A máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo

Superpostadores

Seu departamento passou cada vez mais tempo acompanhando a provocação nas plataformas. Ele estava ficando preocupado, disse, quanto a boatos que podiam levar pessoas comuns à violência. Estranhamente, tal como no México, na Indonésia e aparentemente em país sim, país não, eles costumavam girar sobre misteriosas ameaças a crianças. “Temos muitas situações em que alguém viu alguém perto de um jardim de infância”, disse Pauli, sacudindo a cabeça. “Em cinco minutos aquilo se espalha”, prosseguiu, “e, de postagem em postagem, piora. Leva duas horas e aí você vê uma turba nas ruas partindo para o linchamento.”

 

Superpostadores

Traunstein, cidade na encosta de uma montanha próxima à Áustria é, em muitos aspectos, o oposto de Altena. O turismo prospera. O perfil político tende para o progressismo. Os jovens são ativos na comunidade. Mas, tal como em Altena, o uso do Facebook e a violência contra refugiados estão em nível anormalmente alto. Cheguei, agora acompanhado de Amanda, em busca de uma coisa em específico. Verificando grupos locais da plataforma atrás dos postadores mais ativos e mais visíveis, descobrimos o que é conhecido como um superpostador, alguém que, acredita-se, encarna como o Facebook pode deixar uma comunidade pouco a pouco mais extremista. Ele se chamava Rolf Wassermann.

Seja qual for a imagem que você tenha de um viciado em internet que mora no porão, Wassermann é o oposto. Homem de meia-idade com pele bronzeada, artista por ofício, ostentando uma barba mesclada e ternos escuros, ele tem a cara de quem saiu de um anúncio de cerveja artesanal na TV . Embora conservador, está longe de ser radical. Mas tem uma movimentação furiosa na internet, onde se encaixa no perfil arquetípico do superpostador. Posta sequências de boatos, colunas de opinião estridentes e notícias de crimes cometidos por refugiados. Embora nenhuma das postagens que vi tenha chegado perto de um discurso de ódio ou fake news, em conjunto elas retratavam a Alemanha acossada por estrangeiros perigosos.

“No Facebook, você consegue chegar a gente que não é superpolitizada”, afirmou Wassermann enquanto tomávamos café. “É possível construir as visões políticas dos outros no Facebook.” Ele descreveu o que disse ser um “arco típico” para quem conhecia por lá. A pessoa não tinha quase nenhum envolvimento com política. Ela começava a postar com frequência, talvez devido a um excedente repentino de tempo livre, a respeito de qualquer assunto que aparecesse no seu feed. Ela entrava em grupos do Facebook, que era onde em geral conhecia outros com ideias afins. Com o tempo, a pessoa ficava mais politizada e mais estridente. Tal como acontecera com ele.

Wassermann preferia mídias sociais a jornais ou TV , disse, porque “o Facebook é mais honesto”. Por exemplo: no Facebook, segundo me contou, ele havia aprendido que o número de refugiados na Alemanha e os crimes que cometiam eram ambos maiores do que a mídia afirmava. E ele fez o possível para espalhar essa revelação. “As coisas que as pessoas dizem no Facebook são mais verdadeiras”, afirmou. Como se percebesse o absurdo de acreditar numa coisa dessas só por acreditar, ele riu e complementou: “Suponho que são, pelo menos. Não sou Deus, eu não sei”.

Usuários hiperativos como Wassermann tendem a ser “mais obstinados, mais extremados, mais envolvidos, mais tudo”, disse Andrew Guess, cientista social da Universidade Princeton. É um conjunto de características diferente daqueles que você poderia associar a uma classe já muito estudada e muito entrevistada de viciados e pioneiros nas mídias sociais — como Adam, o devoto do 4chan. Superpostadores são uma espécie à parte, à qual as plataformas deram influência excepcional. Quando usuários mais casuais abrem as redes, costumam ver um mundo moldado por superpostadores. As redes sociais atraem gente com certos cacoetes de personalidade que tornam o uso intenso anormalmente gratificante. A predominância deles, por sua vez, distorce as normas e vieses da plataforma.

