Cérebro: Uma Biografia

David Eagleman · Capítulo 67 de 71

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Cérebro: Uma Biografia

A consciência como uma propriedade emergente

A CONSCIÊNCIA COMO UMA PROPRIEDADE

EMERGENTE

 

Para entender a consciência humana, talvez precisemos pensar não em termos dos componentes do cérebro, mas em como interagem esses componentes. Se quisermos ver como simples peças podem dar origem a algo maior do que elas mesmas, não precisamos olhar para além do formigueiro mais próximo.

Com milhões de integrantes em uma colônia, as formigas cortadeiras cultivam o próprio alimento. Assim como o homem, são fazendeiras. Algumas formigas partem do ninho para encontrar vegetação fresca; quando encontram, cortam grandes pedaços que levam de volta ao ninho. Porém, as formigas não as comem. Formigas operárias menores pegam os pedaços das folhas, cortam em fragmentos pequenos e usam como fertilizante para cultivar fungo em grandes “hortas” subterrâneas. As formigas alimentam o fungo e do fungo brotam pequenos corpos de frutificação que as formigas comerão depois (a relação se tornou tão simbiótica, que o fungo não consegue mais se reproduzir sozinho, depende inteiramente da formiga para sua propagação). Usando essa estratégia de cultivo bem-sucedida, as formigas constroem enormes ninhos subterrâneos, espalhando-se por centenas de metros quadrados. Como a espécie humana, elas aperfeiçoaram uma civilização agrícola.

Aqui temos uma parte importante: embora a colônia pareça um superorganismo que realiza proezas extraordinárias, cada formiga se comporta de forma muito simplista. Ela apenas obedece a regras locais. A rainha não dá ordens, não coordena o comportamento do alto. Em vez disso, cada formiga reage a sinais químicos locais de outras formigas, larvas, invasores, alimento, dejetos ou folhas. Cada formiga é uma unidade autônoma e simples cujas reações dependem apenas do ambiente local e das regras geneticamente codificadas para sua variedade de formiga.

Apesar de não haver uma tomada de decisão centralizada, as colônias de formigas cortadeiras exibem o que parece ser um comportamento extraordinariamente sofisticado (além do cultivo, elas também realizam feitos como situar a distância máxima de todas as entradas da colônia para dispor dos mortos, um problema geométrico sofisticado).

A lição importante é que o comportamento complexo da colônia não surge da complexidade nos indivíduos. Cada formiga não sabe que faz parte de uma civilização de sucesso: ela apenas executa seus programas pequenos e simples.

Quando um número suficiente de formigas se reúne, surge um superorganismo, com propriedades coletivas mais sofisticadas do que os componentes fundamentais. Este fenômeno, conhecido como “emergência”, é o que acontece quando unidades simples interagem de formas corretas e aparece algo maior.

A chave é a interação entre as formigas. E o mesmo acontece com o cérebro. Um neurônio é simplesmente uma célula especializada, como outras células no corpo, mas com algumas adaptações que lhe permitem desenvolver processos e propagar sinais elétricos. Como uma formiga, uma célula individual do cérebro passa toda a vida executando seu programa local, carregando sinais elétricos por sua membrana, expelindo neurotransmissores quando chega o momento e recebendo neurotransmissores de outras células. E é só isso. O neurônio vive na escuridão, passa a vida incrustado em uma rede de outras células, simplesmente reagindo a sinais. Ele não sabe se está envolvido no movimento de seus olhos para ler Shakespeare ou no movimento das mãos para tocar Beethoven. O neurônio não sabe quem é você. Embora os seus objetivos, intenções e capacidades sejam inteiramente dependentes da existência desses pequenos neurônios, eles vivem numa escala menor, sem ter consciência do resultado de sua união.

Mas basta que essas células cerebrais básicas se unam, interagindo do jeito certo, e a mente emerge.

Para onde quer que olhe, você pode encontrar sistemas com propriedades emergentes. Um pedaço de metal de um avião não tem a propriedade de voar, mas, quando você organiza as peças do jeito certo, surge o voo. Os componentes de um sistema podem ser muito simples. Tudo depende de como eles interagem. Em muitos casos, as partes em si são substituíveis.