Cérebro: Uma Biografia

David Eagleman · Capítulo 65 de 71

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Cérebro: Uma Biografia

Um computador pode pensar?

 

 

Será que um computador um dia será programado para que tenha consciência, que tenha mente? Na década de 1980, o filósofo John Searle montou um experimento de raciocínio que vai diretamente ao cerne desta questão. Ele o chamou de Argumento da Sala Chinesa.

Acontece assim: estou trancado numa sala. Eu recebo perguntas por uma pequena fresta para cartas – e essas mensagens são escritas apenas em chinês. Eu não falo chinês. Não tenho a menor ideia do que está escrito nas folhas de papel. Porém, dentro da sala existe uma biblioteca e os livros contêm instruções passo a passo que me dizem exatamente o que fazer com esses símbolos. Olho os símbolos reunidos e simplesmente sigo os passos do livro que me dizem que símbolos chineses copiar numa resposta. Escrevo na folha de papel e a devolvo pela fresta.

Uma oradora chinesa vê sentido em minha resposta. Parece que quem está na sala responde a suas perguntas com perfeição e assim fica evidente que a pessoa na sala deve entender chinês. Eu a enganei, é claro, porque só estou seguindo instruções, sem compreender nada do que está havendo. Com tempo e um conjunto de instruções de tamanho suficiente, posso responder quase a qualquer pergunta que me façam em chinês. Mas eu, o operador, não entendo chinês. Eu manipulo símbolos o dia todo, mas não faço ideia do que eles significam.

Searle argumenta que é exatamente isso que acontece dentro de um computador. Por mais inteligente que pareça um programa como o iCub, ele apenas segue conjuntos de instruções para dar respostas, manipulando símbolos sem compreender realmente o que faz.

O Google é um exemplo desse princípio. Quando você entra com uma busca no Google, ele não entende sua pergunta nem possui uma resposta: alguns números zero e um são deslocados e você recebe números zero e um como resposta. Com um programa impressionante como o Google Tradutor, posso falar uma frase de suaíle e ele me dará a tradução em húngaro. Mas é tudo algoritmo. Tudo é manipulação de símbolos, como a pessoa dentro da sala chinesa. O Google Tradutor não entende nada sobre a frase e ela não tem significado para ele.

O Argumento da Sala Chinesa sugere que desenvolvemos computadores que imitam a inteligência humana, mas que, na realidade, eles não entendem o que se fala; não haverá significado em nada do que fizerem. Searle usou este experimento de pensamento para argumentar que existe algo no cérebro humano que não seria explicado se simplesmente fizéssemos uma analogia entre eles e os computadores digitais. Existe um abismo entre os símbolos que não têm significado e nossa experiência consciente.

Há um debate contínuo sobre a interpretação do Argumento da Sala Chinesa, porém, embora esteja sujeito a interpretação, o argumento expõe o quanto é enigmático e difícil para nossos componentes físicos igualar a nossa experiência de estar vivo no mundo. A cada tentativa de simular ou criar uma inteligência semelhante à humana, somos confrontados por uma questão central não resolvida da neurociência: como algo tão magnífico como a sensação subjetiva de ser “eu” – uma pontada de dor, a vermelhidão do vermelho, o gosto de uma toranja – surge de bilhões de simples células cerebrais realizando suas operações? Afinal, cada célula cerebral é apenas uma célula, obedecendo a regras locais, rodando suas operações básicas. Sozinhas, não podem fazer muita coisa. Então, como bilhões delas resultam na experiência subjetiva de ser eu?