Cérebro: Uma Biografia

David Eagleman · Capítulo 10 de 71

Páginas do PDF

Cérebro: Uma Biografia

A falibilidade da memória

 

As pistas para a maleabilidade de nossa memória vieram do trabalho pioneiro da professora Elizabeth Loftus, do campus de Irvine da Universidade da Califórnia. Ela transformou o campo da pesquisa da memória, mostrando como as lembranças são suscetíveis.

Loftus elaborou uma experiência em que chamou voluntários a assistir a filmes de acidentes de carro e depois fez uma série de perguntas para testar o que eles lembravam. As perguntas que fez influenciavam as respostas recebidas. Ela explica: “Eu perguntei qual era a velocidade dos carros quando eles ‘colidiram’ e quando ‘se esmagaram’. As testemunhas deram estimativas de velocidade diferentes porque pensaram que os carros estavam mais rápidos quando usei a palavra ‘esmagaram’.” Intrigada ao ver que perguntas conducentes podiam contagiar a memória, ela decidiu ir além.

Seria possível implantar memórias falsas? Para descobrir, ela recrutou um grupo de participantes e pediu que sua equipe entrasse em contato com as famílias destas pessoas para descobrir informações sobre acontecimentos do passado delas. Depois, os pesquisadores montaram quatro histórias a respeito da infância de cada uma. Três eram verídicas. A quarta história continha informações plausíveis, mas era inventada: todos os participantes tinham se perdido em um shopping quando eram crianças, foram encontrados por uma pessoa idosa gentil e levados de volta para os pais.

Em uma série de entrevistas, os participantes ouviram as quatro histórias. Pelo menos um quarto deles disse que se lembrava do incidente de se perder no shopping – embora isso não tivesse acontecido. E não parou por aí. Loftus explica: “Eles podem pouco se lembrar do fato no início. Mas, uma semana depois, passam a se lembrar mais. Talvez falem da idosa que os resgatou.” Com o tempo, um número cada vez maior de detalhes entra furtivamente na falsa memória: “A mulher estava com um chapéu estranho”; “Eu estava com meu brinquedo preferido”; “Minha mãe ficou muito zangada”.

Então, foi possível implantar memórias novas e falsas no cérebro. Não apenas isso – as pessoas as adotaram e as enfeitaram, entremeando, sem saber, a fantasia no tecido de sua identidade.

Todos somos suscetíveis a essa manipulação da memória – a própria pesquisadora foi. Por acaso, quando Elizabeth era criança, a mãe dela se afogou em uma piscina. Anos depois, uma conversa com um parente revelou um fato extraordinário: ela havia encontrado o corpo da mãe na piscina. A novidade foi um choque, já que Elizabeth não sabia da informação e não acreditou naquilo. “Fui para casa depois daquele aniversário e pensei: talvez seja verdade. Pensei em outras coisas de que me lembrava, dos bombeiros chegando, de como eles me deram oxigênio. Talvez eu tivesse precisado de oxigênio porque fiquei perturbada demais por ter encontrado o corpo?” Logo depois, ela conseguia se lembrar de ter visto o corpo da mãe na piscina.

No entanto, ela recebeu um telefonema desse mesmo parente, que disse ter se enganado: a tia de Elizabeth era que tinha encontrado o corpo. Dessa forma, a pesquisadora pôde experimentar a sensação de ter sua própria falsa memória, de forma profunda e detalhada.

Nosso passado não é um registro fiel. Ele é uma reconstituição e às vezes pode beirar a mitologia. Quando analisamos as lembranças de nossa vida, devemos ter a consciência de que nem todos os detalhes são exatos. Alguns vêm de histórias que as pessoas nos contaram, outros contêm partes do que achamos que aconteceu. Então, se a sua resposta para a pergunta “quem sou eu?” se baseia simplesmente em lembranças, sua identidade se torna uma narrativa um tanto estranha, contínua e mutável.

 

MEMÓRIA DO FUTURO

 

Henry Molaison sofreu seu primeiro ataque epilético forte no dia em que completou 15 anos. A partir dali, as convulsões ficaram mais frequentes. Diante de um futuro de convulsões violentas, Henry se submeteu a uma cirurgia experimental, que retirou a parte do meio de seu lobo temporal (incluindo o hipocampo) dos dois lados do cérebro. Henry foi curado das crises, mas com um efeito colateral horrível: pelo resto da vida, ele se tornou incapaz de criar novas lembranças.

Mas a história não termina aqui. Além de sua incapacidade de

formar novas lembranças, ele também não conseguia imaginar o futuro.

Imagine como seria ir à praia amanhã. No que você pensa? Em

surfistas e castelos de areia? Na arrebentação das ondas? Em raios de sol rompendo as nuvens? Se você perguntar a Henry o que ele consegue imaginar, uma resposta típica poderia ser “Só o que me vem à cabeça é a cor azul”. O infortúnio de Henry revela algo sobre os mecanismos cerebrais subjacentes à memória: o propósito deles não é simplesmente registrar o que já aconteceu, mas nos permitir projetar o futuro. Para imaginar a experiência do amanhã na praia, o hipocampo, em particular, tem um papel fundamental na montagem de um futuro imaginário, recombinando informações do nosso passado.