um lado ou outro”. E complementou: “Temos que ser
extremamente cautelosos para não nos tornarmos árbitros da verdade”. [12]
DiResta, que assistia a tudo de uma maternidade em San Francisco, onde acabara de dar à luz o segundo filho, se cansou. “Martelei uma postagem no Medium direto do meu leito no hospital, porque estava furiosa”, contou. Zuckerberg, acreditava ela, “estava tirando o corpo fora da questão real e criando um espantalho”. As empresas das mídias sociais, escreveu, sabiam que os receios reais não eram de “fraudes” de fake news, mas da radicalização, das distorções da realidade e da polarização que cobriam todo o sistema. “Para certas comunidades-alvo”, lembrou ela o alerta que lhes havia feito várias vezes, sendo a última meses antes, “é a maior parte do que elas veem, porque a bosta dos seus algoritmos não para de recomendar isso.”
Outros do Vale do Silício estavam chegando ao mesmo diagnóstico. “Parece que ajudou mesmo a vencer a eleição”, disse um integrante do conselho de diretores do Twitter, falando da própria plataforma, dizendo
que seus efeitos eram “preocupantes”. [13] Tim O'Reilly, investidor de destaque e ex-chefe de DiResta, escreveu em uma postagem um tanto morna, embora direta: “A priorização que o Facebook dá ao ‘engajamento'
pode estar levando-os na direção errada”. [14]
Em fins de novembro, Guillaume Chaslot publicou seus resultados de acompanhamento do algoritmo do YouTube no arranque para o voto. Embora representasse apenas uma fatia dos bilhões de recomendações de vídeos da plataforma, o resultado era alarmante. “Mais de 80% dos vídeos recomendados eram favoráveis a Trump, fosse a busca inicial ‘Trump' ou ‘Clinton'”, escreveu ele. “Uma grande proporção dessas recomendações
visava discórdia ou era de fake news.” [15] Destas, algumas das mais populares promoviam o Pizzagate: o FBI tinha exposto a “rede satânica pedófila” de Hillary Clinton (1,2 milhão de visualizações), havia provas de que Bill Clinton teria abusado de uma criança (2,3 milhões de visualizações) e assim por diante.
Chaslot e DiResta estavam rodando em volta de uma pergunta que era feita de modo mais direto pelo público: As plataformas sociais tinham elegido Trump? Entendida de forma estreita, ela era fácil de responder. Menos de 80 mil votos, de 138 milhões, haviam pendido nos estados decisivos. Muitas coisas dariam conta de explicar, de forma plausível, uma margem tão pequena. Concorrência fraca entre os cargos menores, um último episódio de reality show que apagou um escândalo anti-Trump, a cobertura crédula da imprensa quanto aos e-mails do Partido Democrata que a Rússia hackeara ou, é claro, as mídias sociais. A questão maior era mais complexa. Seriam as plataformas sociais responsáveis, de modo significativo, pelo fenômeno Trump? Teriam elas guiado os norte-americanos ao trumpismo e, se foi o caso, com uma cutucada ou um empurrão? Era um assunto mais urgente do que uma eleição, porque a pergunta estava em busca de uma resposta a respeito da profundidade a que as distorções das mídias sociais podiam chegar. Seria o trumpismo só o começo?
Era inegável que Trump devia sua ascensão também a fatores não digitais: o colapso institucional do Partido Republicano, as décadas de polarização e de descrédito do público, o repúdio branco à transformação social, um eleitorado de direita radicalizado. As mídias sociais não haviam criado nada disso. Mas, com o tempo, uma rede de analistas e delatores viria a provar que elas tinham exacerbado todos esses fatores, em alguns casos de forma drástica.
Poucas semanas depois da eleição, Edgar Maddison Welch, da Carolina do Norte, com 28 anos e barba por fazer, enviou uma mensagem a um amigo: Invadindo a rede dos pedôs, talvez sacraficando [sic] a vida de
alguns pelas de muitos . [16] Ele vinha maratonando vídeos do YouTube sobre o Pizzagate. Alguém, concluiu, precisava tomar uma atitude. Welch pegou seu fuzil AR -15, uma pistola e um revólver e dirigiu até Washington. Chutando a porta da Comet Ping Pong, ele apontou o fuzil para um funcionário, que fugiu, tendo os fregueses saído enfileirados logo atrás. Então se voltou para uma porta lateral trancada, que ele reconhecia dos vídeos do Pizzagate como entrada para o porão onde conspiradores democratas trancavam as vítimas infantis. Ele disparou vários tiros contra a porta, depois a chutou. Encontrou apenas um armário com equipamentos de informática. A polícia cercou a pizzaria. Welch, de mãos para o alto, se entregou sem alarde.
O proprietário do restaurante, James Alefantis, passou os anos seguintes escondido para se defender de uma enxurrada de ameaças de morte com detalhes cada vez mais exatos. Ele implorou às plataformas que interviessem e conseguiu “reações” do Yelp e do Facebook. Mas o YouTube, segundo ele, se recusou a agir, insistindo no argumento de que aquela era apenas uma plataforma neutra sem responsabilidade pelo Pizzagate e, se Alefantis queria se proteger de vídeos que haviam incentivado Welch a invadir seu restaurante e ainda podiam estar radicalizando outras pessoas, que ficasse à vontade para voltar com um mandado. O Vale do Silício estava armando as trincheiras.