E esses traços e cacoetes que definem os superpostadores, mapeados numa série de estudos de psicologia, são negativos em linhas gerais. Um

deles é o dogmatismo: “certeza relativamente imutável e injustificada”. [13] A pessoa dogmática tende a ser tacanha, insistente e ruidosa. Outro: o narcisismo grandioso, definido por sentimentos de superioridade e

merecimento inatos. [14] O narcisista é guiado pelos desejos de admiração e pertencimento, o que torna irresistíveis o retorno instantâneo e os públicos imensos das redes. Essa necessidade é aprofundada pela autoestima anormalmente baixa dos superpostadores, que é exacerbada pelas próprias

plataformas. [15] Um estudo concluiu simplesmente que “aqueles que praticam hostilidade política na internet são indivíduos predispostos à

hostilidade em qualquer contexto”. [16] Experimentos neurológicos confirmaram: o superpostador é atraído e se sente recompensado pela potência social negativa, termo clínico para o ato de se deleitar ao causar

sofrimento emocional nos outros de maneira deliberada. [17] Além disso, ao usarem mais as mídias sociais e ao serem recompensados pelo uso com maior alcance, superpostadores propulsionam as plataformas ao dogmatismo, ao narcisismo, à exaltação e à crueldade.

Em um teste não intencional desse resultado, em 2015, Ellen Pao, ainda diretora do Reddit, tentou algo sem precedentes: em vez de promover os superusuários, o Reddit ia banir os mais virulentos. A equipe de Pao concluiu que, das dezenas de milhões de usuários, apenas por volta de 15 mil, todos hiperativos, guiavam a maior parte do conteúdo abominável. Expulsá-los, raciocinou Pao, podia mudar o Reddit por inteiro. Ela tinha

razão, como descobriu uma análise externa. [18] Com a eliminação dessa porcentagem minúscula de usuários, o discurso de ódio geral caía 80% entre os que ficavam. O comportamento de milhões de usuários mudou da noite para o dia. Foi um raro sucesso no combate de um problema que só se aprofundaria em outras plataformas, maiores, que não seguiram a deixa do Reddit. Elas não tinham interesse em reprimir seus usuários mais ativos, muito menos em reconhecer que houvesse algo parecido com passar tempo demais na internet.

Poderiam superpostadores mudar não só o que aparece nos feeds dos outros, mas também a noção de certo e errado das outras pessoas? Apresentei a questão a Betsy Levy Paluck, que ganhara uma “bolsa dos gênios” da Fundação MacArthur por seu trabalho sobre como normas

sociais influenciam o comportamento. [19] Eu esperava que ela fosse citar sua pesquisa a respeito, digamos, da violência comunitária em Ruanda. Em vez disso, ela quis falar do bullying escolar. Crianças em idade escolar fazem bullying ou não, ela havia descoberto, com base não na expectativa do castigo ou de achar que seu alvo merece, mas, em grande parte,

considerando se aquilo lhes parece moralista. [20] Ou o bullying era algo admissível, até virtuoso, ou passava uma sensação errada, e o que mais importava era esse barômetro interno. Mas o que define nosso barômetro interno? Temos tendência a acreditar que seguimos um código moral inato, que deriva de princípios sublimes, da experiência de vida, dos conselhos de um ancião de confiança. Na verdade, estudos constatam com frequência que nossa noção de certo ou errado é fortemente influenciada, mesmo que de maneira inconsciente, pelo que achamos que nossos pares pensam: a moralidade por consenso tribal, guiada não por um anjo bom ou poder superior, mas pela deferência, tendo em mente a autopreservação, à tirania dos primos.

Em um experimento na zona rural do México, [21] pesquisadores produziram uma radionovela cuja história rechaçava a violência doméstica contra mulheres. Em algumas regiões, ela era reproduzida nas casas, individualmente. Em outras, era transmitida pelos alto-falantes do vilarejo ou em reuniões da comunidade. Os homens que a ouviam em casa continuavam tão propensos à violência doméstica quanto antes. Mas os que a ouviam em contextos de grupo ficavam significativamente menos propensos a cometer abusos. E não porque sentissem algum tipo de pressão. Suas crenças internas haviam mudado, tornando-se moralmente opostas à violência doméstica e defendendo a igualdade de gênero. A diferença estava em ver como os pares absorviam a história da radionovela. O impulso para a conformidade — o mesmo que levara os primeiros usuários do Facebook, enganados, a se mostrar furiosos com o feed de notícias — pode sugar a medula moral do seu eu mais íntimo até não sobrar nada.

Na maior parte do tempo, deduzir as visões morais de nossos pares não é fácil. Por isso usamos um atalho. Prestamos atenção especial a meia dúzia de pessoas que consideramos influentes, seguimos as pistas que elas deixam e supomos que aquilo se reflete nas normas do grupo em geral. As pessoas que escolhemos como balizas morais são conhecidas como “referentes sociais”. Assim, a moralidade funciona “mais ou menos em função da percepção”, explicou Paluck. “Quem no nosso grupo se destaca de verdade? Quem nos vem à memória quando pensamos no que é comum, no que é desejável?”

