Cérebro: Uma Biografia

David Eagleman · Capítulo 46 de 71

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Cérebro: Uma Biografia

Os mecanismos invisíveis da tomada de decisão

OS MECANISMOS INVISÍVEIS DA TOMADA DE

DECISÃO

 

Conhecer-se é apenas parte da batalha – você também precisa saber que o resultado de suas batalhas não será sempre o mesmo. Mesmo na ausência de um pacto de Ulisses, algumas vezes você estará mais entusiasmado para ir à academia e outras vezes, menos. Às vezes, você é mais capaz de tomar uma boa decisão e, em outras ocasiões, seu parlamento neural dará um voto que irá causar arrependimento mais tarde. Por quê? Porque o resultado depende de muitos fatores cambiantes sobre o estado de seu corpo, estados que podem mudar de uma hora para outra. Por exemplo: dois homens cumprindo uma sentença de prisão têm data marcada para aparecer perante um conselho de condicional. Um prisioneiro aparece perante o conselho às 11:27 da manhã. Seu crime é fraude e ele está cumprindo trinta meses. Outro prisioneiro aparece à 1:15 da tarde. Ele cometeu o mesmo crime, pelo qual recebeu a mesma sentença.

O primeiro prisioneiro tem a condicional negada, o segundo a recebe. Por quê? O que influenciou a decisão? Raça? Aparência? Idade?

Um estudo realizado em 2011 analisou mil decisões de juízes e descobriu que provavelmente nenhum desses fatores contou para a decisão – fome foi o principal. Logo depois de o conselho de condicional ter desfrutado de um intervalo para comer, a probabilidade de um prisioneiro conseguir a condicional chega a seu ponto mais alto: 65%. Mas um prisioneiro que chega mais para o fim de uma sessão tem chances reduzidas: apenas uma probabilidade de 20% de um resultado favorável.

Em outras palavras, as decisões são repriorizadas enquanto outras necessidades têm sua importância aumentada. As avaliações mudam com as circunstâncias. O destino de um prisioneiro está irrevogavelmente entremeado com as redes neurais do juiz, que operam segundo necessidades biológicas.

Alguns psicólogos descrevem este efeito como “esgotamento do ego”, o que significa que as áreas cognitivas de nível mais elevado, envolvidas na função executiva e no planejamento (como o córtex pré-frontal) ficam fatigadas. A força de vontade é um recurso limitado; a reserva pode diminuir, como um tanque de combustível. No caso dos juízes, quanto mais casos exigem decisões (mais de 35 em uma sessão), mais esgotados os cérebros ficam de energia. Porém, depois de comer um sanduíche e uma fruta, por exemplo, a reserva de energia deles foi reabastecida e impulsos diferentes ganharam poder na condução das decisões.

Por tradição, supomos que a espécie humana é um agente racional de decisão: absorve informações, as processa e obtém uma resposta ou solução ideal. Mas o ser humano verdadeiro não opera dessa maneira. Até os juízes, empenhados em não ter nenhum viés, são prisioneiros da biologia.

Nossas decisões são igualmente influenciadas quando se trata de como agimos com nossos parceiros amorosos. Pense na escolha da monogamia – criar vínculo e ficar com um único parceiro. Essa poderia parecer uma decisão que envolve cultura, valores e moral. Tudo isso é verdade, mas existe também uma força mais profunda agindo sobre sua tomada de decisão: os hormônios. Um deles em particular, chamado ocitocina, é o principal ingrediente na magia do vínculo. Em um estudo recente, homens que estavam apaixonados por suas parceiras receberam uma pequena dose de ocitocina extra. Em seguida, foram solicitados a classificar o grau de atração de diferentes mulheres. Com a ocitocina a mais, os homens acharam suas parceiras mais atraentes, mas não outras mulheres. Na verdade, os homens mantiveram uma distância física um pouco maior de uma pesquisadora atraente associada ao estudo. A ocitocina aumentou o vínculo com as parceiras.

Por que temos substâncias químicas como a ocitocina conduzindo-nos para o vínculo? Afinal, da perspectiva evolutiva, podemos esperar que um homem não queira a monogamia, se seu imperativo biológico é disseminar os genes ao máximo. Porém, pela sobrevivência dos filhos, ter os dois genitores é melhor do que ter apenas um. Esse fato simples é tão importante, que o cérebro possui maneiras ocultas de influenciar sua tomada de decisão nessa linha de frente.

 

FORÇA DE VONTADE, UM RECURSO

FINITO

 

Gastamos muita energia nos convencendo a tomar decisões que sentimos ser necessárias. Para andar na linha, em geral recorremos à força de vontade, essa força interior que lhe permite desprezar o biscoito (ou pelo menos o segundo biscoito), ou que lhe permite cumprir um prazo de trabalho quando tudo que deseja é tomar sol. Todos nós sabemos como é quando nossa força de vontade parece estar baixa: depois de um dia longo e difícil no trabalho, em geral as pessoas se veem tomando decisões piores – por exemplo, comem mais do que pretendiam ou vão assistir à televisão em vez de cumprir seu próximo prazo.

Assim, o psicólogo Roy Baumeister e colegas colocaram isso à

prova. Pessoas foram convocadas para ver um filme triste. Metade delas tinha de reagir como fazia normalmente, enquanto a outra metade foi instruída a reprimir as emoções. Depois do filme, todas receberam um aparelho para fortalecer as mãos e foram solicitadas a apertá-lo pelo máximo de tempo que conseguissem. Aquelas que reprimiram as emoções desistiram mais cedo. Por quê? Porque autocontrole requer energia, o que significa que

temos menos energia disponível para a próxima coisa que precisamos fazer. E é por isso que resistir à tentação, tomar decisões difíceis ou assumir a iniciativa parecem ações que exigem a mesma quantidade de energia. Então, a força de vontade não é algo que simplesmente exercemos – é algo que se esgota.

 

Imagem 19: Córtex pré-frontal dorsolateral

 

O córtex pré-frontal dorsolateral se ativa quando quem faz dieta

escolhe o alimento mais saudável a sua frente, ou quando as

pessoas decidem adiar uma pequena recompensa no momento

atual em troca de um resultado melhor depois.