Cérebro: Uma Biografia

David Eagleman · Capítulo 5 de 71

Páginas do PDF

Cérebro: Uma Biografia

O jogo da natureza

 

Em nossa infância prolongada, o cérebro corta continuamente suas ligações, moldando-se às particularidades do ambiente. Esta é uma estratégia inteligente para combinar um cérebro com seu ambiente, mas também tem seus riscos.

Se o cérebro em desenvolvimento não está em um ambiente adequado e “esperado” – um ambiente em que uma criança seja alimentada e receba cuidados –, ele enfrenta dificuldades para se desenvolver normalmente. É algo que a família Jensen, de Wisconsin, viveu na própria pele. Carol e Bill Jensen adotaram Tom, John e Victoria quando as crianças tinham quatro anos. As três eram órfãs que suportaram condições pavorosas em orfanatos estatais na Romênia até a adoção – e sofreram consequências no desenvolvimento cerebral.

Quando os Jensen escolheram as crianças e pegaram um táxi para sair da Romênia, Carol pediu ao taxista para traduzir o que elas diziam. O motorista explicou que não dava para entender aquele falatório porque não era uma língua conhecida. Famintas de interação normal, as crianças desenvolveram um dialeto estranho. Conforme cresceram, tiveram de lidar com dificuldades de aprendizado e com as cicatrizes das privações que sofreram na infância.

Tom, John e Victoria não se lembram muito dos tempos da Romênia. Porém, alguém que se lembra nitidamente dessas instituições é o doutor Charles Nelson, professor de pediatria no Hospital Infantil de Boston. Ele as visitou pela primeira vez em 1999 e ficou apavorado com o que viu. Crianças eram mantidas nos berços, sem nenhum estímulo sensorial. Havia uma só pessoa para cuidar de 15 crianças e os trabalhadores eram instruídos a não as pegar no colo nem demonstrar nenhuma forma de afeto, mesmo quando elas choravam – a preocupação era que os gestos de carinho levassem as crianças a querer mais, o que era impossível para uma equipe tão limitada. Nesse contexto, as coisas eram reguladas ao máximo. As crianças faziam fila, segurando penicos de plástico para fazer suas necessidades. Todos tinham o mesmo corte de cabelo, independentemente do gênero. Vestiam-se de forma semelhante, alimentavam-se em horários determinados. Tudo era mecanizado.

As crianças que choravam não recebiam atenção até que aprendessem a não repetir essa ação. Não eram abraçadas e ninguém brincava com elas. Embora tivessem suas necessidades básicas atendidas (eram alimentadas, banhadas e vestidas), os bebês eram privados de cuidados emocionais, apoio e qualquer estímulo emocional. Por conseguinte, desenvolveram “afabilidade indiscriminada”. Nelson afirma ter entrado em um quarto onde foi cercado por crianças pequenas, que jamais havia visto, e elas queriam abraçá-lo, sentar em seu colo, segurar sua mão ou sair dali com ele. Embora esse tipo de comportamento indiscriminado pareça meigo à primeira vista, é uma estratégia que crianças negligenciadas usam para lidar com essa situação e está ligada a problemas de apego a longo prazo. Trata-se de um comportamento característico de crianças que cresceram em um orfanato.

Abalados com as condições que testemunharam, Nelson e sua equipe criaram o Programa de Intervenção Precoce em Bucareste.

O grupo avaliou 136 crianças, com idades entre os seis meses e os três anos, que viviam nessas instituições desde o nascimento. Primeiro, ficou evidente que elas tinham um QI na casa dos 60 e 70, quando a média é de 100. Mostravam sinais de subdesenvolvimento cerebral e sua linguagem era muito atrasada. Quando usou eletroencefalografia (EEG) para medir a atividade elétrica no cérebro dessas crianças, Nelson descobriu que elas tinham a atividade neural drasticamente reduzida.

 

ORFANATOS ROMENOS

 

Em 1966, para aumentar a população e a força de trabalho, o presidente romeno Nicolae Ceausescu proibiu a contracepção e o aborto. Ginecologistas do Estado, conhecidos como a “polícia da menstruação”, examinavam mulheres em idade reprodutiva para garantir que elas produzissem prole o suficiente. Era cobrado um “imposto sobre o celibato” das famílias que tinham menos de cinco filhos. A taxa de natalidade foi estratosférica.

Muitas famílias pobres não podiam cuidar dos filhos e os

entregavam a instituições administradas pelo Estado. O Estado, por sua vez, fundou mais instituições para atender à demanda crescente. Em 1989, quanto Ceaucescu foi deposto, 170 mil crianças abandonadas moravam em orfanatos.

Os cientistas logo revelaram as consequências que o cérebro de

alguém que tinha sido criado pelo Estado sofria. E esses estudos influenciaram a política do governo. Com o passar dos anos, a maioria dos órfãos romenos foi devolvida aos pais ou transferida para orfanatos governamentais. Em 2005, a Romênia criminalizou a entrega de crianças a orfanatos antes dos dois anos de idade, a não ser que fossem gravemente incapacitadas.

Milhões de órfãos de todo o mundo ainda vivem em orfanatos

institucionais. Em vista da necessidade de um ambiente estimulante para o desenvolvimento do cérebro de uma criança, é imperativo que os governos encontrem meios de dar a elas condições que permitam o desenvolvimento encefálico adequado.

 

Sem um ambiente com cuidados emocionais e estímulos cognitivos, o cérebro humano não pode se desenvolver normalmente.

O que serve de estímulo é que o estudo de Nelson também revelou um importante outro lado dessa moeda: em geral, o cérebro consegue se recuperar, em graus variados, depois que as crianças passam a viver em um ambiente seguro e amoroso. Quanto menos idade a criança tem durante a transferência, melhor é sua recuperação. Aquelas que são transferidas para lares adotivos antes dos dois anos costumam se recuperar bem. Depois, elas apresentam melhoras, porém, dependendo da idade, ficam com problemas de desenvolvimento em diferentes níveis.

Os resultados obtidos por Nelson destacam o papel fundamental de um ambiente amoroso e estimulante para o desenvolvimento do cérebro infantil. E isso ilustra a profunda importância do ambiente na formação de quem nos tornamos. Somos extraordinariamente sensíveis ao que nos cerca. Graças à estratégia de voo no piloto automático adotada pelo o cérebro humano, quem somos depende muito dos locais por onde passamos.