Para testar isso, Paluck distribuiu sua equipe entre 56 escolas, identificando quais alunos eram influentes entre seus colegas, assim como

quais consideravam o bullying moralmente aceitável. [22] Então ela selecionou vinte ou trinta alunos em cada escola que aparentemente se encaixavam nas duas situações: eram, em tese, os que desempenhavam o papel mais relevante em instilar normas sociais pró-bullying nas comunidades. Eles foram convidados a condenar publicamente o bullying — não forçados, só convidados. A cutucada gentil a essa população minúscula se revelou transformadora. Balizas psicológicas levaram à conclusão de que milhares de alunos passaram a se opor verdadeiramente ao bullying, com suas bússolas morais orientadas para a compaixão. Os relatórios disciplinares relativos ao bullying caíram 30%.

As plataformas sociais nos colocam em uma versão do experimento escolar de Paluck. Mas, na internet, nossos referentes sociais, as pessoas artificialmente colocadas diante do nosso campo de visão moral, são os superpostadores. Não porque sejam persuasivos, reflexivos ou importantes, mas por que propulsionam o engajamento. Era algo singular a plataformas como o Facebook, explicou Paluck. Qualquer pessoa que conseguisse bastante tempo no feed se tornava influente. “Na vida real, há pessoas que podem falar bastante, mas não serão muito ouvidas. Mas o Facebook”, disse, “põe essas pessoas na sua frente o tempo todo.”

E as mídias sociais não só cercam você de superpostadores. Elas expõem as mensagens dessas pessoas em fóruns enormes, públicos, onde você sabe que todo mundo também vai ver, como os alto-falantes nos vilarejos do México que demonstraram o poder de mexer com toda a comunidade ao mesmo tempo. Na Alemanha, as mídias sociais aparentemente haviam exaltado uma classe de superpostadores como Wassermann, que dava a usuários ao largo do site a impressão de que as normas sociais eram mais hostis a refugiados e mais conspiratórias do que de fato eram. Era o imbróglio “Contra o feed de notícias” do Facebook em 2006, agora elevado à psique política de um país inteiro e dirigido a milhões dos seus moradores mais vulneráveis. Mesmo que nenhum desses superpostadores tenha endossado a violência de forma explícita, disse Paluck, o efeito agregado de suas mensagens antirrefugiados e antigoverno provavelmente passou a sensação de que a violência vigilantista seria tolerada, até incentivada.

Naquela tarde, em um evento para a comunidade de Traunstein, uma professora chamada Natascha Wolff se empertigou quando fiz uma pergunta sobre mídias sociais. Wolff me contou que lecionava em uma escola técnica, com alunos alemães e estrangeiros. Nos últimos meses, as crianças alemãs vinham se mostrando predispostas, quase de maneira uniforme, a uma hostilidade estridente contra os refugiados, de um modo que ela nunca presenciara. A professora sabia que existiam muitos motivos para tanto. Mas sempre que perguntava onde elas haviam visto as estatísticas fajutas ou as alegações de ódio que uma repetia para a outra, a resposta era a mesma: no Facebook.

Qualquer boato no Facebook que deprecia estrangeiros, disse Wolff, “se espalha rápido. As pessoas sentem que seu ponto de vista se confirmou”. Ela complementou, mexendo o braço para cima e para baixo, imitando alguém batendo em um teclado, “é só ‘curtida, curtida, curtida'”. Se ela contestava uma afirmação falsa, sempre recebia a mesma resposta: “Todo mundo sabe que é verdade”. Mas muitas vezes os alunos também estavam errados nesse sentido; muitas pessoas em Traunstein consideravam os rumores falsos. Wolff ficava preocupada que essa bolha do Facebook, o falso consenso comunitário, tivesse consequências. Jogavam café nos seus alunos refugiados, atiravam lixo para dentro das janelas dos seus carros. O tipo de violência casual, à luz do dia, que alguém só se arrisca a fazer quando supõe que será tolerado.

A violência que nasce nas mídias sociais havia ficado tão comum que a polícia começou a tratar as plataformas como ameaça corrente à segurança pública. “O Facebook não é só um quadro de cortiça no qual as pessoas pregam um papel e as outras leem”, disse um inspetor da polícia chamado Andreas Guske, durante um café no dia seguinte. “O Facebook, com seu algoritmo, influencia as pessoas.” Guske, investigador veterano, quase grisalho, começou a entender as redes sociais como ameaça séria em 2015, durante uma reunião do G7 nas redondezas. Quando os manifestantes chegaram, ele percebeu que as plataformas estavam se enchendo de boataria, com alguns rumores atiçando a multidão a entrar em frenesis de paranoia. No ano seguinte, os ataques a refugiados aparentemente cresceram em sincronia com o discurso de ódio na internet. Ele remanejou a equipe que supervisionava as comunicações entre departamentos para reagir, tanto na internet quanto fora. Eles se sentiram agentes de saúde, que inoculavam as comunidades contra a desinformação viral e suas consequências.

