Cérebro: Uma Biografia

David Eagleman · Capítulo 34 de 71

Páginas do PDF

Cérebro: Uma Biografia

As cavernas fundas do inconsciente

 

O alcance da mente inconsciente se estende para além do controle do corpo. Ela dá forma à vida de maneiras mais profundas. Da próxima vez que estiver conversando, observe como as palavras saem da sua boca mais rapidamente do que você pode controlar conscientemente o que diz. Seu cérebro trabalha nos bastidores, elaborando e produzindo linguagem, conjugações e pensamentos complexos para você (por analogia, compare sua velocidade quando fala uma língua estrangeira que começou a estudar há pouco tempo).

O mesmo trabalho de bastidores é válido para as ideias. Levamos o crédito consciente por todas as nossas suposições, como se tivéssemos o trabalho árduo de gerá-las. Porém, na realidade, seu cérebro inconsciente esteve trabalhando nessas ideias – consolidando lembranças, experimentando novas combinações, avaliando as consequências – por horas ou meses antes que elas surgissem em sua consciência e você dissesse “acabei de pensar em uma coisa!”.

O homem que começou a esclarecer as profundezas ocultas do inconsciente foi um dos cientistas mais influentes do século XX. Sigmund Freud ingressou na faculdade de medicina em Viena em 1873 e se especializou em biologia. Quando abriu um consultório particular para o tratamento de distúrbios psicológicos, percebeu que era frequente que os pacientes não tivessem conhecimento consciente do que impelia seus comportamentos. O insight de Freud foi de que grande parte deles era fruto de processos mentais invisíveis. Essa ideia simples transformou a psiquiatria, levando a uma nova maneira de compreender os impulsos e emoções humanos.

Antes de Freud, os processos mentais aberrantes ou não eram explicados ou eram descritos como possessão demoníaca, pouca força de vontade e assim por diante. Freud insistiu em procurar a causa no cérebro físico.

Ele fazia os pacientes se deitarem em um divã no consultório para que não tivessem de olhá-lo diretamente e depois os fazia falar. Em uma época anterior às varreduras do cérebro, essa era a melhor janela para o mundo do cérebro inconsciente. O método de Freud era coletar informações sobre padrões de comportamento no conteúdo dos sonhos, em lapsos de linguagem, em erros de escrita. Ele observava como um detetive, procurando pistas para o mecanismo neural inconsciente a que os pacientes não tinham acesso direto.

Freud convenceu-se de que a mente consciente é a ponta do iceberg dos nossos processos mentais, enquanto a parte muito maior do que impele nossos pensamentos e comportamentos está oculta.

A especulação de Freud provou-se correta e uma consequência disso é que, em geral, não conhecemos a origem das nossas próprias escolhas. Nosso cérebro constantemente retira informações do ambiente e as usa para conduzir nosso comportamento, mas com frequência as influências a nossa volta não são reconhecidas. Pense no efeito chamado pré-ativação

(priming), em que uma coisa influencia a percepção de outra. Por exemplo, se você estiver segurando uma bebida quente, descreverá sua relação com um parente de forma mais favorável; ao segurar uma bebida gelada, expressará uma opinião um tanto mais desfavorável a respeito do relacionamento. Por que isso acontece? Porque os mecanismos cerebrais para avaliar o calor interpessoal coincidem com os mecanismos para avaliar o calor físico, então um influencia o outro. O resultado é que sua opinião sobre algo tão fundamental como o seu relacionamento com sua mãe pode ser manipulado de acordo com o que está em suas mãos (um chá quente ou gelado). Da mesma forma, se você estiver em um ambiente de mau cheiro, tomará decisões morais mais severas – por exemplo, é mais provável que julgue imorais os atos incomuns de outra pessoa. Outro estudo revelou que, se você está sentado em uma cadeira dura, será um negociador linha-dura em uma transação comercial. Se estiver em uma cadeira macia, irá ceder mais.

