Cérebro: Uma Biografia

David Eagleman · Capítulo 9 de 71

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Cérebro: Uma Biografia

Sou a soma das minhas lembranças?

 

Nosso cérebro e nosso corpo mudam tanto durante a vida, que, assim como o ponteiro da hora em um relógio, é difícil detectar as mudanças. Por exemplo, a cada quatro meses, as células vermelhas do seu sangue são inteiramente substituídas, e as células da pele são trocadas em intervalos de poucas semanas. Em cerca de sete anos, cada átomo de seu corpo será substituído por outro. Do ponto de vista físico, você constantemente se transforma em um novo alguém. Felizmente, pode haver uma constante que ligue todas essas versões diferentes de uma pessoa: a memória. Talvez a memória possa servir como o fio que faz você ser quem é. Ela está no centro da sua identidade, proporcionando um senso de personalidade contínuo e singular.

Mas aqui talvez haja um problema. Será que a continuidade pode ser uma ilusão? Imagine entrar em um parque e se encontrar em diferentes fases da vida. Lá está você aos seis anos, na adolescência, no final dos vinte, em meados dos cinquenta, no início dos setenta e próximo da morte. Nesta hipótese, vocês podem todos se sentar juntos e contar as mesmas histórias sobre sua vida, desenredando o fio único da sua identidade.

Ou não? Todas as suas versões têm o mesmo nome e história, mas o fato é que vocês são pessoas relativamente diferentes, com valores e objetivos distintos. E as lembranças da sua vida podem ter menos em comum do que se poderia esperar. A lembrança de quem você era aos 15 anos é diferente de quem você de fato era nessa idade; além disso, você terá lembranças diferentes relacionadas com os mesmos acontecimentos. Por quê? Devido ao que a memória é – e ao que ela não é.

A memória, mais do que um gravador de vídeo preciso de um momento de sua vida, é um estado cerebral frágil de uma época passada que deve ser ressuscitado para que você possa se lembrar.

Um exemplo: você está em um restaurante, na festa de aniversário de um amigo. Tudo que acontece incita determinados padrões de atividade em seu cérebro. Por exemplo, há um padrão determinado de atividade que ganha vida durante uma conversa entre seus amigos. Outro padrão é ativado pelo cheiro do café, outro pelo gosto de um bolo delicioso. O ato de o garçom encostar o polegar no copo em que você está bebendo é mais um detalhe memorável, representado por uma configuração diferente de descarga entre os neurônios. Todas essas constelações tornam-se interligadas em uma vasta rede associativa de neurônios que o hipocampo repete sem parar, até que as associações se tornam fixas. Os neurônios ativados ao mesmo tempo estabeleceram conexões mais fortes entre eles: células que se estimulam unidas entram em circuito unidas. A rede resultante é a marca única do acontecimento e representa sua lembrança do jantar de aniversário.

Agora vamos imaginar que, seis meses depois, você come um bolo que tem o mesmo gosto do que foi servido na festa de aniversário. Esta chave muito específica pode destrancar toda uma teia de associações. A constelação original se acende, como as luzes de uma cidade. E, de repente, você retorna àquela lembrança.

Embora nem sempre notemos, a memória não é tão rica quanto se pode esperar. Você sabe que seus amigos estavam lá. Um deles deve ter usado um terno, porque sempre está de terno. Outra estava de blusa azul. Ou quem sabe era roxa? Pode ter sido verde. Se você realmente sondar a memória, perceberá que não consegue se lembrar de detalhes sobre qualquer outra pessoa que estava no restaurante, embora o lugar estivesse cheio.

Assim, sua lembrança do jantar de aniversário começou a desbotar. Por quê? Para início de conversa, você tem um número finito de neurônios e todos eles precisam exercer funções diversas. Cada neurônio participa de diferentes constelações em diferentes momentos. Seus neurônios operam em uma matriz dinâmica de relações cambiantes e sofrem uma demanda forte e contínua para se conectar com outros. Assim, sua lembrança do jantar de aniversário começa a desbotar porque aqueles neurônios “do aniversário” foram cooptados para participar de outras redes da memória. O inimigo da memória não é o tempo, são outras lembranças. Cada novo acontecimento precisa estabelecer novas relações entre um número finito de neurônios. A surpresa é que uma memória desbotada não parece desbotada para você, que sente, ou pelo menos supõe, que o quadro inteiro está ali.

E a sua lembrança do acontecimento é ainda mais vaga. Digamos que, no ano que passou desde o evento, os dois amigos que estavam no jantar se separaram. Agora, você pode ter a falsa lembrança de que sentiu que algo estava estranho entre eles. Ele não estava mais calado do que o normal naquela noite? Não houve estranhos momentos de silêncio entre os dois? Bom, será difícil ter certeza, porque o conhecimento que agora existe na sua rede altera a lembrança correspondente daquela época. O que ocorre no presente se sobrepõe ao que houve no passado, então, um único acontecimento pode ser visto de formas diferentes em períodos diferentes da sua vida.