Em um caso recente, contou Guske, o Facebook havia ficado em polvorosa com alegações de que um grupo de refugiados muçulmanos em uma cidade próxima a Traunstein arrastara uma garota de onze anos para uma passagem de pedestres subterrânea e a estuprara. A história, embora falsa, provocou ondas de indignação à medida que o Facebook a espalhou pela Alemanha. Quando a polícia a negou, os usuários insistiram que políticos tinham mandado as forças da lei acobertar os fatos. A equipe de Guske descobriu que os boatos haviam começado depois que a polícia prendeu um imigrante afegão acusado de assédio a uma garota de dezessete anos. Conforme usuários do Facebook retransmitiram o incidente, alguns somaram detalhes para chocar ou causar indignação, fazendo essas versões passarem longe da verdade. Um agressor se tornou vários. Apalpar se tornou estuprar. A vítima adolescente se tornou pré-adolescente.

A polícia postou declarações no Facebook e no Twitter derrubando o boato ao reconstruir o modo como ele se espalhara. Se a polícia conseguisse mostrar como a plataforma tinha distorcido a realidade, acreditava Guske, as pessoas seriam convencidas a rejeitar o que haviam visto. Mas ele também sabia que, nas redes sociais, uma checagem de fatos sóbria não chegaria ao alcance de um boato libidinoso. Então, sua equipe identificou moradores que haviam compartilhado o boato no início da disseminação e bateu na porta de cada um com provas de que haviam entendido o incidente de maneira equivocada. A equipe insistiu com eles para que repudiassem publicamente suas alegações, esperando voltar o próprio sistema de promoção das plataformas contra a desinformação. Com exceção de um morador, todos retiraram ou corrigiram suas postagens, tal como solicitado. Mas o inspetor e sua equipe não conseguiam acompanhar o ritmo das plataformas, cuja produtividade venenosa, temia ele, estava acelerando. E ele lamentou que o Facebook, na época uma empresa de 500 bilhões de dólares, estivesse deixando para delegacias sobrecarregadas de trabalho o gerenciamento dos riscos que havia criado. “É difícil prevenir fake news, porque assim que o Facebook impulsiona…”, ele não completou a frase, sacudindo a cabeça. “O que você vai fazer?”

Naquela tarde, enquanto Amanda entrevistava moradores de toda a cidade sobre mídias sociais, encontrei-me em um parque com uma jovem que frequentava a escola técnica de Wolff. Ela estava com uma amiga, que levara seu filho. Ambas, polidas mas reservadas, disseram ser pouco politizadas. Nenhuma das duas lia notícias — com exceção do que viam no Facebook, que acessavam com frequência. Assim que lhes perguntei o que achavam sobre os refugiados, não quiseram mudar de assunto. Refugiados eram violentos, eram estupradores e muitos simpatizavam com extremistas, disseram. Relataram histórias escabrosas e implausíveis de crimes cometidos por eles que o governo ocultava. Elas haviam lido tudo no Facebook, lugar onde costumavam discutir a “situação dos refugiados”, disse uma delas.

Os habitantes de Traunstein são de tendência progressista, mas há uma divisão política. Perguntei à mulher se costumava participar de discussões sobre refugiados na internet. Ela pareceu confusa com a pergunta. “Todo mundo se sente assim”, disse. Seu filtro-bolha, unânime quanto ao medo, havia se tornado sua realidade. Ela, assim como Wassermann e seus amigos da internet, como os outros alunos de Wolff, como os moradores a quem Guske implorava que derrubassem mentiras racistas, eram a massa submersa de um iceberg de radicalização das redes sociais em toda a sociedade. Denkhaus, o bombeiro incendiário, era só a ponta. Incontáveis alemães que tinham se tornado mais xenófobos, mais conspiratórios, mais nacionalistas. A maioria nunca recorria à violência. Mas seu pendor coletivo tinha consequências mais profundas, manipulando invisivelmente a moralidade e a política da sociedade. Em uma democracia rica como a Alemanha, o resultado talvez não fosse tão óbvio quanto uma turba linchadora ou uma confusão. Podia ser pior. O centro político do país estava desabando. A extrema direita alemã estava crescendo.