A máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo

A Galápagos dos Estados Unidos

“Eu ficava olhando aquilo”, lembra ela, “e dizia: ‘Vai ser um desastre'.”

Foi uma jornada que acabaria por colocá-la no rastro do Estado Islâmico e da espionagem militar russa. Em salas de reuniões do Departamento de Estado e em uma mesa de depoimento ao Congresso. E que a levaria a constatações chocantes quanto à influência que as redes sociais têm sobre todos nós. Mas começou na Califórnia, lutando contra um grupo marginal na internet que, ela ainda não havia percebido, representava algo muito mais profundo e espinhoso.

Era quase certo que ninguém no Facebook nem no YouTube queria promover a antivacinação. Os grupos representavam uma fatia tão minúscula dos seus impérios que qualquer retorno que dessem em anúncios devia ser trivial. Zuckerberg, numa resposta tácita ao problema, em 2015, escreveu que “as conclusões da ciência são claríssimas: vacinas funcionam e são importantes para a saúde de todos”. Mas a tecnologia que construía esse movimento marginal era guiada por uma coisa que nem o CEO da empresa tinha como superar: as convenções culturais e financeiras no cerne de toda a indústria.

 

A Galápagos dos Estados Unidos

Há menos de um século, o Vale de Santa Clara, na região central da Califórnia, era uma região vasta e tranquila de pomares e fábricas de conservas, pontilhada por guindastes sobre poços de petróleo. A paisagem começou a mudar em 1941, quando a Marinha japonesa atacou Pearl Harbor, desencadeando uma série de fatos que transformaram esse fim de mundo em uma das maiores concentrações de riqueza que o mundo já conheceu.

A história dessa transformação, que tem pouco a ver com as lendas de hackers ou contos sobre dormitórios universitários que fazem as vezes de folclore do Vale do Silício, em grande parte inventadas pelo próprio, instilou nele traços culturais e econômicos que foram embutidos aos produtos que cada vez mais governam nosso mundo. E começou com uma onda de pioneirismo que teve papel tão crucial quanto o dos engenheiros e CEO s que vieram depois: o complexo militar-industrial.

Depois de Pearl Harbor, o Pentágono, na preparação para a investida no Pacífico, mas temendo outro ataque de surpresa, dispersou a produção e a pesquisa militar por outras regiões da Costa Oeste que ainda tinham um quê de sertão. Um desses pontos foi o Campo Moffett, uma base aérea praticamente sem uso em uma baía cercada pelas montanhas Santa Cruz. Quando a guerra acabou, a máquina de guerra ficou e foi remanejada para o impasse cada vez mais intenso com a União Soviética. Preparando-se para a guerra nuclear, o Pentágono incentivou terceirizados a tirar seus projetos vitais de grandes centros. A Lockheed, gigante do ramo aeroespacial, aceitou a proposta e deslocou seus mísseis e sua divisão espacial para o tranquilo Vale de Santa Clara, logo atrás do hangar três do Campo Moffett. Boa parte da corrida armamentista da Guerra Fria foi conduzida a partir da base da Lockheed. O cofundador da Apple, Steve Wozniak, assim como muitos de sua geração, cresceu vendo pai ou mãe sair para trabalhar na Lockheed toda manhã.

Um centro de pesquisa acadêmica incomum, a poucos quilômetros dali, teve igual importância. Frederick Terman, filho de um professor de psicologia na então inexpressiva Universidade Stanford, havia passado a Segunda Guerra Mundial nos laboratórios de Harvard, supervisionando projetos de pesquisa que uniam militares e acadêmicos. Voltou para casa com uma ideia: que esse modelo de cooperação tivesse continuidade em tempos de paz, com cientistas universitários trabalhando em parceria com empresas privadas. Ele fundou o Stanford Research Park, onde empresas podiam cooperar com pesquisadores acadêmicos.

Como as fornecedoras da Guerra Fria eram vizinhas, várias toparam. O esquema atraiu cientistas de talento e pós-graduandos do leste do país, que viam a chance de fazer parte de uma patente ou startup com potencial de lucro. Departamentos de pesquisa universitários, pelo menos em teoria, geralmente trabalham em prol do bem maior. Stanford borrou a fronteira entre a pesquisa acadêmica e o lucro, uma mudança que se tornou central para a visão de mundo do Vale do Silício, absorvida e propagada por incontáveis empresas que circulavam pelo Research Park. Tirar a sorte no mercado de tecnologia e contribuir para o progresso humano, segundo aquele raciocínio, eram não só compatíveis — eram exatamente a mesma coisa.

