A máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo

Dr. YouTube

Em Maceió, uma das capitais mais pobres do Brasil, em um pátio concretado nos arredores da cidade, quinze mães se acotovelavam sob uma lona na chuva fraca, e todas aguardavam Mardjane Nunes. Desde 2015, milhares de grávidas na América Latina, contaminadas por um novo vírus chamado zika, deram à luz crianças com danos neurológicos graves e crânios malformados, um distúrbio chamado microcefalia. O Nordeste do Brasil, onde fica Maceió, foi a região mais atingida. Em bairros como aquele, mães formavam grupos de apoio para ajudarem umas às outras a lidar com o distúrbio mal compreendido que havia incapacitado seus filhos.

Nunes, especialista em zika, estava lá para tirar dúvidas. Em questão de minutos, uma mãe com o filho no colo se levantou e disse que tinha ouvido nas redes sociais que a doença era provocada por um vírus que vinha não de um mosquito, como diziam os médicos, mas de vacinas com validade vencida. Atormentada pela incerteza, ela estava pensando em parar com as vacinas. Cabeças em todo o grupo assentiram. Nunes lhe disse, com delicadeza mas sem ambiguidade, que os boatos eram falsos. Porém uma mãe atrás da outra expressou dúvida. Todas tinham visto aquilo ou algo parecido na internet. O zika era uma mentira ou um complô. Não se podia confiar nos médicos. As vacinas não eram seguras.

Nunes disse depois que já ouvira de colegas que as reuniões costumavam ter esse teor. Recentemente ela tinha deixado um cargo de prestígio no Ministério da Saúde para voltar a atuar na linha de frente, combatendo o HIV e o zika nos hospitais locais e em grupos da comunidade. As mídias sociais, disse, estavam se tornando tema de alerta crescente nos círculos de saúde pública. Pesquisadores de campo voltavam com histórias de cidades inteiras que recusavam tratamento, mães apavoradas negando o atendimento médico capaz de salvar a vida dos filhos. Mas ela não tinha como se preparar para o medo nos olhos das mães, para o nível de ruptura com o mundo real daquela comunidade. “Se esse grupo, que já é mais engajado, que já conversa mais entre si, ainda tem dúvidas”, disse ela, “imagine o que se passa na mente das mães que não têm um grupo como esse.”

Aquilo explicava, segundo Nunes, por que o Ministério da Saúde havia investido cada vez mais na educação de famílias como aquelas, só para se ver vencido pela desinformação que se espalhava ainda mais rápido nas

mídias sociais. A rejeição a vacinas estava crescendo no Brasil. [13] Assim como relatos de comunidades se recusando a usar larvicidas de mosquito, o método preferencial para combater o zika e que costuma ser citado em

vídeos de teoria da conspiração. [14] “As mídias sociais estão vencendo”, disse Nunes.

O problema não era novo. DiResta havia descoberto o Face book impulsionando de maneira sistemática conspirações a respeito do zika vírus já em 2015. O Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados constatou que, em 2017, o YouTube estava lotado de conspirações sobre a vacina da

febre amarela. [15] Os casos de febre amarela tiveram um surto por volta da mesma época, embora não fosse claro o que provocara o quê. De qualquer modo, muitas dessas conspirações tinham sido impulsionadas por canais políticos da extrema direita. Era mais uma prova para a conclusão de Kaiser: que o algoritmo do YouTube, ao unir canais de conspirações e extremistas que já haviam sido coisas separadas, os transformava em híbridos e em um novo tipo de ameaça.

“Tudo que você não sabe, você encontra no YouTube”, disse para minha colega Amanda uma das mães que haviam questionado a segurança das vacinas, Gisleangela Oliveira dos Santos, no dia seguinte, em sua própria casa. Embora Santos morasse a um dia de viagem, Amanda, também mãe recente, insistiu para que a equipe de filmagem viajasse com ela, por reconhecer que pais e mães que seguiam tais conspirações, embora fáceis de confundir com parte do problema, também eram vítimas das mídias sociais.

Quando a bebê de Santos foi diagnosticada com microcefalia, três anos antes, as informações eram escassas. Era um vírus novo, afinal. Ela buscou cada arremedo de informação que pôde na internet, inclusive no YouTube.

A plataforma repetidamente lhe oferecia vídeos que atribuíam a culpa pelo zika a vacinas contra sarampo vencidas, que o governo teria comprado mais baratas. A culpa era do mercúrio nas agulhas. De um conluio sinistro de estrangeiros que queriam debilitar famílias católicas. Alguns vídeos eram encenados para parecer o noticiário ou comunicados de utilidade pública. Alguns mostravam um padre ou outra figura confiável implorando às boas mães do Brasil que não dessem ouvidos aos médicos corruptos manipulados por estrangeiros. As outras mães da região haviam tido a mesma experiência, compartilhando os vídeos em grupos de WhatsApp, outra rede de confirmação entre grupos.

Santos contou que havia sido levada aos vídeos pelas recomendações do YouTube e pelo seu mecanismo de busca. Mesmo se buscasse no Google termos como “zika” ou “vacinas zika”, ela ia parar nos vídeos que a plataforma, mais uma vez com seu favorecimento sinérgico aos links mais lucrativos, geralmente colocava no alto dos resultados da busca. Santos sabia que a internet não era de todo confiável. Mas os vídeos a deixaram atônita e em dúvida. Ela havia começado a dar os imunizantes normais à filha. Porém, disse, “depois fiquei com medo de dar as outras vacinas”. Ela mesma parou de aceitá-las.