 

EMPURRANDO O INCONSCIENTE

 

No livro Nudge (“Empurrão”), Richard Thaler e Cass Sunstein apresentam uma abordagem para melhorar “decisões a respeito de saúde, riqueza e felicidade”, entregando-as às redes inconscientes do cérebro. Um pequeno empurrão do ambiente pode mudar para melhor nosso comportamento e tomada de decisão, sem que estejamos conscientes disso. Colocar frutas no nível dos olhos dos consumidores em um supermercado leva as pessoas a tomar decisões alimentares mais saudáveis. Colar uma imagem de uma mosca em mictórios de aeroportos induz os homens a ter uma melhor pontaria. Inscrever automaticamente os funcionários em planos de aposentadoria (e dar a eles a liberdade de optar por participar ou não, se assim preferirem) leva a melhores práticas de poupança. Essa visão de governança é chamada de paternalismo brando, e Thaler e Sunstein acreditam que conduzir o cérebro inconsciente de modo suave tem uma influência muito mais forte sobre nossa tomada de decisão do que qualquer coação direta.

 

Tome como outro exemplo a influência inconsciente do “egotismo implícito”, que descreve nossa atração a coisas que nos lembram de nós mesmos. Quando o psicólogo social Brett Pelham e sua equipe analisaram os registros de pós-graduados de faculdades de odontologia e direito, descobriram uma

representação estatística maior de dentistas ( dentists) chamados Dennis ou Denise, e de advogados (lawyer) de nome Laura ou Lawrence. Também descobriram que era mais provável que

proprietários de empresas que constroem telhados (roof) tivessem um nome que começasse com R, enquanto o nome de

donos de lojas de ferragens (hardware) provavelmente nome começavam com H. Mas será que só tomamos essas decisões quando escolhemos uma profissão? Bom, a vida amorosa também pode ser fortemente influenciada por essas semelhanças. Quando o psicólogo John Jones e seus colegas examinaram as certidões de casamento nos estados da Georgia e da Flórida, descobriram um número maior de casais que partilham a mesma inicial em seus nomes. Isso significa que é mais provável que Jenny se case com Joel, Alex com Amy e Donny com Daisy. Esse tipo de efeito inconsciente é pequeno, porém pode ser verificado.

E aqui está o ponto crítico: se você perguntasse a qualquer uma dessas Denises, Lauras ou Jennys por que escolheram uma profissão ou um parceiro, elas relatariam uma narrativa consciente. Mas essa narrativa não incluiria o longo alcance de seu inconsciente sobre algumas das decisões mais importantes que elas tomaram na vida.

Vejamos outro experimento criado pelo psicólogo Eckhard Hess em 1965. Homens foram solicitados a olhar fotografias de rostos femininos e fazer uma crítica. O quanto os rostos eram atraentes, em uma escala de 1 a 10? As expressões eram felizes ou tristes? Más ou gentis? Simpáticas ou antipáticas? Sem o conhecimento dos participantes, as fotografias tinham sido manipuladas. Em metade das fotos, as pupilas das mulheres estavam dilatadas artificialmente.

Os homens acharam mais atraentes as mulheres de olhos dilatados. Nenhum dos homens notou explicitamente nada no tamanho das pupilas das mulheres – e presumivelmente nenhum dos homens sabia que olhos dilatados são um sinal biológico de excitação feminina. Mas o cérebro deles sabia. Assim, os homens foram inconscientemente conduzidos para as mulheres de olhos dilatados e as acharam mais bonitas, mais felizes, mais gentis e mais simpáticas.

Na realidade, o amor costuma ser assim. Você se vê mais atraído a algumas pessoas do que a outras e, em geral, não é possível explicar precisamente o porquê. Presume-se que haja um motivo; você só não tem acesso a ele.

Em outro experimento, o psicólogo evolucionista Geoffrey Miller estimou o quanto uma mulher é sexualmente atraente a um homem, registrando os ganhos das dançarinas de uma boate de

strip. Ele acompanhou como o quanto elas ganhavam mudava durante seu ciclo menstrual. O que aconteceu foi que os homens davam o dobro de gorjetas quando a dançarina estava ovulando (fértil) em comparação a quando ela estava menstruada (não fértil). Mas a parte estranha é que os homens não sabiam, de forma consciente, das alterações biológicas que acompanham o ciclo mensal – quando uma mulher ovula, uma alta do hormônio estrogênio altera sutilmente sua aparência, deixando as feições mais simétricas, a pele mais macia e a cintura mais estreita. Ainda assim, eles detectaram essas pistas de fertilidade, abaixo do radar da consciência.

Experimentos desse tipo revelam algo fundamental sobre a operação do cérebro. O trabalho do órgão é coletar informações sobre o mundo e conduzir seu comportamento apropriadamente. Não importa se sua consciência desperta está envolvida ou não. Na maior parte do tempo, ela não está. Na maior parte do tempo, você não está consciente das decisões que toma.