Essas condições fizeram da Santa Clara dos anos 1940 o que Margaret O'Mara, reconhecida historiadora que estuda o Vale do Silício, chamou de

Galápagos do Silício. [2] Tal como a geologia peculiar e o isolamento extremo da famosa ilha renderam pássaros e espécies de lagartos singulares, as condições peculiares do Vale renderam jeitos de fazer negócios e de ver o mundo que não teriam vingado em outros lugares — e, ao fim e ao cabo, levaram ao Facebook, ao YouTube e ao Twitter.

A migração fortuita que semeou boa parte do DNA tecnológico do Vale, tal como o pouso de uma iguana à deriva que chegou às margens de Galápagos, foi feita por um engenheiro rabugento chamado William Shockley. Na Bell Labs, talvez a mais prestigiosa das empresas de pesquisa da Costa Oeste, ele foi um dos ganhadores do prêmio Nobel de 1956 por pioneirismo nos transistores com semicondutores. Os minúsculos aparelhos, que orientam ou alteram sinais eletrônicos, são elemento-chave para a eletrônica moderna. Shockley se convenceu de que ia superar os métodos da Bell Labs. No mesmo ano em que ganhou o Nobel, a saúde de sua mãe degringolou e ele voltou a sua cidade natal para cuidar dela e fundar sua empresa de transistores. Sua cidade natal era, por acaso, Palo Alto, a oito quilômetros do Campo Moffett. Seu projeto de transistor propunha substituir o semimetal germânio, usado convencionalmente, pelo silício.

Shockley, que tinha reputação de intratável e arrogante, se empenhou para convencer os engenheiros da Bell Labs a lhe fazerem companhia. Além disso, mesmo com o dinheiro do Pentágono entrando, poucos cientistas de pedigree queriam se mudar para o cafundó que era San José. Ele então contratou engenheiros talentosos cujos currículos não rendiam tantas oportunidades em Boston: sem pós-graduação, imigrantes, judeus. Alguns, como Shockley, eram brilhantes, mas de convívio difícil. Isso ajudou a definir as startups do Vale para todo o sempre como o território dos desajustados com iniciativa, que crescem pelo mérito que têm — legado que levaria suas futuras gerações a exaltar misantropos que largam a faculdade e a legitimar culturas corporativas venenosas, ao estilo de Shockley, como se fossem essenciais ao modelo. Em questão de um ano da fundação da empresa, porém, todos os talentos de Shockley se demitiram.

Seu “pendor para humilhar os funcionários”, [3] suas rejeições automáticas a qualquer ideia que não fosse sua e a inclinação para extremismos — ele viria a aceitar a eugenia e chamar negros de pessoas com inferioridade genética — se tornaram insuportáveis.

Para os desertores, o mais fácil e esperado seria que levassem suas inovações para o leste do país, onde o restante da indústria continuava existindo. Em vez disso, talvez por nenhum outro motivo fora o clima da Califórnia, eles conseguiram apoio financeiro da Costa Oeste e permaneceram onde estavam. Como sua base era, por acaso, o Vale de Santa Clara, foi dali também que vieram futuros talentos e investimentos nos semicondutores. A pequena indústria prosperou graças aos muitos engenheiros que já estavam na cidade a trabalhar para a Lockheed, garantindo recrutas de primeira linha para qualquer startup que se mostrasse promissora. E o Stanford Research Park tinha a pesquisa de ponta a seu alcance.

O manancial de talentos, dinheiro e tecnologia — os três ingredientes

essenciais — viriam a se manter no Vale, [4] e o resto do mundo à distância, através de uma modalidade de financiamento incomum: o capital de risco. Os dólares de Wall Street, em grande parte, permaneceram longe. Os produtos e o mercado eram muito obscuros para financiadores de fora. Aparentemente, os únicos capazes de identificar ideias promissoras, os próprios engenheiros, entravam com o financiamento das startups. Alguém que houvesse ganhado dinheiro com sua própria ideia ouvia falar de um novo projeto que estavam desenvolvendo do outro lado da cidade e fornecia o capital de arranque — no risco — em troca de uma porcentagem.