Desde então, Santos vive assolada por dúvidas e, acima de tudo, pela culpa. Ao aceitar as vacinas, teria ela provocado a doença que ameaçava a vida da filha? Os médicos lhe disseram que não. Mas as empresas de tecnologia dos Estados Unidos, extremamente respeitadas no Brasil, lhe disseram várias vezes que sim. Chegaram mesmo a lhe mostrar “provas”, empurrando-as na frente dela quase todas as vezes que procurava informações sobre como tratar da filha — a filha que o YouTube e o Google insistiam que ela incapacitara pelo resto da vida. “Eu me sinto impotente”, contou. “Eu me sinto impotente e ferida.” (Assim como outros incontáveis brasileiros, quanto mais tempo passava no YouTube, mais vídeos de apoio a Bolsonaro ela via. Santos disse que também os achava convincentes e que votou no candidato.)

O hospital público de Maceió não é especialmente bem financiado. Quando o visitei, muitas das luzes dos corredores estavam apagadas para poupar energia elétrica. Mas seu posto na linha de frente contra o zika tinha atraído o melhor da medicina do país. Quando os médicos de lá souberam por que eu estava ali, logo arranjaram tempo e me conduziram a uma copa quase sem mobília. “As fake news são uma guerra virtual. Aparecem de todos os lados”, disse o neuropediatra Flávio Santana. Ele comentou que as discussões dentro da comunidade médica do país estavam cada vez mais focadas nas frustrações com as plataformas sociais. “Se você vai a outros lugares do Brasil, encontra os mesmos problemas.”

Auriene Oliveira, especialista em doenças infecciosas, assentiu. Os pacientes cada vez mais desafiavam suas recomendações e contestavam o que ela dizia. “Eles me questionam: ‘Não, eu pesquisei no Google, eu vi no YouTube'”, contou. A médica entendia o dilema dos pacientes. Conspirações propunham um nível de certeza que a ciência não tinha como dar. Remédios caseiros faziam as mães achar que estavam recuperando o controle da saúde dos filhos. E as plataformas tinham uma presença com a qual Oliveira não conseguia competir, aparecendo dia sim e outro também na vida de mães que, por terem vários empregos ou morarem longe, ela via quem sabe uma vez por mês. Elas buscavam os aplicativos no celular não por preguiça ou ignorância, mas por necessidade.

Cada vez mais, contudo, os vídeos virais punham vidas infantis em risco ao aconselhar às mães não só que recusassem vacinas, mas também que tratassem certos males por conta própria, que recusassem sondas de alimentação para crianças cujo transtorno as impossibilitava de engolir. Em algumas ocasiões, disseram os médicos, eles ameaçavam chamar assistentes sociais para fazer as mães lhes darem ouvidos. Eles se sentiam péssimos em exercer esse poder contra as mães, mas às vezes era a única opção contundente para se equiparar ao poder das plataformas.

Perguntei quanto tempo fazia que isso vinha ocorrendo. Se houvesse coincidido com a chegada do zika, em 2015, então era possível dizer que se devia mais ao desnorteamento causado pelo vírus do que à mudança tecnológica. Mas aqueles médicos deram a mesma resposta que todo mundo. Tinha começado depois, logo após o YouTube atualizar os algoritmos. “Isso acontece mais de uma vez por semana”, disse Oliveira. “É cada vez mais grave.” Médicos e pesquisadores lamentavam, ela disse, que estivessem competindo contra “dr. Google e dr. YouTube”. E perdendo.

Reuni os vídeos conspiratórios que as mães e os profissionais de saúde haviam citado, muitos dos quais com centenas ou milhares de visualizações, e enviei à equipe de Kaiser. Perguntei: esses vídeos e os canais que os tinham postado apareciam na análise da rede feita por eles? Não só apareciam, como se descobriu, mas eram promovidos. A equipe identificou uma enorme rede de canais de saúde e bem-estar conectados pelo algoritmo, que cobriam de tudo, desde laudos médicos a cura por cristais.

[16] Assim como vídeos de política, o algoritmo usava canais com mais credibilidade ou mais conhecidos como portas de entrada que levavam os usuários às piores conspirações e desinformações. Os vídeos que mães e médicos angustiados haviam nos mostrado eram exatamente os que estavam no centro da rede, o destino final do algoritmo.

Eram provas concretas de que todos com quem havíamos falado sobre desinformação médica no Brasil estavam corretos quanto ao YouTube. Que a plataforma explorava o interesse normal do usuário por assuntos médicos, assim como fazia com a política, para levá-los a tocas de coelho em que, de outro modo, não teriam se entocado. E que, tal como aprendera a ordenar vídeos de política de modo a transformar espectadores casuais em radicais viciados, o YouTube havia passado a reunir vídeos de zika e de vacinas na ordem certa exatamente para convencer mães amorosas a colocar a vida dos filhos em risco.

“Sempre vai haver conteúdo limítrofe nas plataformas. É o que se espera”, disse Kaiser, esforçando-se para mostrar simpatia pelas empresas de tecnologia. “O que choca”, complementou ele, “é que os algoritmos do YouTube basicamente estão ajudando pessoas a tomar esse rumo.”