Cérebro: Uma Biografia

David Eagleman · Capítulo 19 de 71

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Cérebro: Uma Biografia

Ver parece fácil, mas não é

 

Enxergar parece um ato tão espontâneo, que é difícil valorizar o esforço feito pelo cérebro para construir a visão. Para entender um pouco o processo, fui a Irvine, na Califórnia, para ver o que acontece quando meu sistema visual não recebe os sinais que espera.

A doutora Alyssa Brewer, da Universidade da Califórnia, está interessada na compreensão de como o cérebro é adaptável. Para isso, os participantes de sua pesquisa recebem óculos de prisma que trocam os lados esquerdo e direito do mundo – e estuda como o sistema visual lida com isso.

Em um belo dia de primavera, coloquei os óculos de prisma. O mundo virou: os objetos à direita agora apareciam a minha esquerda e vice-versa. Quando tentava entender onde Alyssa estava, meu sistema visual me dizia uma coisa, enquanto a audição dizia outra. Meus sentidos não combinavam. Quando estendi a mão para pegar um objeto, a visão de minha própria mão não combinava com a posição reclamada por meus músculos. Depois de dois minutos usando os óculos, eu transpirava e sentia náuseas.

Embora meus olhos estivessem funcionando e aprendendo o mundo, o fluxo de dados visuais não era coerente com outros fluxos de dados. Isto representou um trabalho árduo para meu cérebro. É como se eu estivesse aprendendo a ver pela primeira vez.

Eu sabia que o uso dos óculos não resultaria nessa dificuldade para sempre. Outro participante, Brian Barton, também usava os óculos de prisma – e assim o fez por uma semana inteira. Brian não parecia que estava prestes a vomitar, como eu. Para comparar nossos níveis de adaptação, eu e ele competimos para preparar um bolo. Deveríamos quebrar os ovos numa tigela, acrescentar uma mistura para bolo, colocar a massa em formas de cupcake e levá-las ao forno.

Não houve competição: os cupcakes de Brian saíram do forno com a aparência normal, enquanto a maior parte da minha massa foi parar na bancada ou espalhada pela forma. Brian conseguiu viver em seu mundo sem grandes problemas, enquanto eu passei por inepto. Precisei me esforçar e estar atento a cada movimento.

O uso dos óculos me permitiu experimentar o esforço normalmente oculto por trás do processamento visual. No início daquela manhã, pouco antes de colocá-los, meu cérebro pôde explorar seus anos de experiência com o mundo. Porém, depois de uma simples reversão de um dado sensorial, não podia mais fazer isso.

Para avançar ao nível de proficiência de Brian, eu sabia que precisaria continuar a interagir com o mundo por muitos dias: estendendo a mão para pegar objetos, seguindo a direção dos sons, cuidando da posição dos meus braços e pernas. Com bastante prática, meu cérebro seria treinado por uma comparação contínua entre os sentidos, assim como o cérebro de Brian fez por sete dias. Com treinamento, minhas redes neurais entenderiam como os vários fluxos de dados que entravam no cérebro se combinavam com outros fluxos de dados.

Brewer conta que, depois de alguns dias usando os óculos, as pessoas desenvolvem um senso interno de uma esquerda nova e uma esquerda antiga, e de uma direita nova e uma direita antiga. Depois de uma semana, elas conseguem se mover normalmente, assim como Brian, e perdem o conceito de quais eram as esquerdas e direitas antigas e novas. O mapa espacial do mundo se altera. Depois de duas semanas, elas conseguem ler e escrever bem, caminham e alcançam objetos com a proficiência de alguém que não está usando os óculos. Em um curto espaço de tempo, elas dominam a inversão de entrada de informações.

O cérebro não se importa muito com os detalhes das informações que chegam – simplesmente quer entender como se mover pelo mundo com mais eficiência e conseguir o que precisa. Todo o trabalho árduo de lidar com os sinais de nível baixo é feito por você. Se tiver a oportunidade de usar óculos de prisma um dia, use. Eles mostram a quantidade de esforço que o cérebro faz para que a visão pareça fácil.