Cérebro: Uma Biografia
Vendo nossas expectativas
Quando você anda pela rua de uma cidade, parece automaticamente saber o que são as coisas sem ter de elaborar os detalhes. Seu cérebro faz suposições sobre o que vê com base no seu modelo interno, formado em anos de experiência andando pelas ruas de outras cidades. Cada experiência que você teve contribui para o modelo interno em seu cérebro.
Em vez de usar os sentidos para refazer constantemente a realidade a partir do nada em cada momento, você está comparando informações sensoriais com um modelo que o cérebro já construiu, que é atualizado, refinado e corrigido. O seu cérebro é tão especializado nesta tarefa, que você normalmente não tem consciência dela. Às vezes, porém, em certas condições, você consegue ver o processo em funcionamento.
Experimente colocar uma máscara plástica de um rosto, do tipo que se usa no Dia das Bruxas. Agora vire-a, de modo a olhar para a parte de trás, que é oca. Você sabe que o verso da máscara é oco, mas, em geral, não consegue deixar de ver o rosto como se ele se projetasse em sua direção. O que você experimenta não são os dados brutos atingindo os olhos, mas seu modelo interno, que foi treinado durante uma vida inteira enxergando rostos – e este modelo ficou. A ilusão da máscara oca revela a força de suas expectativas no que você vê (eis aqui um jeito fácil de demonstrar a ilusão da máscara oca: pressione o rosto contra neve fresca e tire uma foto da impressão. Para o seu cérebro, a imagem resultante parece uma escultura de neve em três dimensões que se destaca).
Imagem 7: Quando você é confrontado com o lado oco de uma máscara (à
direita), a impressão é que ela se projeta em sua direção. O que vemos é
fortemente influenciado por nossas expectativas.
Também é o seu modelo interno que permite que o mundo lá fora continue estável, mesmo quando você está em movimento. Imagine que você estivesse prestes a ver a paisagem de uma cidade de que quisesse muito se lembrar. Então, você pega o celular para capturar um vídeo. Porém, em vez de correr suavemente sua câmera pela paisagem, decide movê-la exatamente como fazem seus olhos. Em geral, apesar de você não ter consciência disso, seus olhos saltam cerca de quatro vezes por segundo em movimentos espasmódicos chamados sacádicos. Se filmasse desse jeito, logo descobriria que esta não é a melhor maneira: ao assisti-lo, descobriria que é nauseante ver um vídeo de solavancos rápidos.
Por que o mundo parece estável quando você o observa? Por que ele não parece espasmódico e nauseante como seu vídeo mal feito? Esta é a resposta: o seu modelo interno opera segundo o pressuposto de que o mundo externo é estável. Seus olhos não são como câmeras de vídeo – eles simplesmente se aventuram a encontrar mais detalhes para alimentar o modelo interno. Eles não são como lentes de câmera pelas quais você enxerga, reúnem fragmentos de dados para alimentar o mundo que existe dentro do seu crânio.