Cérebro: Uma Biografia
Sua experiência da realidade
Parece que você tem acesso direto ao mundo por meio dos seus sentidos. Você pode estender a mão e tocar o material do mundo físico, como este livro ou a cadeira em que está sentado. Mas o tato não é uma experiência direta. Embora dê a impressão de acontecer nos seus dedos, na realidade, o tato ocorre no centro de controle de missão do cérebro. O mesmo acontece em todas as suas experiências sensoriais. A visão não está acontecendo nos seus olhos, a audição não ocorre nos seus ouvidos, o olfato não acontece no seu nariz. Todas as suas experiências sensoriais ocorrem em tempestades de atividade dentro do material computacional do cérebro.
A chave é esta: o cérebro não tem acesso ao mundo. Lacrado no interior da câmara escura e silenciosa do crânio, seu cérebro jamais viveu o mundo externo e nunca viverá.
Em vez disso, só há um jeito de a informação que vem de fora chegar ao cérebro. Seus órgãos dos sentidos – olhos, ouvidos, nariz, boca e pele – agem como intérpretes. Eles detectam o sortimento de fontes de informação (inclusive fótons, ondas de compressão de ar, concentrações moleculares, pressão, textura, temperatura) e o traduz para a moeda corrente do cérebro: os sinais eletroquímicos.
Esses sinais eletroquímicos correm por densas redes de neurônios, as principais células sinalizadoras do cérebro. Existem 100 bilhões de neurônios no cérebro humano e cada um deles envia dezenas ou centenas de pulsos elétricos a milhares de outros neurônios em cada segundo de sua vida.
Nada do que você vive, seja uma visão, um som, um cheiro, é uma experiência direta – na verdade, é uma versão eletroquímica em um teatro escuro.
Como o cérebro transforma seus imensos padrões eletroquímicos em uma compreensão útil do mundo? Ele o faz comparando os sinais que recebe de diferentes dados sensoriais, detectando padrões que lhe permitem fazer a melhor conjectura a respeito do que existe “lá fora”. Essa operação é tão eficiente, que parece funcionar de modo espontâneo. Mas vamos observá-la de perto.
Comecemos pelo sentido mais dominante: a visão. O ato de ver parece tão natural, que é difícil estimar o imenso mecanismo necessário para que ele aconteça. Cerca de um terço do cérebro humano é dedicado à missão da visão, a transformar fótons de luz puros no rosto de nossa mãe, do animal de estimação que amamos ou no sofá onde estamos quase cochilando. Para desmascarar o que acontece internamente, vamos ao caso de um homem que perdeu a visão e depois teve a oportunidade de recuperá-la.